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(pt) [A BATALHA, n. 194] Huxley Revisitado

From Worker <a-infos-pt@ainfos.ca>
Date Fri, 4 Oct 2002 05:11:48 -0400 (EDT)


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O futuro é dos bárbaros
Orson Wells

No prefácio do após-guerra à reedição de
 “Brave New World”, que for a lançado no
 “avant-guerre” em 1932, isto é, um ano depois
 de Robert Aron ter publicado “Le Cancer 
American” e a um ano da ascensão de Hitler 
ao poder, Aldous Huxley, céptico quanto à 
estabilidade social e ao movimento popular 
em grande escala, faz um exame da sua 
predição fordiana. A revolução, propriamente 
dita, teria de realizar-se na alma e na carne 
dos seres humanos, porque a inflação 
continuaria cientificamente descontrolada e 
a fome universal progrediria - falso progresso 
originando novas doenças mortais, 
totalitarismos diferentes culminando no 'único 
totalitarismo internacional' ; os escravos com 
amor à sua servidão. Cunhas redondas nos 
buracos quadrados.
Clarividência impressionante a mais de 
quarenta anos da globalização, falhando 
relativa e compreensivamentee na alienação 
cinema-rádio, superada pela televisão.
Entre as soluções utópica e primitiva, a existência 
sã de espírito, houve uma terceira via de Huxley: 
economia descentralizada e política cooperativa; 
ciência e técnica feitas para o homem e não o 
contrário; religião como procura consciente e não 
superstição.



O Director do “Brave New World”, ao serviço 
da Fordinidade, for a explícito: o segredo da 
felicidade e da virtude está em gostar daquilo 
que se é obrigado a fazer; fazer as pessoas 
apreciar o destino social a que não podem 
escapar; ter ódio instintivo aos livros e às flores
 - não se pode consumir muito se se fica 
tranquilamente sentado a ler livros; ter reflexos 
inalteravelmente condicionados; ter a liberdade 
de não servir para nada e de ser miserável; 
anular as diversões solitárias, consciencializando 
que ser diferente condena a uma fatal solidão; 
repudiar ideias heréticas: ver cinema 'perceptível'.




Onze anos transcorridos, logo após a Hungria 
e o Suez, Huxley voltou à carga com “Brave New 
World Revisited”.
Havia preparativos ainda mais ruinosamente 
caros para guerras ainda mais insensatas e 
suicidas. Actualizava Churchill: “cada vez mais 
(sublinhado nosso) tantos são manejados por 
tão poucos”. A manipulação psicológica por 
demagogos e manejadores, assentava na 
propaganda enganadora, perniciosa, anti-racional, 
tornando todo o processo democrático uma 
chocarrice. Porque não é só o ditador que usa 
bordão para ser aceite como verdade e supressão 
do facto que pretende ignorado. Psicologia, 
neurologia aplicada e lavagem do cérebro são o 
sector especial do propagandista, do doutrinador, 
do lavador de cérebro. Numa sociedade democrática 
tecnologicamente avançada são insuflados métodos 
de persuasão em massa, com frases bombásticas 
e lúcidas. Pode uma campanha a favor da 
racionalidade ter sucesso quando apanhada nas 
mandíbulas de outra, e ainda mais vigorosa, 
campanha a favor da irracionalidade? Uma verdade 
sem brilho pode ser eclipsada por uma falsidade 
apaixonante.
Faz-se tiragem dos vencidos conjunturais. Mussolini 
afirmou que os subjugados deveriam aceitar a 
autoridade sem ressentimento, admirando os seus 
superiores; Albert Speer, ministro de Armamento de 
Hitler, que o comando dos escalões inferiores deve 
ser mecanizado e o homem que recebe ordens deve 
abster-se de críticas; Hitler que as massas são 
absolutamente desprezíveis; Herman Rauschning, que,
 para maior glória do Estado, deve seguir-se o sistema 
e as tácticas da igreja católica - o que Hitler fez, apesar 
de nem ser cristão (em conformidade com Teixeira 
Gomes, “catolicismo é a mais forte organização política 
e policial”).1
Em “Brave New World” os irreverentes são exilados, 
como viria a suceder no fascismo e no estalinismo. 
Por outro lado, unidas numa multidão, as pessoas 
perdem o seu poder de raciocínio e a sua capacidade 
de escolha moral. O reino dos céus (s. do a.) está dentro 
do espírito de uma criatura humana, não dentro da 
demência colectiva, numa multidão. O analista das 
motivações estuda as fraquezas e falências humanas, 
com o objectivo de estabelecer a melhor maneira de 
tirar vantagem da sua ignorância e de explorar-lhes a 
irracionalidade para benefício pecuniário dos seus 
patrões. A propaganda na democracia tem duas faces. 
O ofício não é pensarem mas simplesmente trabalharem 
e morrerem com um mínimo de complicações. Não 
compramos automóvel, compramos prestígio. A arte de 
controlar os espíritos é a ciência do consentimento 
hipnotizado da maioria. Massas desinteressadas por 
qualquer facto que ultrapasse a sua experiência imediata 
e comportamento determinado por sentimentos e 
impulsos inconscientes. Qualquer propagandista aprende 
a conduzir instintos e emoções de pessoas desorientadas, 
frustradas e crónicamente ansiosas. Reunidos em recintos 
os indivíduos podem perder a identidade pessoal, mesmo 
a sua humanidade elementar, e fundir-se com a multidão. 
A multidão, caótica, não tem propósito próprio e é capaz 
de qualquer coisa.
A hipnopédia confirma proveta de “Brave New World”. 
Por insuficiência de imaginação não pode sonhar? A 
liberdade de sonhar em pleno dia sob a influência de 
drogas. Droga, erotismo, divertimento… Euforia 
provocada. Soma - composto químico que substituía 
alcalóides, álcool e tabaco - era a religião do povo. 
Como a religião tinha o poder de consolar e de 
compensar, engendrava visões de um mundo melhor, 
dava esperança, fortalecia a fé e promovia a caridade. 
Um homem numa multidão como se tivesse engolido 
uma grande dose de um intoxicante poderoso. É uma 
droga activa e exultante veneno gregário.
A oportunidade é um requisito indispensável. Resta 
declínio da saúde, doenças novas. Autómato, com 
doenças mentais, a felicidade sabotada, com a ilusão 
da individualidade.
Quanto à economia, o fito chamava-se concentração. 
A sociedade controlada imperceptivelmente nas 
democracias pelo Alto Negócio e Pleno Governo e o 
progresso técnico lesando os Pequenos e favorecendo 
os Grandes. Censura económica.
No ambiente urgia a conservação de solos e florestas 
e a produção de substâncias susceptíveis de substituir 
os combustíveis. Presente a imagem da ilha dos 
trópicos libertada da malária pelo DDT e depois 
afectada pela subalimentação.
No aspecto social, o aumento de escolas e professores, 
por si só, não melhora o bem geral. No lar de terceira 
idade para famílias endinheiradas os poucos visitantes 
procedem como no Hospital para Moribundos. Embora 
a estandardização do indivíduo humano seja ultrage 
contra a natureza biológica do homem, o comportamento 
é socialmente orientado no fito do politicamente correcto, 
anulando o bom rapaz sociável e insuflando o 
conformismo dinâmico, obediente ao escol dirigente, 
sujeitando corpo e espírito a um sistema de 
condicionamento inflexível, sob todos os aspectos 
altamente eficaz. Num incansável desejo de se subordinar, 
devido ao trabalho, a actividade sexual deve ser relegada 
para segundo plano. “Strobonic injection” é processo de 
manipulação dos espíritos abaixo do nível da consciência. 
Quanto mais inferior for o nível psicológico de uma pessoa, 
tanto maior será a eficácia. Farão uso de todas as 
técnicas de manipulação que disponham. Os partidos 
mercadejam os seus candidatos e programam pelos 
mesmos métodos que os negociantes utilizam para vender 
os seus produtos, p candidato é treinado para assumir um 
ar “sincero”. Deve ser fascinante, um bom conversador 
que nunca aborrece a assistência. Os discursos devem 
ser curtos e incisivos, reconhecendo que uniformidade e 
liberdade, ou saúde mental, são incompatíveis.
No aspecto cultural, os meios de comunicação com as 
massas são controlados pela “Elite do Poder”
 - a concentração de comunicação nas mãos de alguns 
grandes. Para influenciar pensamentos, sentimentos e 
acções. Não é só na ditadura que se censura ou 
deforma os factos. Diferenças biológicas inatas devem 
ser sacrificadas à uniformidade cultural e as distracções 
são deliberadamente usadas como instrumentos de 
governo, com o objectivo de impedirem o povo de 
prestar demasiada atenção às realidades da situação 
social e política. O outro mundo da religião é diferente 
do outro mundo do entretenimento; mas assemelham-se 
um ao outro. Ambos são distracções. Há alguma razão 
para crermos que os métodos punitivos de “1984” darão 
lugar aos reforços e são perpetradas atrocidades em 
nome de Deus. Na vida do ser humano civilizado a 
distracção das massas desempenha um papel compatível 
ao que foi desempenhado pelo catolicismo na Idade 
Média.

Ao revisitar Huxley encontramos sempre algo de novo e 
impressiona a lucidez desperdiçada.
Avisar não chega. Implicitamente ele explica porquê

Ernesto de Vasconcelos


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