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(pt) Starhawk: Como bloqueamos a Cimeira OMC em Seattle

From Worker <a-infos-pt@ainfos.ca>
Date Wed, 25 Dec 2002 09:59:19 -0500 (EST)


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Uma acção não-violenta que ficou na história 

(Tradução para português do texto publicado no Le Monde
Libertaire de 6 de Janeiro de 2000, de autoria de Starhawk e
tradução francesa da conhecida cientista belga Isabelle
Stengers) 


Como nós bloqueámos a Cimeira da OMC em Seattle 

Duas semanas já passaram desde aquela manhã em que me levantei
antes de me juntar ao bloco que impediu o encontro inaugural da
Organização Mundial do Comércio. Desde a minha saída da prisão
que leio as revistas de imprensa para tentar compreender o que é
que realmente se passou e o que foi relatado pela imprensa. 
Durante a manifestação de protesto tivemos a rara ocasião de
sentir que aquilo que dizíamos - "o mundo inteiro olha-nos" -
era realmente verdade. E realmente não me lembro de nenhuma
acção política que tenha atraído tanta atenção dos media como
aquela em que fomos protagonistas. Mas o que foi relatado pelo
mundo fora através dos media continha tantas incorrecções que eu
ainda agora me pergunto se os jornalistas não deveriam ser
acusados de conspiração ou, muito simplesmente, de
incompetência. Ninguém dúvida que foram partidas algumas montras
de lojas, mas tal não se deveu ao "Direct Action Network" (DAN)
que foi o grupo que organizou a acção directa não violenta e que
conseguiu reunir alguns milhares de pessoas. 
A verdadeira história que explica o sucesso da nossa acção nunca
foi contada. 
A polícia, que reagiu de maneira brutal e estúpida à situação,
desculpou-se que não se encontrava preparada para a violência.
Mas, na realidade, o que não estavam preparados era realmente
para a não-violência e ao grande número de activistas
não-violentos - e tudo isto muito embora todas as nossas
reuniões tivessem sido abertas, públicas e sem segredo algum. 
Suspeito que a nossa maneira de organização e tomada de decisões
era de tal forma estranha para o entendimento habitual da
polícia sobre o que é uma manifestação ou a direcção de um
movimento que eles não compreenderam absolutamente nada do que
estava a passar. 
Os polícias quando pensam numa organização imaginam logo uma
pessoa ou um pequeno número de pessoas a dizer aos outros o que
deviam fazer. Estão habituados ao poder centralizado que exige
uma obediência cega. 
Mas o nosso modelo de organização é muito diferente. Vejamos em
quê. 
Durante semanas inteiras que precederam a manifestação em
Seattle, centenas e milhares de activistas receberam treino
acerca da não-violência - cursos de três horas que abrangiam
desde história à filosofia da não-violência, incluindo práticas
de "role-playing" (=jogo teatral) que pretendiam preparar as
pessoas para se manterem calmas, tranquilas e serenas nos
momentos de maior tensão, treino de tácticas não-violentas face
à brutalidade, e sensibilização e preparação para os processos
de decisão colectivos. Alguns seguiram ainda uma preparação
específica relativamente à provável curta estadia nas prisões
com estratégias e tácticas diversas de solidariedade e ajuda
mútua, sem esquecer os aspectos judiciais. Houve também treinos
de primeiros socorros, tácticas de bloqueio, teatro de rua,
simulação de confrontos, e de outras eventualidades. 
Durante a manifestação, enquanto milhares de pessoas se
manifestavam e enfrentavam situações imprevistas sem qualquer
preparação, as pessoas que tinham recebido aquele treino foram
as que melhor souberem fazer face à brutalidade policial tendo
conseguido gerar instantaneamente uma rede de resistência. Até
na prisão assisti a situações copiadas das que nos tínhamos
preparado no "role-playing". Os nossos activistas foram capazes
de proteger todos os elementos do grupo que corriam o risco de
serem isolados ou separados dos restantes utilizando as tácticas
previamente treinadas para o feito. Estas tácticas de
solidariedade foram imensamente úteis para evitar a consumação
dos actos de abuso do poder. 
Recorde-se que foi exigido a cada activista-voluntário aceitar
os princípios básicos da não-violência: abster-se de violência
física e verbal, não possuir armas, não andar com drogas
ilícitas nem beber álcool, nem destruir bens privados. Estas
exigências apenas diziam respeito às manifestações a serem
realizadas em 30 de Novembro, e não pretendiam ser os
ingredientes de qualquer filosofia de vida ou de grupo a que se
pedisse adesão. Tanto mais que havia opiniões muito divergentes
acerca dessas matérias entre os vários activistas envolvidos. 
Os participantes da acção estavam organizados em grupos de
afinidade. Cada grupo estava habilitado (empowered) a tomar as
suas próprias decisões quanto ao modo de participação. Houve
grupos que realizaram teatro de rua, outros prepararam-se para
se prenderem a edifícios com correias, outros ainda trouxeram
gigantones e caricaturas gigantes, e os restantes aprontaram-se
muito simplesmente para de braço dado se postarem frente aos
carros oficiais a fim de impedirem de modo não-violento a sua
circulação. 
Em cada grupo havia geralmente pessoas que estavam já preparadas
para irem parar à prisão, outras que cá fora lhes prestariam
apoio, e ainda alguém qualificados em matéria de primeiros
socorros. 
Os grupos de afinidade estavam organizados em clusters. A área
envolvente ao Centro de Convenções foi dividida em 13 secções,
os grupos de afinidade e o seu cluster foram repartidos por cada
secção. 
Havia igualmente «grupos móveis» que se deslocavam aonde a sua
presença era mais requisitada. Tudo isto foi coordenado nos
encontros do Conselho dos porta-vozes de cada grupo de afinidade
que enviava um(a) representante que falava em nome do seu grupo.

Na prática, este tipo de organização significava a possibilidade
dos grupos se deslocarem e reagirem com grande facilidade. Caso
fosse necessário mais gente num determinado local, um grupo de
afinidade podia avaliar a situação e decidir a sua deslocação,
ou não, em função das informações que lhe chegavam. Nos momentos
em que se tinha de aguentar os gazes lacrimogéneos, os jactos de
água, as balas de borracha, e as arremetidas dos cavalos, cada
grupo tinha capacidade de avaliar até que ponto podia oferecer
resistência à brutalidade desencadeada. 
No terreno, o que aconteceu foi que os grupos encontraram uma
inacreditável violência policial, mas quando um grupo estava em
dificuldade derivadas do gaz lançado, ou dos ataques de bastões,
outro grupo imediatamente se posicionava para o seu lugar. 
Havia obviamente que contar com os grupos de afinidade que
reuniam os activistas de mais idade, alguns com problemas de
saúde (pulmões, ou de coluna), cujo papel estava reservado para
as áreas mais tranquilas, ou então para fazer a interligação com
os delegados de cada grupo, o que lhes poupava meio caminho, ou
ainda para apoio à marcha do trabalho que conseguiu reunir
milhares de pessoas no principal dia. 
Nenhuma direcção centralizada poderia ter alguma vez coordenado
toda as acções perante o caos que se instalou, tendo o nosso
modo de nos organizar mostrado maior maleabilidade que a toda
poderosa polícia. Nenhum líder teria conseguido convencer
aquelas milhares de pessoas a enfrentarem as arremetidas
policiais sob o efeito do gaz. lacrimogéneo, tendo isso só sido
possível graças ao facto das pessoas tiverem livremente optado
em adoptar as atitudes melhor apropriadas face à situação. 
Os grupos de afinidade, os cluster e os conselhos de porta-vozes
abrangidos pela DAN sempre tomaram as suas decisões por consenso
- um procedimento que permite a cada um fazer-se ouvir e que
obriga todos a respeitarem as opiniões dos minoritários. De
facto, o consenso faz parte da sensibilização aos processos e
procedimentos de não-violência. 
Para nós, frise-se, consenso não significa o mesmo que
unanimidade. O único princípio obrigatório era realmente as
regras próprias da não-violência. Para além disso, foi dado
ênfase à autonomia e à liberdade e à coordenação e não aos
procedimentos conformistas nem às pressões de uns sobre outros. 
Um exemplo bastará para ilustrar tudo isto. Uma das nossas
estratégias de solidariedade foi justamente deixarmo-nos prender
a fim de podermos utilizar a força do número para proteger as
pessoas mais fragilizadas por inculpações mais graves, ou então
terem por sido vítimas de um tratamento mais brutal. Acontece
que ninguém foi pressionado para se deixar prender, e ninguém
foi culpabilizado pelo facto de ter escolhido pagar uma caução
para sair mais cedo da prisão. Todos sabemos que cada um tem as
suas próprias necessidades, e a sua própria situação de vida, e
o que era importante é que cada qual tivesse participado na
acção de protesto segundo o nível e as modalidades que achasse
mais convenientes. Se tivéssemos pressionado para que todos
ficassem na prisão provavelmente haveria quem resistisse, outros
que experimentariam algum ressentimento, e outros ainda
sentir-se-iam manipulados. 
Tal como fizemos, as pessoas sentiram-se livres e não
manipuladas, tendo a grande maioria delas decidido elas próprias
permanecer na prisão, e até alguns foram muito mais longe do que
seria imaginável. 
Escrevo este texto por duas razões. Em 1º ligar para mostrar a
importância do DAN. Os seus coordenadores realizaram um difícil
mas brilhante trabalho. Com efeito, aprenderam a aplicaram as
lições dos últimos 20 anos de acção directa não-violenta,
conseguindo gerar toda uma poderosa dinâmica contra uma não
menos poderosa oposição. Uma tal dinâmica foi susceptível de
transformar a vida mudando radicalmente o panorama político
mundial, além de ter contribuído para a radicalização de toda
uma nova geração. Em 2º lugar porque a verdadeira história do
modo como as coisas se passaram permite apresentar e propor
agora um novo modelo de acção a partir do qual os activistas se
podem inspirar. Seattle não foi senão um começo. 
Diante de nós fica a imensa tarefa de construir um movimento
global que incomode e a finança e a indústria e contribua para a
sua substituição por uma outra economia baseada na honestidade
(fairness) e a justiça, uma economia saudável e um ambiente
salubre, que garanta a protecção dos direitos humanos e esteja
ao serviço da liberdade. Muitas campanhas estão à nossa frente.
Devemos ter o direito de aprender com as lições dos nossos
êxitos. 

Starhawk 

Internet: www.reclaiming.org 



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