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(pt) AVALIAÇÃO DA CAMPANHA NACIONAL PELO VOTO NULO 2.002
From
"cldvulg" <cldvulg@bol.com.br>
Date
Wed, 13 Nov 2002 08:47:28 -0500 (EST)
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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
http://www.ainfos.ca/
http://ainfos.ca/index24.html
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PREÂMBULO
Para fazer uma análise da campanha pelo voto
nulo/2002 precisamos analisar a conjuntura política a
sua volta (nacional e internacional), a situação do
movimento social e do movimento libertário e avaliar as
perspectivas para o futuro a curto e médio prazo.
Procuramos fazer isso de modo esquemático, esperando
contribuir, com esse texto, para uma avaliação da ação
do movimento anarquista no Brasil. Sem sectarismo, que
este seja o pontapé inicial para uma maior unidade de
ação, na construção de uma organização de luta que seja
federativa em sua essência, através do debate franco de
idéias e da solidariedade ativa.
CONJUNTURA
O ano de 2.002 trouxe o estigma da guerra
contra o terror como única apelação para que o xerife
planetário, George Bosta/USA, tem para manter uma base
de apoio interna e estigmatizar a opinião pública
mundial. Essa linha tática tinha por objetivo imediato
limitar a ação dos grupos opositores, cada vez menos
institucionais e dispersos em múltiplas ações pelo
planeta, mas também configurado na disputa entre os
países que lutam pela hegemonia: além dos EUA a União
Européia, a Rússia e a China, e seus países mais
periféricos: Israel, Iraque, Irã, Índia, Paquistão,
Venezuela e Cuba. Esse discurso e essa conjuntura
permitiram o ataque a diversos grupos anti-imperialistas
em vários países, sendo os anarquistas o principal alvo:
na Itália, na França, na Bielo-Rússia, na Espanha, etc.
Paralelamente a isso a principal articulação
dos social reformistas, o Fórum Social Mundial (FSM),
apontava como eixo central a perspectiva eleitoral, se
utilizando de seu congresso anual em Porto Alegre para
fechar pactos de apoio eleitoral mútuo (entre o
PT/Brasil, o PSPortugues e o PSFrances) enquanto a
Argentina, a Colômbia e a Palestina ardiam em chamas sem
que nenhuma medida prática fosse tomada. Com a vitória
da direita tanto nas eleições portuguesas, como nas
francesas e nas bolivianas a última esperança era a
vitória no Brasil, para que eles pudessem continuar
tomando cafezinho na Casa Branca. E foi com medo, quase
desespero que eles se lançaram na disputa pelo poder no
Brasil, tomando o cuidado de se aliar com quem fosse
preciso para chegar lá. Depois do triste espetáculo
apresentado nas eleições municipais, em 2.000, quando
assumiram ares de salvadores da pátria e lançaram as
bases para um governo de Reconstrução, para recuperar o
sistema do abismo da corrupção e apontar para a
construção de um capitalismo humano, honesto e justo,
eles foram com esse discurso para Brasília. Também em
torno desse discurso de poder eles reforçaram o
sectarismo e a intransigência, tão característicos
daqueles que disputam o poder.
INTRODUÇÃO
Para nós a Campanha Nacional Pelo Voto
Nulo/2.002 teve seu início em agosto de 2.001, logo após
o XII Tributo a Raul Seixas, quando alguns de nós já
ensaiavam uma avaliação do Ato que viria a ser
amadurecido e divulgado a partir da edição nº 36 d’O
COLETIVO LIBERTÁRIO, que foi lançado no final de agosto
começo de setembro de 2.001. Ao final do texto,
divulgado amplamente em manifestações (como GIGs ou a
convocada pela AGP contra o bombardeio do Afeganistão) e
também por via virtual, concluíamos dizendo:
“...”ESSA NOITE EU TIVE UM SONHO DE SONHADOR/
MALUCO QUE SOU EU SONHEI/ COM O DIA EM QUE A TERRA
PAROU...” Taí uma boa idéia! O Raul já tinha lançado em
75: uma greve geral planetária. Pra isso a gente precisa
da Associação Internacional dos Trabalhadores(AIT)
forte. Pra nós no Brasil (que realizaremos o XIII
Tributo/2002) estaremos há um mês das eleições – temos
aí uma CAMPANHA NACIONAL PELO VOTO NULO para ser
organizada, com a força que o movimento exige – parece
uma boa pensar seriamente: por que não agitar uma grande
GREVE GERAL para 21 de agosto de 2002 e sair dessa
bundamolisse que o sindicalismo oficial pré-eleitoreiro
afundou de vergonha a dignidade da classe trabalhadora?”
Entre setembro e dezembro de 2001 já havíamos
conseguido a adesão de diversos setores: o movimento
pela reorganização da COB (FORGS e PROFOSP), fãs-clubes
de Raul (RAUL ROCK CLUB(RRC), LUAR ROCK LASER, CAMINHOS
DE RAUL) e de outros agrupamentos e zines ligados ao
movimento libertário (Grupo VOTO NULO, UÍVO-ZINE,
APROFT, etc.). Dentro desse processo de discussão
estabelecemos o eixo da campanha com a tradicional
palavra-de-ordem VOTE NULO NÃO SUSTENTE PARASITAS!,
centrada na imagem de Raul em foto com sua mãe , Dona
Maria Eugênia, vergando em 89 uma camiseta com esses
dizeres, que viria a ser usada em camisetas e cartazes –
tendo sido consultadas previamente, com o apoio do RRC,
tanto Dona Maria Eugênia (que infelizmente veio a
falecer em maio de 2.002) quanto a Kika, que não se
opuseram. As camisetas começaram a ser confeccionadas em
meados de janeiro/2001, sob a responsabilidade do núcleo
PROFOSP em São Paulo, da APROFT em Pernambuco, a FORGS
passou a imprimi-las a partir de março. Em fevereiro,
enquanto os social-democratas se reuniam em seu Fórum na
troca de apoios políticos – que de nada valeram para os
socialistas franceses e portugueses que foram derrotados
em sua respectivas eleições – o movimento pela
reorganização da COB realizou na periferia da grande
Porto Alegre o ATO CONTRA TODAS AS MISÉRIAS E A FARSA
ELEITORAL, lançamento nacional da campanha pelo voto
nulo/2002, com a participação de mais de 1500 pessoas.
Paralelamente já haviam começado uma colagem de cartazes
desde o final de dezembro de 2001(Jornal Mural da Voz do
Trabalhador), com o lema “NÃO! AO IMPOSTO SINDICAL! AO
DESEMPREGO! À FARSA ELEITORAL!!!”. A campanha já estava
indo para as ruas graças a iniciativa do movimento
sindical revolucionário brasileiro. Virtualmente ela já
vinha sendo agitada pelo Grupo VOTO NULO.
No primeiro de maio foram realizadas
manifestações libertárias centradas na questão do VOTO
NULO em algumas cidades. As maiores foram em Porto
Alegre, onde a FORGS e a pró-Federação Anarquista do Rio
Grande do Sul, conseguiram reunir mais de 5.000 pessoas,
e São Paulo, onde a unificação de vários setores
apartidários (não só anarquistas) conseguimos reunir
mais de 1.500 pessoas. Além destas houveram
manifestações em outras cidades, assim como em São Paulo
o pessoal da PROFOSP realizou mini-comícios em pontos de
agitação popular na periferia. Tudo precedido de intensa
colagem de cartazes e com a distribuição de manifestos
próprios.
E assim prosseguimos, apesar de ataques
sofridos desde o interior do movimento libertário. Seja
por aqueles a quem não interessava desenvolver a
campanha pelo voto nulo, devido as sua política de
alianças com setores partidarizados; seja por parte
daqueles que se consideram a si mesmos “o movimento
anarquista brasileiro”, de todos os ataques que sofremos
esses foram os mais dolorosos. O termo libertário passou
a ser utilizado por remanescentes de organizações
marxistas, logo tem de ser qualificado no sentido de
identificar esse movimento libertário, daí passa a ser
fundamental a questão dos princípios da AIT sobre a
questão política.
Sim, por que essa foi uma campanha dura, a
medida que a “esquerda oficial” percebia que podia
chegar ao poder – depois de vender a própria mãe –
passaram a repetir o comportamento de Bush: quem não é
meu aliado é meu inimigo! Dessa forma já podemos antever
como será o governo dos neo-social-democratas-
bolxeviques: na forma como buscaram destruir nossa
propaganda, visando criar uma espécie de censura que
deixasse a impressão que não havia contestação para a
via eleitoral. Não só isso, também nas ameaças e
agressões – como as sofridas pelo pessoal da FORGS/COB-
AIT em Porto Alegre, desde o início da campanha. Também
o combate ideológico que sofremos durante a campanha,
que, como na França do 2º turno, nos acusavam de
estarmos servindo a direita, como se fossemos nós, e não
eles, que estivéssemos aliados a Paulo Maluf, Edir
Macedo, Collor ou Antonio Carlos Magalhães! E, não à
toa, logo após o anúncio de sua vitória já respondiam as
nossas críticas e avaliações parciais nos acusando de
sermos “chorões” e “pessimistas” – reproduzindo assim o
mesmo discurso de Fernandinho Beira Lago em relação a
oposição no começo de seu governo!
A CAMPANHA PELO VOTO NULO GANHA CORPO E SE TORNA
NACIONAL
Mas, apesar de todas as dificuldades, o
movimento prosseguiu e se difundiu pelo país com novas
adesões. Na edição de nº 39, em que divulgávamos as
manifestações de 1º de maio, lançamos a proposta de
acirrarmos a campanha a partir de julho – tendo como
data de referência o “19 de julho”. A partir daí
propúnhamos dias nacionais de pichação e a realização de
manifestações públicas a partir de agosto, com a data do
Tributo ao Raul (21 de agosto) como referência. E assim
se deu: Ceará, Pernambuco, Sergipe, Minas Gerais, São
Paulo, Paraná, Mato Grosso, Rio Grande do Sul. O
movimento se expandia e gerava coletivamente seu
manifesto: o “INGOVERNÁVEIS”, distribuído inicialmente
nas manifestações pelo voto nulo ( só no Tributo ao Raul
em 21/08 foram distribuídos cerca de 5.000 exemplares ).
Manifestações públicas ocorreram em diversas cidades
pelo país: Cuiabá, Curitiba, Porto Alegre, Santos, São
Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, etc. Da mesma maneira
as colagens e pixações chegavam a outros estados:
Amazonas, Maranhão, Paraíba, Bahia, Santa Catarina,
Espírito Santo.
Foi com esse impacto e abrangência que
chegamos ao dia 6/10, ao 1º turno: pixações nos postos
eleitorais e destruição da propaganda dos políticos
profissionais, manifestações pró-voto nulo até a véspera
e até boca de urna em algumas cidades. Com a certeza de
um dever cumprido!
Nossa expectativa era de que não haveria 2º
turno, já que a mídia divulgava pesquisas que davam como
certa a vitória do PT/PL/PCB/PCdoB/PMN para um total de
votos válidos que seria de cerca de 95% - dado das
mesmas pesquisas de intenção de voto. Na verdade foram
cerca de 25 a 30 % de votos invalidados (nulos +
abstenções), o que, em tese, só aumentaria a distância
para a vitória eleitoral petista. Mas infelizmente
tivemos o 2º turno, o que foi um banho de água fria para
todos nós.
O segundo turno criou uma expectativa mais
plebiscitária: contra e a favor do governo, terminando
por mascarar a questão de classe e dando a impressão
que “tudo era voto contra o que aí está!” Mesmo assim
tratamos de juntar os cacos e retomamos um último fôlego
para reafirmar nossas posições anti-eleitorais e anti-
estatais. Apesar de já termos zerado o caixa do Comitê
Pelo Voto Nulo/SP, constituído a partir de cotizações e
da venda das camisetas da campanha pelo “VOTE NULO! NÃO
SUSTENTE PARASITAS!”, organizamos um último esforço e
conseguimos confeccionar rapidamente 500 cartazetes e
mais 2.000 cópias do manifesto, além do material feito
por cada grupo aderente. Dessa forma conseguimos manter
um questionamento e uma discussão que se ampliou em
torno dos limites da democracia representativa, dando
substância para o nosso discurso anti-estatal, tendo
sido esse nosso saldo mais positivo.
PERSPECTIVAS
Ainda que não tenhamos conseguido nosso
objetivo inicial: unir o movimento libertário tupiniquim
em torno de uma ação prática, base de nosso programa
comum, com a dupla finalidade de reforçar nossa campanha
e presença no cenário nacional, e aumentar os laços
entre os diferentes coletivos, dentro de suas
especificidades e de sua autonomia, tendo em vistas
caminharmos em direção a construção de uma verdadeira
Federação Anarquista. A campanha mostrou que é possível
avançar nessa direção se houver disposição em somar e
não apenas ciúmes em torno de “quem faz o que,
dependendo eu apoio ou não”. A questão não é de saber
quem faz mais ou quem faz menos, mas quem realmente está
interessado em difundir o anarquismo desde sua idéias-
força, respeitando nossos pontos de princípio
históricos – que hão de ser a base de nossa organização
unificada: o coletivismo confederal. Todos temos que
reconhecer que foi da soma dos esforços de todos que
conseguimos a maior abrangência do movimento. E é nesse
sentido que temos que pensar o futuro: agora que
a “esquerda” está no poder nós, anarquistas, somos a voz
independente que pode denunciar as manobras políticas da
esquerda e da direita, tudo farinha do mesmo saco.
A Campanha DIGA NÃO AS DROGAS: VOTE NULO, NÃO
SUSTENTE PARASITAS! Foi a que teve maior abrangência e
continuidade, sendo o foco central de nossa avaliação.
Contou com a adesão e apoio do Movimento Pela
Reorganização da COB-AIT (PROFOSP, FORGS, SINDIVÁRIOS-
RS, Amigos da COB/AIT-Sergipe), Pró-FEDERAÇÃO ANARKISTA
DO RIO GRANDE DO SUL, ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA NOSSA
SENHORA APARECIDA- CANOAS/RGS, GAIA-SP, GRUPO VOTO NULO
(Brasil), ALAI/MT, APROFT/PE, RAUL ROCK CLUB (Planeta
Terra), CAMINHOS DE RAUL/PI, LUAR ROCK LASER/SP, GRUPO
SOMA(Brasil), CLAJADEP(América Latina), COLETIVO
LIBERTÁRIO/SP, ATRITO ZINE/MT, INSURGENTES ZINE/RJ,
PALANQUE MARGINAL/MG, JORNAL TESÃO PRAZER E
ANARQUIA/SP, COLETIVO LIBERTÁRIO/MT e das bandas: LIXO
RECICLADO, CONEXÃO LUAR, DZK de São Paulo; HORDA
SUBURBANA, UNIDOS PELO ÓDIO, GRITOS DE ALERTA, FREE
HEAD, ATRITOS, KAMIKAZES, SOBREVIVENTES DO KAOS, DESAFIO
AO PODER, TEOR ALCOÓLICO, ECOS E VULTOS, B 612, DELTA 9,
ADÉLIA H, TRAMOIA, YRMANDADE CATRAYA, DEBRAY-MENITEM,
TIA DO CLÉBER, GRAVIDADE ZERO, TRILHA, BARBATANA AZUL,
TOMBSHIT, XAMORX, ATRACK do Rio Grande do Sul; ATRITO
SOCIAL/MT; AUTOGESTÃO/MA.
Além desta articulação soubemos de outras
campanhas que se realizaram, geralmente associadas a
anti-candidaturas: NA ELEIÇÃO DO APAGÃO VOTE LAMPIÃO!,
VOTE RAUL SEIXAS!, VOTE EM NINGUEM!, VOTE NA MACONHA!,
etc. encaminhada por outras articulações como a Frente
Ampla Libertária (da qual participou o grupo REVOLUTA),
o Comitê Nacional de Luta Direta - que foi quem convocou
a manifestação na Praça da Sé no 1º de maio - (do qual
participou o grupo CACORE), além de outras com outros
grupos (como o Partido da Pinga com Mel - PPM/SP) e
individualidades (como covers de Raul Seixas, que
apoiaram a nossa campanha).
Esperamos que tudo tenha deixado um saldo
positivo, para avançarmos a partir daí e não ficarmos
perdendo tempo derrapando na lama.
SAÚDE E ANARKIA!
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