A - I n f o s
a multi-lingual news service by, for, and about anarchists **

News in all languages
Last 30 posts (Homepage) Last two weeks' posts

The last 100 posts, according to language
Castellano_ Català_ Deutsch_ English_ Français_ Italiano_ Polski_ Português_ Russkyi_ Suomi_ Svenska_ Türkçe_ All_other_languages _The.Supplement
{Info on A-Infos}

(pt) Brasil: NOTA PÚBLICA DA FAG SOBRE O RESULTADO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS

From <fag.internac@terra.com.br>
Date Tue, 12 Nov 2002 13:21:15 -0500 (EST)


   ______________________________________________________
      A - I N F O S  S e r v i ç o  de  N o t í c i a s
                  http://www.ainfos.ca/
              http://ainfos.ca/index24.html
     ________________________________________________


NOTA PÚBLICA DA FAG SOBRE 
O RESULTADO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS



A vitória de Lula e a derrota da esquerda brasileira



               Ao fim de 4 meses de muita negociação, conchavos
e alianças quebradas, enfim o Estado brasileiro conhece
oficialmente seu novo presidente. Já era previsível e todos os
atores da política oficial se preparavam para a vitória da
coligação liderada pelo PT tendo Lula à frente. Foram 12 anos e
quatro candidaturas para enfim, na sua última tentativa, o
ex-metalúrgico ser eleito. A cada 4 anos, o discurso ficava mais
moderado, o programa ficava mais brando e as tentativas de
alianças iam cada vez mais para a direita. O 2º turno de
domingo, 27 de outubro de 2002, foi o coroamento de uma guinada
à direita definitiva do PT, um partido que surgiu dos movimentos
sociais e do sindicalismo autêntico do final dos anos '70, que
tinha ampla base popular e uma proposta original de socialismo e
democracia. 



               Para consolidar a transformação final deste
partido no espelho da classe média com programa
social-democrata, foi costurada uma aliança eleitoral e de
classe que vai desde a esquerda ainda autêntica dos movimentos
sociais (que fez campanha meio a contragosto) até a presença
simbólica como vice de um empresário do setor têxtil e com
investimentos no exterior, o senador pelo PL (Partido Liberal,
ligado às Igrejas Pentecostais e de renovação carismática) de
Minas Gerais, o atual vice-presidente eleito, José Alencar. No
2º turno, como também era esperado, até um dos partidos
trotsquistas, o PSTU, resolveu dar "apoio crítico". Argumentando
que do outro lado a direita estava nervosa e aplicando terror no
marketing eleitoral (o que é verdade), Lula, seus aliados e até
os apoiadores críticos se juntaram numa campanha emocional, que
fugia quando tinha de dizer com firmeza que tipo de compromisso
com o povo pobre do país seria estabelecido. Choraram muito e
não afirmaram nada. Resultado: uma transição pacífica, calma e
tranquila, com o compromisso do PT e de sua direção nacional
(não por acaso de hegemonia de ex-stalinistas) em cumprir todos
os contratos e compromissos (FMI, BID e Banco Mundial
incluídos). Os eleitos oferecem sinais claros para o tal mercado
financeiro (na verdade, menos de 1000 pessoas físicas que operam
o circuito especulativo no Brasil) de que seus lucros não
baixarão muito e todos os atores políticos reforçam a idéia de
normalidade institucional. Ou seja, uma vez que nada está
realmente em jogo, o sistema e suas instituições podem funcionar
tranquilamente.



               Alguns fatores têm que ser aprofundados. Essa
"vontade e desejo de mudança", manipulada através da mídia e do
jogo político oficial, separa e afasta temporariamente qualquer
chance de mudança no jogo real, na disputa por temas e
definições de fundo, daquelas que podem alterar a distribuição
de poder das elites nacionais e das empresas transnacionais que
são suas aliadas. Dentro das possibilidades do reformismo, era
possível, mesmo na maneira conciliadora, de buscar forçar mais,
liberar as forças sociais para a disputa das eleições pondo a
público um programa de reformas de base no Brasil. As mesmas
reformas de base, de distribuição de renda e alterações na
propriedade rural e urbana que derrubou o presidente populista
João Goulart em 1º de abril de 1964, instalando-se a Ditadura
Militar no Brasil. São estas mesmas reformas de base que
marcavam um não-alinhamento do Brasil na ordem econômica
internacional e levariam o governo Lula, caso tivesse sido
eleito em 1989, a ser derrubado por outro golpe de Estado (podia
ser branco, do Congresso ou militar). Ou seja, estas reformas
mínimas de distribuição de renda, desenvolvimento independente,
função social da terra e acesso ao direito a cidade (reforma
urbana) que governo nenhum fará nem no Brasil nem na América
Latina. Isto porque aqui no quintal dos EUA, para nós
latino-americanos, reformas de base estrutural são mais utópicas
do que uma revolução social, e estão mais distantes da realidade
da luta do que um movimento popular combativo e com programa
próprio.



               A capa da revista semanal Veja (a principal
revista de política no Brasil) da semana anterior ao 2º turno,
do Grupo Abril-Civita (ligado à Rede Globo,  principal emissora
no Brasil, filial da CNN americana), além de ser uma pérola de
terrorismo eleitoral, é um recado direto e reto das corporações
nacionais e capitais e interesses estrangeiros atuando no
Brasil. A revista fala abertamente que Lula e as correntes
hegemônicas do PT (que são as mais moderadas) terão que
"segurar" o que eles chamam de "radicais livres", ou seja: as
correntes minoritárias do PT que estão nos movimentos sociais e
que já estão organizando a oposição ao governo Lula e pensando
inclusive em sair do partido. Assim, nem o Lula, nem o PT, nem
sua coligação ou seus aliados de direita despertam medo ou temor
algum na classe dominante, na classe política e nos seus níveis
dirigentes. Só resta ainda um problema na visão da elite: o
perigo do PT e seu governo mover as forças sociais organizadas
rumo a um programa de conquistas e interesses através do Estado
burguês. A direção do PT sabe tão bem disso que em nenhum
momento da campanha convocou a "classe oprimida, os
trabalhadores,  ao proletariado, às mulheres, estudantes e
negros para a luta!" O chamamento foi outro, era dirigido a
todos e a ninguém, às figuras coletivas do capitalismo que não
querem dizer nada e dão equivalência a todos (ao menos no mundo
das leis e das letras) se chamava "aos cidadãos, consumidores,
contribuintes e eleitores" a votar, fiscalizar, fazer campanha
eleitoral com ares de civismo, carregar bandeirinha colorida e
pregar adesivo no peito. O povo já não existe para o PT (isto
porque para a direita nunca existiu, sempre foi objeto de
controle e repressão) enquanto massa e classe que se organiza e
vai para o embate contra o inimigo, que estão inteiros e
tranquilos com a onda Lula. O que existe são os cidadãos e
cidadãs de um país que só se encontra no papel, que por acaso
tem o nome de Brasil e que num passe de mágica deixa de ser a
terra do genocídio e da escravidão - no passado e no presente,
na senzala e nos presídios, no quilombo e na favela- e passa a
ser uma das "maiores democracias do mundo". 



               Nem a tal vontade de mudança e a campanha
cívico-reformista darão conta da nossa realidade. O país está há
mais de 4 anos num ciclo recessivo, o desemprego é o maior de
nossa história, estamos retornando a um ciclo de inflação, os
salários só fizeram perder poder de compra nos 8 anos do
triunvirato de Brasília ao mando de Washington e do FMI:
Fernando Henrique (o nível político de governo), Pedro Malan (o
braço econômico) e General Alberto Cardoso (o chefe militar, o
general das ratazanas da ABIN). 

Em uma de suas primeiras entrevistas sérias e difíceis, o
todo-poderoso presidente nacional da social-democracia (PT), o
advogado e stalinista José Dirceu reconhece toda esta realidade
e afirma o que dá e não dá para fazer. Disse na Rede Cultura (TV
do Estado,  em um famoso programa de entrevistas) que seu
governo terá o Congresso Nacional  como arena de debates e
negociações e que farão aquilo que conseguirem sem quebrar
nenhum contrato ou compromisso internacional, respeitando ao
superávit primário (ou seja, mantendo a carga de impostos), a
partir e apenas das finanças do Executivo e atendendo aos
interesses das alianças feitas ao longo da campanha (com o
empresariado, com o PFL - partido de direita brasileiro -,
setores e oligarquias do PMDB - também de direita - e os
capitais europeus).Quando perguntado sobre qual medida seria
tomada para os movimentos sociais que quisessem reivindicar e
lutar contra o governo federal (mesmo sendo este um governo
social-democrata), José Dirceu nem gaguejou e disse na hora: -
"Nestes casos, aplicaremos o rigor da lei!" Ou seja,
companheirada, mais uma vez vão ter de dar razão aos
anarquistas. Quando a burocracia está sentada no trono, com o
poder centralizado em suas mãos, ela manda reprimir e perseguir
igual a qualquer partido de direita. Aqui mesmo no Rio Grande do
Sul, na zona urbana, quantas ocupações sem teto foram expulsas
violentamente pela Brigada Militar? Um exemplo recente: no dia
08/11, 150 famílias foram expulsas de uma ocupação em Porto
Alegre, com violência ostensiva dos nossos "trabalhadores da
segurança" (o PT chama a repressão assim, agora). 

Porém, se os movimentos populares se seduzem com a oferta de
cargos e negociatas e vão para a "política dos gabinetes", aí,
neste espaço, são sempre bem tratados, sempre se arruma algumas
cestas-básicas para calar a boca dos descontentes ou qualquer
outro tipo de esmola e fim de assunto. Isso significa,
companheiros, que o nosso problema é bem mais profundo, e que a
vida dos oprimidos não muda nem melhora com um "homem sensível"
ocupando uma parte do poder burguês (a presidência).

               Estimados companheiros, uma análise como esta
poderia prosseguir até nunca mais terminar, porque casos que
colocam em contradição o discurso de justiça social com a
prática dos governos de esquerda tem para encher milhares de
páginas. Mas não é este o nosso interesse. Queremos chamar aos
militantes socialistas autênticos, aos que estão na luta de base
(modesta, humilde mas combativa, como também nós estamos), aos
lutadores da classe e povo brasileiros, partidos e organizações
de esquerda combativa, movimentos populares e sindicatos a
marcarem uma pauta e programa de luta e reivindicações, não
importando qual é o governo de turno. 



               O ano de 2003 será o ano das negociações da ALCA
e esta já é nossa primeira bandeira! Temos de lutar pela
moratória imediata da dívida externa, pela suspensão da rolagem
da dívida interna! Pela taxação das incorporadoras, construtoras
e imobiliárias (urbanização de favelas e políticas para os
sem-teto)! Por uma reforma agrária na base da luta, ocupando e
avançando sobre a terra dos latifundiários-grileiros! Por
autonomia de decisão e verbas públicas para todo o ensino
público (fundamental, médio e universitário)! Pela expulsão dos
EUA da Base de Alcântara no Maranhão! Contra o Plano Colômbia e
em solidariedade àos movimentos revolucionários
latino-americanos.



               Não é nem nunca foi pelas regras do inimigo que
conquistaremos nossa libertação. Para os oprimidos do Brasil,
para os mais de 100 milhões de negros brasileiros, para o
conjunto da classe trabalhadora se livrar do chicote, da fome,
miséria e violência será por nossos próprios meios ou não será.
Acreditamos que só a luta do povo liberta, e que só nós mesmos,
organizações políticas e movimentos sociais deste povo
organizado apontamos o caminho em marcha! É urgente e necessário
construirmos uma unidade de luta como povo e classe. A luta
popular não pode ficar a reboque de uma burocracia eleita. Pouco
importa o que se faz num domingo qualquer de outubro, quando
somos obrigados a votar, o que importa é a militância diária nos
movimentos populares, nas vilas, favelas, escolas, fábricas, no
barro e na rua!







OU SE VOTA COM OS DE CIMA

OU SE LUTA COM OS DE BAIXO



Construindo o PODER POPULAR


Federação Anarquista Gaúcha, outubro de 2002



SAÚDE E ANARQUIA!

www.fag.rg3.net
fag.internac@terra.com.br
cx postal 5036 CEP 90040-970
Porto Alegre/RS/Brasilwww.fag.rg3.net


*******
                                ********
            ****** Serviço de Notícias A-Infos *****
         Notícias sobre e de interesse para anarquistas

                                ******
                 ASSINATURAS: lists@ainfos.ca
                 RESPONDER: a-infos-d@ainfos.ca
                 AJUDA: a-infos-org@ainfos.ca
                 WWW: http://www.ainfos.ca/org
                 INFO: http://www.ainfos.ca/org

Para receber a-infos numa língua apenas envie para lists@ainfos.ca
 a mensagem seguinte:
                    unsubscribe a-infos
                    subscribe a-infos-X
onde X=  pt, en, ca, de, fr, etc. (i.e. o código de idioma)


A-Infos Information Center