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(pt) Notícias de Chiapas e Carta do Sub-comandante Marcos - Trad. Emílio Genari

From Worker <a-infos-pt@ainfos.ca>
Date Wed, 27 Nov 2002 20:03:20 -0500 (EST)


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de www.pt.indymedia.org

Fome aumenta pelo cerco militar em Chenalhó.

Hermann Bellinghausen. La Jornada 18/11/2002.



Majomut, Chiapas, 17 de novembro. Neste bairro, ou distrito de
Polhó, está o quartel geral da ocupação militar do município de
Chenalhó, talvez a mais desproporcional de todas as ocupações da
região do conflito (no caso destas coisas guardarem alguma
proporção). A rodovia que une Chenalhó a Pantelhó, e as estradas
vicinais que saem de Yabteclum, Polhó e das proximidades de
Acteal, fervem de veículos militares transportando tropas e de
veículos policiais, que fazem os trajetos de Los Chorros, Puebla
e outras sedes dos paramilitares até a rodovia. Dessa forma
patrulham os acampamentos de refugiados e as comunidades
autônomas.

Foi nesta base militar de Majomut que uma manhã irrompeu José
Saramago. A surpresa dos soldados e a irritação de seus
comandantes não bastaram para dominar a indignação (também
surpreendida) do escritor português em sua primeira visita a Los
Altos de Chiapas. Não puderam impedir ao (futuro) prêmio Nobel
de caminhar diante do campo de treinamento da tropa, na frente
de tanques e blindados, e das casas indígenas quase invadidas
pela vizinhança do quartel.

Hoje como naquela época, diante das circunstâncias da comunidade
de Polhó, sitiada pelo Exército federal a partir das bases de
operações mistas de Majomut, não resta outra coisa a não ser
concluir que as tropas não cuidam dos refugiados; os vigiam.
Rondando por Yibeljoj e Acteal, a mobilização militar não
significa uma resposta aos refugiados, às emboscadas e ao
massacre de 22 de dezembro de 1997; é uma reação armada aos
milhares de refugiados e ao município autônomo de San Pedro
Polhó.

Na medida em que mais de 30 posições militares e policiais não
têm sido capazes de restabelecer a convivência, a ordem e a
justiça em Chenalhó, elas têm se transformado num cerco de fome,
pois os milhares de camponeses tzotziles que vivem em
acampamentos e refúgios desde 1997, sem terra para trabalhar,
sem milho, sem dinheiro e nem casa, passam fome. E frio. Aqui em
Los Altos, a desnutrição infantil e materna está bem acima da
média, o que já diz tudo, e não deteve a paulatina e dissimulada
retirada da Cruz Vermelha.

Na parte baixa de Majomut estão o Sexto Regimento de Cavalaria
Motorizada e, na Base de Operações Mistas (BOM), o Segundo
Batalhão; ambos sobre terras que pertencem ao bairro indígena
onde se encontra a beneficiadora de café da Cooperativa Majomut,
uma das mais importantes organizações de cafeicultores da
região. No início da ocupação militar, a beneficiadora
permaneceu fechada, mas os cafeicultores recuperaram suas
instalações e ritmo de trabalho, só que agora inchados por
militares.

Uns metros mais acima, ao pé da rodovia, em cima da ladeira que
separa Majomut de Polhó, está um quartel que serve de vitrine do
“trabalho social” castrense. Porque, isso sim, o município
autônomo é patrulhado por soldados de braçadeira amarela, que
indica o lado “social” do seu trabalho de guerra.

Com tudo isso e as braçadeiras, e da inocência de um refeitório,
um consultório dentário e um salão de cabeleireiro a serviço dos
indígenas, além dos postos de vigilância e dos escritórios do
quartel, os soldados dominam a vista dos acampamentos que fazem
de Polhó, além de cabeceira autônoma, o maior refúgio em Chiapas
dos indígenas vítimas dos paramilitares.

O mesmo ocorre em Acteal-Abejas e Acteal-zapatista, sitiados por
outro acampamento militar de “trabalho social” a menos de cinco
quilômetros de Majomut. Em Las Limas, o acampamento militar
ocupa o pátio dos fundos da escola primária. Em Yabteclum
anunciam seu “trabalho social” com um letreiro da Coca-cola.

A situação que hoje reina em Chenalhó foi imposta pelo
presidente Ernesto Zedillo em dezembro de 1997. Sobrepondo a
“ordem” à justiça, a resposta do governo ao massacre perpetrado
por um grupo de paramilitares foi a ocupação militar. Com seu
comando instalado na cabeceira de Chenalhó, também em Los
Chorros, Takiukum, Bajoveltik, Tzajalucum, Tzanembolom,
Poconichim, Aurora Chica, Canolal, Puebla, Yaxjemel, Quextic,
Chimix, Pechequil, X’oyep, e quase sempre em terras comunais, o
Exército mexicano faz sentir o seu peso. Onde não é ele, é a
Polícia Setorial a fazer isso. Com a chegada do governo de Pablo
Salazar foram retirados alguns quartéis policiais. Ao que
parece, estão de volta, começando por Cha’cojton, onde acaba de
se instalar um acampamento policial. Se em San Andrés os
militares estão a 500 metros do palácio municipal em rebeldia,
em Polhó se encontram a menos de 400 metros das instalações
autônomas.

O amplo aparato policial militar (que inclui policiais do
judiciário federal e estadual) não tem sido capaz de localizar
uma única arma das que foram usadas em Acteal. Bom, há várias
semanas, as autoridades pegaram uma arma de alto poder. Apareceu
jogada na beira de uma estrada e alguém “avisou” por telefone
que passassem para recolhê-la, pois poderia ser das de Acteal. O
cerco tampouco tem servido para garantir a segurança e a
tranqüilidade das famílias que voltaram a seus povoados,
encorajadas pelo governo estadual; muito menos para permitir a
volta dos ainda milhares de refugiados zapatistas (e centenas de
membros de Las Abejas). À luz dos resultados da militarização,
pode se pensar que as tropas federais estão aí para impedir que
isso ocorra.



No 19º aniversário do EZLN foi apresentada a revista zapatista
Rebeldia.

La Jornada, 18/11/2002.



Ontem, por ocasião do 19º aniversário do Exército Zapatista de
Libertação Nacional (EZLN) foi apresentada no Centro Cultural
Casa Lamm a revista Rebeldia, “uma publicação de esquerda que
não procura se parecer com outras” e que tampouco esconde sua
posição zapatista.

Sérgio Rodríguez Lazcano, diretor da nova revista mensal,
destacou na apresentação do primeiro número de Rebeldia que esta
é a ferramenta de uma esquerda que não está disposta a continuar
perder tempo na disputa pelo poder nacional, que não existe
mais. “Que se declara pronta a desafiar as regras da política
historicamente estabelecidas pela direita”.

Acrescentou: “Ser de esquerda é algo mais do que uma declaração
de princípios, um programa e alguns estatutos. Tem a ver com
três elementos básicos de definição: a disposição de estabelecer
uma dialética negativa diante do que existe. O Basta!, de 1º de
janeiro de 1994. A vontade de alterar o ritmo e os espaços do
poder do dinheiro sobre a sociedade e a necessária construção de
um novo tempo e espaço que permitam a alteração duradoura dos
germes de passividade que sempre se expressam na sociedade,
diante da necessidade de procurar o sustento”. Rodríguez Lazcano
disse que em Rebeldia “estamos comprometidos até o fim, não
apontamos uma falsa neutralidade cheia de hipocrisias”.

Por sua vez, Javier Elorriaga, integrante do comitê de redação
da nova publicação, leu o editorial assinado pelo Subcomandante
Marcos. “Diz Durito que a vida é como uma maçã. E diz também que
há aqueles que a comem verde, os que a comem podre e aqueles que
a comem madura”.

Por sua vez, a pesquisadora paulina Fernández disse que Rebeldia
nasce num momento em que o EZLN completa 19 anos. “A revista
nasce quando os partidos de esquerda abandonaram suas origens”.
A nova publicação bem que poderia ser uma ferramenta de
esquerda. Por definição, Rebeldia é rebelde, que opõe
resistência, e esta é a natureza mais habitual da revista,
sublinhou.

Também o cientista político Luis Javier Garrido esteve presente
e ponderou que Rebeldia pode ser significativa se conseguir
ficar no público, “se conseguir passar dos primeiros números”.

Fernando Yáñez leu uma carta enviada pelo Subcomandante Marcos,
na qual destaca que o PRD não é uma alternativa de esquerda, que
isto é um mito, como outro mito é que o PRI é um partido
político e Ação Nacional não é de centro e nem de direita.

No escrito, o Sup lembra que “o EZLN está em silêncio, este não
se rompe, quando tivermos o que dizer, o diremos”. Lembra a
Yáñez que se conhecem há 22 anos, que o EZLN já tem 19, ao longo
dos quais ele militou por 18. A política, diz o Subcomandante, é
feita de mitos, “mas há mitos e mitos”.



A prática política e cultural está infestada de mitos, afirma
Marcos.

La Jornada 18/11/2002.



Exército Zapatista de Libertação Nacional. México.



Setembro de 2002.



Para o Arquiteto Fernando Yáñez Muñoz, de Subcomandante Marcos.



Grande irmão:



Receba as costumeiras saudações, quase tão rigorosas como o frio
que logo começará a vestir as montanhas do sudeste mexicano.

Como lembrarás, completo agora 18 anos de quando cheguei nas
montanhas do sudeste mexicano, ou seja, completo a maioridade.
Este é um excelente pretexto para te escrever, saudar e, de
passagem, felicitar, pois fiquei sabendo que te graduastes com
louvor, que é como se graduam os zapatistas.

Recebi a carta onde me contas do projeto do professor Sérgio
Rodríguez Lazcano, da professora Adriana López Monjardin e
Javier Elorriaga, de fazer uma revista cujo nome, pelo que
entendo, será Rebeldia.

Quanto a isso te digo que o mínimo que podemos fazer é saudar
este esforço intelectual e que bom que os que empreenderam esta
tarefa são zapatistas.

Se a mencionada revista Rebeldia não seguir o caminho das
publicações de esquerda, é provável que até imprimam mais de um
exemplar e, em belo dia, a apresentem publicamente para que todo
mundo (ou seja, os que a fazem, seus amigos e familiares) fique
sabendo.

Nunca presenciei a apresentação de uma revista, mas imagino que
há uma mesa à qual se sentam os que apresentam a revista e se
olham uns aos outros, perguntando-se, não sem rubor, porque há
mais gente na mesa do que no público.

Mas, bom, é isso, supondo que o projeto não fique arquivado.

E falando de supositórios, me vem a peregrina idéia de que tu
deves estar presente na improvável apresentação de Rebeldia e,
na tua voz, esteja assim representada a nossa voz. Afinal será
uma revista feita por zapatistas e, de alguma forma, devemos
estar presentes.

Como estamos em silêncio e o silêncio não se quebra, mas se
cuida dele, nós não poderemos estar presentes (obviamente, aqui
estou dando por certo que os que fazem a revista terão a
delicadeza de convidar-nos, ainda que duvide que o façam, não
por falta de educação e sim por pavor de que falemos de sua
publicação).

Se não nos convidarem, tu deves fazer de conta que não é contigo
e, cantando aquela canção de Aute que diz “passava por aqui”,
ponhas o pé na porta e, quando estiverem bocejando, peças a
palavra e soltes um desses discursos chatos e pesados que deixam
feridas. É claro que vão dormir, mas, pelo menos, no lugar de
sonhos terão pesadelos.

Como já sei que tu estas perguntando de que podes falar se
estamos em silêncio, te mando aqui algumas reflexões que podem
servir para a tua intervenção.

O problema é que são escritas com este estilo vivaz e
fragmentado que é a alegria de grandes e pequenos, e não no
estilo solene e sério dos antropólogos, mas aí tu vais compô-las
para que seja algo muuuuuuito formal.

Vão aqui as reflexões (leve em consideração que fui muito
cuidadoso em não me referir a nada conjuntural ou à lei
indígena, sobre estes tópicos já vai vir a palavra que virá, tu
também cuidas para que o que digas não rompa o silêncio).



UM. O agir intelectual da esquerda deve ser, antes de mais nada,
um exercício crítico e autocrítico.

Como o autocrítico é sempre adiado para o número seguinte, então
a crítica se transforma no único motor do pensamento.

No caso da esquerda mexicana, este agir intelectual tem agora,
entre outras coisas, um objetivo central, a crítica da política
e da cultura, e da história.



DOIS. No México da atualidade, a prática política e cultural
está cheia de mitos. Logo, a crítica da esquerda deve combater
estes mitos. E não são poucos os mitos que povoam a cultura. Mas
há mitos e mitos.

Há, por exemplo, o mito cultural que reza: “Enrique Krauze é um
intelectual”, quando todos sabemos que não passa de um
empresário medíocre. Ou este outro que diz: “Maria Felix foi uma
diva”, quando o certo é que era só uma profissional de si mesma.

Há o mito “Viana vende mais barato”, quando em qualquer banca de
camelô se consegue preço melhor e qualidade.

Também há mitos na política.

Há o mito de que “o Partido da Ação Nacional é um partido de
direita”. Bom, tampouco é um partido de centro e nem de
esquerda. Na realidade, o PAN não passa de uma agência de
empregos para cargos gerenciais.

Há também este outro mito de que “O Partido da Revolução
Democrática é uma alternativa de esquerda”. E, no lugar disso,
não é que seja uma alternativa de centro ou de direita,
simplesmente o PRD não é uma alternativa a nada.

Ou aí está o mito: “O Partido Revolucionário Institucional é um
partido político”. Na realidade, o PRI é uma cova com 40 ladrões
que esperam, inutilmente, o seu Ali Babá.

Ou este outro partido tão querido pela esquerda estagnada que
reza: “Ir contra a globalização é como ir contra a lei da
gravidade”.

Contra isso, no mundo inteiro, os marginalizados de todas as
cores desafiam uma e outra, e nem a física e nem o Fundo
Monetário Internacional podem evitá-lo.

E há o mito pelo qual pagam, e caro, o governo federal e o do
estado de Chiapas, que diz: “Os zapatistas estão acabados”,
quando a única coisa que está acabando aos zapatistas é a
paciência.

Com certeza há outros mitos, mas só estou lembrando de alguns.

E tenho certeza de que a revista Rebeldia irá desnudá-los de
forma mais radical.

E eu não faço isso, porque já é sabido que nós zapatistas temos
fama de “moderados” e “reformistas”.

Assim nos chamam os supostos “ultras” do CGH que, com certeza,
estão fazendo fila nas portas do PRD mais próximo do seu
coração, e do seu bolso, esperando uma candidatura no próximo
processo eleitoral.



TRÊS. O rebelde é, se me permites a imagem, um ser humano que
bate repetidamente contra as paredes do labirinto da história.
E, não me interpretes mal, não é que ele age assim procurando o
caminho que levará à saída.

Não, o rebelde golpeia as paredes porque sabe que o labirinto é
uma arapuca, porque sabe que não há outra saída a não ser
quebrando as paredes.

Se o rebelde usa a cabeça como marreta, não é por ele ser um
cabeça dura (que o é, ninguém duvide), e sim porque quebrar as
arapucas da história, seus mitos, é um trabalho que se faz com a
cabeça, ou seja, é um trabalho intelectual.

Assim, de conseqüência, o rebelde sofre uma dor de cabeça tão
forte e contínua que não se compara à enxaqueca mais severa.



QUATRO. Entre as arapucas da história está esta que diz que
“todo o passado foi melhor”.

Quando é a direita a dizer isso, está confessando sua vocação
reacionária.

Quando é a esquerda parlamentar a pedi-lo, está exibindo as
mancadas que formam seu presente.

Quando a falar é o centro, é que alguém está delirando porque o
centro não existe.

Quando a esquerda institucional se vê no espelho do Poder e diz
a si mesma: “sou uma esquerda responsável e madura”, na
realidade está dizendo “sou uma esquerda agradável à direita”.

Quando a direita se olha no espelho do Poder e diz “Que belo
vestido estou usando!”, se esquece de que está nua.

Quando o centro procura a si mesmo no espelho do Poder, não acha
nada.



CINCO. Nem as formas de luta e nem seus tempos são de uso
exclusivo de um setor social. Nem a autonomia e nem a
resistência são formas de luta que pertencem só aos povos
indígenas.

E aqui deixes que te conte uma coisa: diz-se que o EZLN é um
exemplo de construção da autonomia e da resistência.

E sim. Por exemplo, cada insurgente zapatista é uma espécie de
município autônomo, ou seja, faz o que lhe dá na telha. E que
melhor resistência do que a que opõem a cumprir as ordens. E
tudo isso é um defeito, mas também uma virtude.

Acontece que o inimigo intercepta nossas comunicações e fica
sabendo que o comando está convocando para uma reunião no ponto
G (note que meus brios já estão no sublime).

O inimigo faz seu trabalho e monta uma emboscada..., mas ninguém
chega.

O que aconteceu? Trata-se de incompetência sexual? Os serviços
de contra-inteligência zapatistas funcionaram à perfeição?

Não, se investigar a fundo se verá que Pánfilo não chegou porque
pensou que era melhor se reunir em outro lugar, Clotilde achou
que sim, mas num outro dia e Eufrosino não pensou, porque estava
estudando um manual de educação sexual para ver se achava onde
raio se encontrava o tal ponto G (by the way, a companheira dele
ainda espera que o encontre).

Estes não são exemplos magníficos da autonomia e da resistência
zapatistas usadas como arma contra o inimigo?

E falando do ponto G, me permita outra digressão, afinal esta
carta não se tornará pública.

O novo disco de Joaquín Sabina trará, além da canção que não é
uma canção que o Sup escreveu, uma música que se chama 69 ponto
G.

Pelo que me contam o disco venderá como pão quente (o quente
deve ser pelo 69 e pelo ponto G), e não é pela canção do Sup e
sim, cá entre nós, será apesar dela.

Agora estou me lembrando de outro mito, o que diz que “Sabina e
o Sup se querem”, quando o que ambos querem é Panchito Varona.

Mas, bom, o que eu queria te contar, a propósito de Sabina, é
que outro dia eu estava num povoado, cortando um cravo azul para
a princesa, e chega uma companheira base de apoio para
apresentar-me seu filho.

“Chama-se Sabino”, me diz.

Eu faço cara de “Sabino?”, mas não digo nada.

A companheira entende o meu gesto e esclarece: “Sim, Sabino,
como a Sabina, esta para a qual você faz as canções. E assim,
como este é um varão, pois então saiu Sabino e não Sabina”.

Que tal?

Com o que eu faço as canções a Sabina.

Deixes ele ficar sabendo e não vai dar nem um por cento das
vendas.

Do que é que eu estava falando?

Ah, sim! Dos mitos, da política e da cultura, da contínua dor de
cabeça dos rebeldes em seu afã de quebrar as armadilhas da
história.



SEIS. O mito fundamental pelo qual o Poder é o que é, está na
história. Não na história como ela é, e sim na que inventa de
acordo com sua conveniência. Nesta história, na história do
Poder, por exemplo, a luta dos debaixo é feita só de derrotas,
traições e mancadas.

Tu bem sabes que estamos cheios de cicatrizes que não se fecham.
Algumas, as menores, são dessas que o desamor presenteia. As
demais são as de nossa história, a de baixo, e no nosso caso, a
de mais embaixo, a subterrânea, a clandestina. Não é que nela
não tenha havido derrotas e traições, mas não só.

O rio que a percorre tem mais de heroísmo e generosidade do que
de mesquinharia e egoísmo.

E falando da história, me lembro agora de quando te conheci, há
22 anos, a tu e a Lucha, na casa que chamávamos La Mina.

E era La Mina não porque escondesse um tesouro, e sim porque era
obscura e úmida como um buraco.

Naquela época, Lucha se empenhava em fazer-me comer e tu em
ensinar-me tantas coisas que algum dia, dizias, seriam úteis.

Creio que não fui bom comensal e nem bom aluno, mas lembro bem
da pequena imagem do Che que me regalastes num dos meus
aniversários e na qual, de teu punho e com tua letra,
escrevestes estas palavras de José Martí que dizem, mais ou
menos: “O homem verdadeiro não olha pra que lado se vive melhor,
e sim de que lado está o dever”.

O dever, irmão, este amável tirano que nos dirige.

Em nossa história tive a sorte de conhecer homens e mulheres
para os quais o dever é a vida toda e, não em poucos casos, a
morte toda. E isso me leva à reflexão número...



SETE. Chamado a escolher entre qualquer coisa e o dever, o
rebelde sempre escolhe o dever, e assim faz.

Acredito, irmão maior, que deverias presentear também aqueles
que te ouvirem no dia da apresentação da revista com esta mesma
frase, mas atualizada. E diria algo assim como...

“O homem, a mulher, o homossexual, a lésbica, a criança, o
jovem, o ancião, ou seja, o ser humano verdadeiro não olha pra
que lado se vive melhor, e sim de que lado está o dever”.

Estas palavras sintetizam melhor o que é a vocação do rebelde e
superam qualquer coisa que eu possa dizer a você ou a qualquer
um sobre o assunto.

Bom, irmão, vou me despedindo. Mandam-te saudações todos os
companheiros e companheiras. Esperam, como eu, que tu estejas
bem fisicamente, porque moralmente já sabemos que estas, como
sempre, firme e forte.

Valeu. Saúde e, se te apressarem, diga a eles somente que a
rebeldia é uma dor da qual não vale a pena se curar... nunca.

Das montanhas do sudeste mexicano. Subcomandante Insurgente
Marcos

México. È setembro de 2002 e a chuva não chega a ferir a pele do
sol.



P.S. É de se esperar que entre o público haja um ou outro
militante da Frente Zapatista de Libertação Nacional. Saúde-os
de nossa parte.

Sabemos que estão trabalhando duro para dar-se um novo rosto, um
novo perfil. E que bom que o perfil da Frente já não seja o das
meninas, e sim que a dar-lhe rosto e rumo sejam pessoas como Don
Manuel, um curtido ex-trabalhador ferroviário; como a Mirios, de
discreto heroísmo; como o Coronel-Gisella, que é um e uma e não
é o mesmo, mas é igual; como os jovens estudantes que estiveram
no CGH; como os da UAM; como os do POLI; como os da UPN, como os
da ENAH; como os de outros centros de estudos superiores; como
os veracruzanos que conseguiram a maravilha que foi Orizaba na
marcha do ano passado; como os de Oaxaca; como os de Tlaxcala;
como os de Nuevo Leon; como os de Morelos; como os do estado do
México; como os de Jalisco; como os de Querétaro; como os de
Michoacán; como os de Yucatán; como os de Quintana Rôo; como os
de Guanajuato; como os de Zacatecas; como os de Durango, como os
de Chihuahua; como os de Coahuila, como os das duas Baixas
Califórnias; como os de Colima; como os de Sonora; como os de
Sinaloa; como os de Tamaulipas, como os de Guerrero; como os de
San Luiz Potosí e como os do DF.

E como todos os membros de base da Frente que, se nos atemos a
seu número e a seu trabalho, resultam ser uma espécie de polvo,
e, além disso, todos eles e elas ignoram o que é render-se.

Outro P.S. E agora estou me lembrando de outro mito eu diz que
“o EZLN não quer os da Frente”, quando está claro que são as da
Frente que não queremos.

Não, não está certo.

Sim, queremos a todos e a todas, o que ocorre é que, à sua
maneira, também praticam a autonomia e a resistência diante de
nós.

Porque há rebeldias organizadas, como a que se supõe deve
crescer na FZLN, e rebeldias desorganizadas como a que padecemos
no EZLN, e assim vai.

P.S O último e fechamos. Um favor: quando estiveres lendo algo
meu na apresentação da revista, deves tossir de vez em quando. É
para fomentar outro mito, o de que estou muuuuuuito doente.
Oxalá que me mandem nozes...

P.S. Agora sim o último. (Nota: este título de pós-escrito anula
o título do pós-escrito anterior). Já dá pra ver que, para estar
em silêncio, falamos bastante.

Provavelmente se deve ao fato de que somos zapatistas. Porque no
México, “REBELDIA” se escreve com “Z” de “noz” e de “zapatista”.

Valeu de noz da Índia.

O Sup muuuuuito doente (Ah! Ah!) sonhando que Sombra-Luz
finalmente caminha e que já se vê o horizonte.


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