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(pt) Ásia Central: o olhar da coruja (Emílio Gennari)

From Worker@ainfos.ca, veve@netcabo.pt
Date Thu, 22 Nov 2001 13:22:05 -0500 (EST)


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      A - I N F O S  S e r v i ç o  de  N o t í c i a s
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Ásia Central: o olhar da coruja na noite dos poderosos.
 
É noite. A televisão acaba de divulgar as últimas informações sobre o 
desenrolar da guerra no Afeganistão. Imagens e acontecimentos revelam 
contradições que apontam a verdade como mais uma vítima desta guerra. Na 
tentativa de localizar as cidades que são objeto dos noticiários, abro o 
Atlas nas páginas da Ásia Central. Estou com os olhos no mapa quando de 
um canto escuro da noite uma voz desconhecida me diz: «O que você está 
procurando é logo abaixo da fronteira com o Uzbequistão». Assustado e 
surpreso pela dica certeira, levanto o olhar e, entre as sombras, começo 
a distinguir a silhueta de uma coruja. «Como é que você sabe disso?», 
pergunto sem cerimônias. A ave se aproxima e, apontando para o Atlas, 
responde: «Voei semanas inteiras sobre os países que estão na fronteira 
com o Afeganistão. Fiquei espreitando as tramas que os poderosos daquela 
região preparavam na calada da noite. E como a escuridão não é um 
obstáculo para os meus olhos, consegui ver os interesses que eles 
escondem nas sombras desta guerra que planta cemitérios onde os povos 
precisam semear justiça». As palavras da coruja me conquistam. O seu 
jeito simples e sincero é um convite a ouvir e a anotar tudo o que ela 
viu durante a viagem. Percebendo a razão dos meus gestos, a ave espera 
silenciosa, pisca os olhos e, ao me ver pronto, diz: «Acho que posso 
começar contando porque um amigo se tornou inimigo. Sim, estou falando 
dele mesmo, do... 

1. Paquistão: de parceiro do Talebã a aliado dos EUA.
 
Como todos sabem, durante a permanência das tropas soviéticas no 
Afeganistão, os serviços secretos paquistaneses desempenhavam um papel de 
intermediários. Seus agentes faziam chegar aos guerrilheiros afegãos, Bin 
Laden entre eles, as armas e o dinheiro que recebiam dos Estados Unidos e 
de outros países árabes. Alguns estudiosos calculam que esta relação foi 
se desenvolvendo ao longo de 11 anos (1979-1989) e, de quebra, ajudou o 
Paquistão a fortalecer sua posição numa velha briga com a Índia pela 
disputa do território da Caxemira. Graças ao dinheiro estadunidense e aos 
recursos oriundos do tráfico de heroína, produzida em território afegão 
sob a vista grossa dos americanos, o país ampliava os gastos em 
armamentos, desenvolvia um programa secreto de produção de armas 
nucleares e sustentava os grupos guerrilheiros muçulmanos que agiam na 
linha de fronteira da Caxemira. As coisas estavam indo de vento em popa 
quando, em 1990, o Congresso dos EUA optou por cortar toda ajuda militar 
ao país. A partir deste momento, a relação de forças entre os antigos 
rivais começava a ser mais favorável para a Índia. Esta desenvolvia uma 
capacidade militar muito superior a do Paquistão aplicando "somente" 2,5% 
do Produto Interno Bruto (PIB) em armas contra um investimento de 6% do 
PIB no país vizinho.  
Se você levar em consideração o fato de que estamos falando de 
nações pobres, endividadas, superpopuladas e com gravíssimos 
problemas sociais, não vai ser difícil perceber que ao aumento dos 
gastos em armamentos correspondia um orçamento menor para 
os demais programas do Estado. 
Pouco a pouco, esta situação ia alimentando o descontentamento 
interno, as disputas étnicas e religiosas, criando momentos de 
instabilidade política nos dois países. 
Neste contexto, Índia e Paquistão usavam o acirrar-se dos conflitos 
na Caxemira como um elemento de coesão nacional. Ou seja, a 
tensão nesta região, que, nas últimas décadas, conheceu três guerras 
entre as duas nações, ajudava a garantir o apoio popular aos 
respectivos setores da elite no poder e colocava em segundo plano 
as acusações de corrupção e os graves problemas sociais 
que assolavam os dois países. A importância da questão da Caxemira no 
equilíbrio interno do Paquistão é apontada também por outro fato curioso 
e intrigante. No dia 12 de outubro de 1999, o general Pervez Musharraf, 
que até então dirigia as operações militares na região, dá um golpe de 
estado logo após o primeiro ministro paquistanês Nawaz Sharif ordenar a 
sua destituição. Contando com o apoio da maior parte do exército, 
Musharraf comanda até hoje o Paquistão com mão de ferro. A repressão e o 
controle das forças sociais que vêm questionando o seu poder são os 
instrumentos com os quais enfrenta o descontentamento pela situação do 
país, agravada pela seca, pela presença dos refugiados afegãos em seu 
território e pelas sanções econômicas impostas em 1998 após a realização 
dos testes nucleares em resposta aos que haviam sido promovidos pela 
Índia. Consciente de sua fragilidade, o governo do Paquistão via pelo 
menos três boas razões para abandonar o regime talebã e se aliar aos 
Estados Unidos. A primeira era de tirar vantagens em relação à disputa 
com a Índia pela posse da Caxemira. A necessidade de superar a 
inferioridade do exército paquistanês e de contar com um poderoso apoio 
diplomático era cada vez mais premente também em função do estreitar-se 
das relações entre o governo indiano e as milícias da Aliança do Norte. 
Esta força de oposição ao talebã, tinha suas bases localizadas nos 
territórios da região noroeste do Afeganistão e em nenhum momento havia 
recebido algum tipo de ajuda por parte do Paquistão, empenhado que estava 
em sustentar o regime talebã contra ela. Se você olhar o mapa, vai 
perceber que ao conquistar a região norte e ao estender o seu controle às 
demais áreas, as forças da Aliança deixam boa parte do Paquistão preso 
entre dois inimigos: de um lado a Índia e, de outro, a própria Aliança, 
ambas com velhas contas pendentes. Ao ficar no meio deste sanduíche, o 
apoio do Paquistão aos Estados Unidos serviria, pelo menos, como elemento 
de equilíbrio e dissuasão, ao mesmo tempo em que poderia render novos e 
importantes fornecimentos de suprimentos bélicos. A segunda razão deita 
raízes na grave situação econômica em que se encontra o país. A postura 
do Paquistão em relação à coalizão internacional já obteve a renegociação 
e o perdão de parte das dívidas com o FMI, a retirada das sanções 
econômicas, a concessão de créditos de exportação e um bilhão de dólares 
pagos pelo governo Bush em troca dos serviços prestados às forças armadas 
anglo-americanas. Com um pouco mais de pressão, em nome da ajuda aos 
refugiados afegãos e da necessidade de conter os problemas internos, o 
Paquistão quer fazer cair da mesa dos poderosos algumas migalhas mais 
gordas a serem usadas em projetos de interesse dos setores dominantes. 
Não bastasse isso, em caso de derrota do talebã, a construção do oleoduto 
e do gasoduto que ligariam as cidades paquistanesas de Quetta e Karachi 
com as jazidas do Mar Cáspio beneficiaria ainda mais estes setores graças 
aos investimentos e às relações comerciais que se estabeleceriam com o 
primeiro mundo. Um último motivo para apoiar as forças internacionais é 
dado pela possibilidade de reduzir o peso dos grupos fundamentalistas 
islâmicos na política interna do país. Apesar de terem uma expressão 
eleitoral não superior a 4%, estes grupos mantêm uma presença ativa no 
interior da máquina do Estado e nas manifestações de massa. A elite 
liberal das zonas urbanas vê a luta contra o terrorismo como uma boa 
oportunidade para livrar-se deles. Medidas repressivas mais rigorosas 
seriam justificadas a nível internacional como uma necessidade da luta 
contra o terror. É bom lembrar que os extremistas islâmicos paquistaneses 
representam o efeito colateral indesejado da política anticomunista do 
governo militar do general Zia Ul-Haq, apoiada pelos EUA, no final da 
década de 70. O combate à presença soviética no Afeganistão levou à 
criação de centenas de escolas islâmicas responsáveis, inclusive, pela 
formação do talebã e dos demais grupos fundamentalistas cujas ações vêm 
colocando em risco a estabilidade política do próprio Paquistão. Enquanto 
os poderosos usam a bússola do dinheiro para orientar suas escolhas, a 
grande maioria da população paquistanesa vê com desconfiança a chamada 
guerra contra o terror e seus objetivos. Além das manifestações e 
enfrentamentos que já ocorreram, esta situação ajuda a desgastar o 
equilíbrio de poder no Paquistão que vai se enfraquecendo na medida em 
que as coisas não estão saindo conforme o planejado. Algumas semanas 
atrás, o Secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, teve um encontro com 
o governo indiano na tentativa de pôr fim aos ataques que a Índia estava 
promovendo na Caxemira logo após o início dos bombardeios no Afeganistão. 
Num recado destinado ao presidente Musharraf, Powell disse que "Estados 
Unidos e Índia estão unidos contra o terrorismo, e isso inclui também o 
terrorismo que tem sido dirigido contra a Índia". Ou seja, não só os 
americanos não irão desequilibrar as relações diplomáticas e a correlação 
de forças na Caxemira, como condenam os grupos guerrilheiros que atuam 
nesta região e são financiados pelo Paquistão. Não bastasse isso, os 
bombardeios fizeram emergir a questão étnica no próprio Paquistão. De 
fato, a etnia pashtu (majoritária no Afeganistão e base de apoio do 
regime talebã) tem um número considerável de pessoas tanto no território, 
como no exército paquistanês. No início de novembro de 2001, o presidente 
Pervez Musharraf era obrigado a afastar dois generais que simpatizavam 
com a causa talebã e estavam sendo apontados como integrantes de grupos 
fundamentalistas. Diante do prolongar-se da guerra, Musharraf teme que 
haja um perigoso crescimento dos grupos de oposição ao seu governo, 
inclusive no interior do próprio exército. Na tentativa de restabelecer a 
confiança destes setores das forças armadas, o presidente do Paquistão 
solicitou que os EUA liberassem a entrega dos 28 aviões F 16 comprados e 
pagos pelo país no final da década de 80 e cuja entrega foi bloqueada 
pelo Congresso dos Estados Unidos como punição pelo programa de 
desenvolvimento de armas nucleares. A chegada dos novos caças ajudaria a 
manter a coesão do exército, garantindo o atual governo e o apoio aos 
EUA. Mas, ao fazer esta concessão, os americanos têm consciência de que 
ela pode alterar o equilíbrio militar na região e ser interpretada pela 
Índia como uma ameaça à sua segurança. Sabendo disso, o governo Bush 
trocou a entrega das aeronaves por uma polpuda ajuda financeira que 
pretende ser uma espécie de cala-boca diante do crescente 
descontentamento dos grupos que pressionam o governo Musharraf. Resta 
saber se ela será suficiente para acalmar as tensões no interior dos 
setores nacionalistas das forças armadas e dar ao atual governo a margem 
de manobra de que precisa para garantir a sua permanência no poder». A 
coruja faz uma pausa, respira fundo e com o rosto carregado de 
preocupação me diz: «se você acha que isso já é suficiente para dizer que 
o "bem" não tem representantes nesta guerra, pois ainda não viu nada. 
Preste atenção porque chegou a hora de falar de duas repúblicas da antiga 
União Soviética que vêm sacudindo os trocados que estão em seus chapéus 
na esperança de que o primeiro mundo deixe cair a esmola generosa dos 
dias de festa. São elas... 

2. Uzbequistão e Tadjiquistão: de desconhecidos a estratégicos. 

Até os atentados do dia 11 de setembro, 
poucas pessoas sabiam indicar com precisão a localização exata destes 
países. Bastou os Estados Unidos declararem guerra ao Afeganistão para 
que o Uzbequistão e o Tadjiquistão adquirissem uma importância 
estratégica devido à sua proximidade com a linha de frente das forças do 
talebã. Aproveitando-se de sua posição privilegiada, os dois países 
aderiram à guerra pelas razões que agora vamos analisar. Considerada a 
mais pobre das repúblicas da antiga União Soviética, o Tadjiquistão tem a 
maior parte de seu território coberto por montanhas e desertos e só 5,9% 
de suas terras podem ser usadas para a agricultura. Com quase seis 
milhões e meio de habitantes, o país está à beira de um colapso 
econômico. Arrasado pela guerra civil, que se estendeu de 1991 a 1997, o 
Tadjiquistão não conseguiu atrair nenhum tipo de investimento e de ajuda 
internacional. A seca dos últimos três anos levou cerca de um milhão de 
pessoas a sofrerem a ameaça direta da fome e reduziu a renda média anual 
per capita a 280 dólares. Mas você não deve pensar que esta realidade se 
aplica a todos os habitantes sem distinção. Entre os elementos que 
ajudaram a mergulhar o Tadjiquistão numa situação de penúria comparável a 
dos países africanos está a opção das elites pela agricultura de 
exportação. Os únicos sistemas de irrigação do país são usados para o 
cultivo do algodão, deixando o grosso da população rural à espera das 
chuvas cada vez menos freqüentes. À situação de catástrofe social 
alimentada pelas escolhas das classes dominantes, deve-se acrescentar a 
corrupção e o envolvimento destes setores no tráfico de heroína, 
procedente do Afeganistão rumo à Europa, que pioram ainda mais a vida do 
povo simples. Apesar de ser um país onde a religião muçulmana é 
professada pela maior parte da população, bastou menos de uma hora de 
conversa entre Colin Powell e o presidente do Tadjiquistão para que os 
dois acertassem a concessão de uso de três bases militares em troca de 
algumas dezenas de milhões de dólares. Não, não pense que este dinheiro 
será utilizado para aliviar os problemas da fome, mesmo porque não há 
sinais de que o descontentamento popular possa ameaçar a ordem 
estabelecida. Os trocados que caem da bolsa dos americanos vão amenizar a 
sede dos corruptos grupos de poder locais para os quais o povo e a 
religião podem esperar. A situação do Uzbequistão é diferente. O país tem 
cerca de 25 milhões de habitantes e, além de produzir algodão, arroz e 
trigo, conta com reservas de petróleo, gás natural e ouro que ainda não 
foram exploradas. A rapidez com a qual o presidente Islam Karimov se 
dispôs a colaborar com os EUA na guerra contra o talebã está alicerçada 
em três questões fundamentais. A primeira delas tem origem nas 
perspectivas de ampliar a extração e o escoamento das reservas de 
combustíveis fósseis do país. Com seus poços e sistemas de distribuição 
em plena atividade, os vizinhos Turcomenistão e Cazaquistão negam ao 
Uzbequistão a possibilidade de utilizar seus gasodutos e oleodutos 
deixando o país com poucos investimentos no campo da perfuração e 
extração de petróleo e gás. Diante desta situação, a esperança de Karimov 
é que a vitória das forças aliadas torne possível a construção do 
oleoduto que sairia da bacia do Mar Cáspio e chegaria no Paquistão 
passando pelo norte do Afeganistão. Isso iria atrair o capital externo e 
daria ao Uzbequistão novas possibilidades de desenvolvimento e 
crescimento econômico. Um primeiro sinal de que o apoio aos americanos 
aponta nesta direção é o fechamento de três acordos num valor total de 
360 milhões de dólares que o país assinou com empresas do setor de 
mineração entre o final de setembro e a metade de outubro de 2001. Além 
disso, o apoio à guerra abriu boas possibilidades do Uzbequistão 
renegociar sua dívida externa com o Fundo Monetário Internacional e 
receber um novo pacote de ajuda financeira do Banco Mundial. As respostas 
já obtidas estão levando um bom número de empreendedores a pedir que o 
país crie condições favoráveis para a remessa de lucros ao exterior e 
para a conversão do dinheiro local em moedas fortes. Para alguns 
economistas, seriam estes os sinais de que os investimentos estrangeiros 
em território uzbeque representam algo bem mais concreto do que uma 
esperança futura. O apoio às forças aliadas visa também proporcionar ao 
país uma posição mais confortável nas relações com o Cazaquistão e o 
Quirguistão no que diz respeito à utilização da água da região. Se você 
observar a linha de fronteira entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, vai 
perceber que o Lago Aral pertence aos dois países. Nos últimos dez anos, 
o nível do lago tem caído pela metade em função da utilização 
irresponsável de suas águas para a irrigação das culturas de arroz, no 
Cazaquistão, e de algodão, no Uzbequistão. Os dois países se acusam 
reciprocamente pelos estragos que já foram provocados e as tensões entre 
ambos vêm criando uma situação desgastante na qual, até agora, o 
Cazaquistão tem se saído melhor. Na região oriental do Uzbequistão, o 
cultivo do algodão depende do fornecimento de água do vizinho 
Quirguistão. A bem da verdade, é preciso dizer que um depende do outro, 
na medida em que o próprio Quirguistão precisa do gás uzbeque para 
atender suas necessidades de calefação durante o rigoroso inverno. Até o 
início do ano 2000, havia um acordo de troca: o Uzbequistão forneceria 
gás ao Quirguistão em troca de um volume de água de 2 bilhões e 300 
milhões de metros cúbicos anuais. Sabendo da fragilidade do país vizinho, 
no mesmo ano o Uzbequistão começou a exercer pressões territoriais para 
ter livre acesso à água da qual tanto precisa. Em resposta, o Quirguistão 
reduziu o fornecimento para 750 milhões de metros cúbicos, o que causou 
perdas nas lavouras uzbeques estimadas em cerca de um bilhão de dólares. 
O Uzbequistão não deixou pra menos e suspendeu o abastecimento de gás 
natural, dando origem a uma grave crise energética no país vizinho. As 
tensões entre as duas ex-repúblicas da União Soviética foram se 
prolongando ao longo de 2001. No final de outubro, o Uzbequistão se 
aproveitou da posição de força dada pela aliança com os Estados Unidos 
para ocupar militarmente a área de fronteira com o Quirguistão que 
considera como sua. Esta medida colocou as relações entre os dois países 
à beira da ruptura. Como um novo conflito na região não interessa aos 
EUA, alguns enviados do exército estadunidense estão viabilizando a 
utilização de uma base militar do Quirguistão como forma de dissuadir o 
Uzbequistão de sua tentativa expansionista. Ainda que este conflito seja 
colocado em banho-maria, o problema do acesso à água promete novas 
tensões entre os dois países, sobretudo se o permanecer da situação de 
instabilidade do Afeganistão vier a atrasar os investimentos no novo 
oleoduto. Uma última boa razão para Karimov apoiar os Estados Unidos, 
deita raízes em sua preocupação com o Movimento Islâmico Radical do 
Uzbequistão que nos anos 90 declarou a guerra santa contra os governos da 
região. Até pouco antes do início dos bombardeios no Afeganistão, suas 
forças, que agem no vale de Ferganá na fronteira com o Tadjiquistão e o 
Quirguistão, recebiam apoio material e militar do talebã. O Movimento 
encontrava aqui um terreno fértil para as suas ações. De fato, o povo 
desta região é muito pobre e mal consegue sobreviver com o trabalho 
agrícola e a criação de cabras e ovelhas. É aqui que se encontra a maior 
concentração de pessoas por quilômetro quadrado de todas as repúblicas da 
antiga União Soviética e também o progressivo agravar-se do desemprego, 
da falta de terras e da escassez de água. A soma destes problemas com a 
ação dos fundamentalistas islâmicos forma o caldo de cultura dos 
sentimentos antigovernamentais que já levaram a enfrentamentos armados 
com as forças regulares do Uzbequistão. Em nome da segurança do Estado, a 
resposta de Karimov tem sido implacável. Qualquer cidadão que venha a ser 
surpreendido com um simples panfleto de qualquer um dos grupos proscritos 
pode ser condenado a vários anos de prisão sob a acusação de atentar 
contra o regime constitucional do país. De acordo com dados de 
organizações internacionais de direitos humanos, no Uzbequistão há cerca 
de 7 mil e 500 pessoas cumprindo penas de até 20 anos de prisão por serem 
suspeitas de pertencer a grupos islâmicos radicais. Não se sabe até 
quando a política de mão de ferro de Karimov vai conseguir conter a ação 
dos setores fundamentalistas que agem na clandestinidade. No entanto, a 
guerra contra o talebã significa a interrupção dos suprimentos de armas e 
dinheiro vindos do Afeganistão e uma preciosa justificativa para a 
repressão violenta que o governo leva adiante nesta região. Como você 
pode ver, para a elite, o sofrimento do povo é um mero detalhe. Sua 
principal preocupação é que o amanhã tenha o verde-dólar como cor 
predominante. Pouco lhe importa que de uma injustiça nasça outra e que os 
resultados de uma guerra possam dar origem a novos conflitos nos quais 
milhares de inocentes pagarão com a vida a busca incessante do lucro 
alimentada pelos poderosos». O meu olhar não consegue esconder a 
preocupação que sinto. Tem horas em que gostaria de não saber destas 
coisas, pois o fato de ter consciência dos acontecimentos exige respostas 
feitas de palavras e ações. Percebendo a minha aflição, a coruja se 
aproxima, põe a sua asa no meu ombro e em voz baixa me diz: «Você pode 
não gostar, mas os fatos caminham nesta direção. Diante da realidade 
podemos até fazer de conta que não temos nada a ver com ela. Afinal, é 
assim que muitos se comportam frente a esta nova era de dominação mundial 
que a guerra pinta no horizonte da humanidade. Acreditam que tudo se 
resolve enterrando a cabeça num buraco, como faz a avestruz. Mas, ao 
fazer isso, o maior problema não é a falta de visão, coisa normal para 
quem se fecha na rotina do dia-a-dia, e sim o fato de que o traseiro se 
torna um enorme alvo imóvel, pronto para ser atingido por quem quer que 
seja, sem ter direito sequer a conhecer o rosto do agressor. Como as 
injustiças só podem ser sanadas pelo esforço coletivo de nós de baixo, é 
bom você conhecer mais e ouvir atentamente o meu relato sobre... 

3. China, Irã e Turcomenistão: quietos só do lado de fora. 

Você já deve ter percebido que a fronteira da China com o 
Afeganistão é muito pequena, algo em torno de 65 quilômetros. 
Apesar disso, as montanhas tem 
dificultado o controle do fluxo de armas que, através delas, chega nas 
mãos dos separatistas muçulmanos da província de Sinkiang (Turquestão 
Oriental), cujas atividades foram se intensificando com a chegada do 
talebã ao poder. Além dos protestos pacíficos, seus militantes têm se 
envolvido em ataques armados a postos policiais e do exército. Diante 
destas investidas, a China respondeu com a mais dura repressão. Dados 
recolhidos por observadores internacionais apontam que, só entre 1997 e 
1999, foram emitidas 210 sentenças de morte por atividades separatistas. 
Esta postura tem sido objeto de duras críticas por parte dos governos das 
nações desenvolvidas. Mas você não deve se deixar enganar pelas 
aparências, pois, os apelos e as denúncias de violação dos direitos 
humanos não tinham objetivos humanitários. Se assim fosse, um dos 
primeiros passos deveria ser um duro puxão de orelhas a ser distribuído 
entre as empresas americanas, japonesas, alemãs, etc. Elas estão entre as 
que exploram jovens e adultos chineses em jornadas de trabalho que 
superam as 12 horas diárias em troca de salários que não ultrapassam os 
60 dólares mensais. O barulho em defesa dos direitos humanos visava 
forçar a China a fazer novas concessões no âmbito das relações econômicas 
internacionais como condição para viabilizar o seu ingresso na 
Organização Mundial do Comércio. Neste contexto, a guerra no Afeganistão 
não só abre caminhos para as futuras disputas que a China deve empreender 
para garantir a exploração das jazidas de petróleo e gás presentes nos 
mares que a banham, como aponta saídas para velhas questões que estavam 
pendentes. Ainda que o país não envie tropas para integrar a coalizão 
contra o terror, o seu apoio silencioso está sendo usado para justificar 
o direito da própria China agir com todo rigor contra os extremistas e 
separatistas muçulmanos no oeste do país. O discurso do seu representante 
na Assembléia Geral das Nações Unidas, no dia 11 de novembro de 2001, é 
de uma clareza que dispensa comentários: "O combate contra o grupo do 
Turquestão Oriental é parte da luta internacional contra o terrorismo". 
Em português claro, se a coalizão está realmente preocupada em acabar com 
os terroristas então não pode esquecer dos muçulmanos radicais que estão 
na minha casa e ocupam uma região com reservas de petróleo. Agora, se 
americanos e ingleses podem jogar bombas e executar soldados da milícia 
talebã... porque eu, China, não posso fuzilar os meus extremistas? Você 
pode achar que isso é absurdo, mas a história mostra que as coisas estão 
caminhando nesta direção. Durante a visita do chanceler alemão, Gerhard 
Schröder, à China, no início de novembro de 2001, não houve a menor 
referência à questão dos direitos humanos das minorias étnicas e 
religiosas do Sinkiang e do Tibet que, no passado, era objeto de 
discursos e de críticas oficiais. No lugar destes, Schröder abriu as 
portas para a Bayer realizar um investimento de 3 bilhões e 100 milhões 
de dólares num pólo petroquímico em Xangai que vai se somar aos mais de 7 
bilhões de dólares que as empresas alemãs já investiram na China. De 
volta ao seu país, o chanceler foi objeto de duros comentários por parte 
de Dilxat Rexit, porta-voz na Europa da organização dos turcômanos do 
leste: "Ele silenciou em consideração aos negócios das empresas alemãs na 
China". Para bom entendedor, meia palavra basta. Apesar da importância 
dos investimentos europeus, eles não são suficientes para que a economia 
chinesa mantenha o ritmo de crescimento atual e aumente a sua 
participação no comércio mundial. Para isso, a China precisa de boas 
relações com os Estados Unidos. A benção dada à coalizão internacional, o 
fato de ser um bom aliado do Paquistão e ganhar o respeito das nações da 
região por causa do seu arsenal nuclear, são as cartas com as quais o 
governo chinês vai sentar à mesa de negociação com os EUA. Com elas a 
China vai discutir o fim das restrições às suas exportações, a 
redefinição do controle geopolítico na Ásia e fazer valer suas razões no 
âmbito da questão do escudo de defesa contra mísseis balísticos que os 
norte-americanos pretendem desenvolver. O atual silêncio dos jogadores 
não é sinônimo de fim de jogo e sim de um lento e cuidadoso estudo do 
adversário, de suas reais possibilidades e projetos de dominação mundial. 
Indo de leste para oeste, o Irã é o segundo país a partilhar com o 
Afeganistão uma longa região de fronteira que abriga cerca de 3 milhões 
de refugiados. A sua posição em relação ao conflito pode ser resumida em 
três eixos fundamentais: não intervir ao lado do talebã, negar qualquer 
apoio militar às forças da coalizão e apostar nas milícias da Aliança do 
Norte como pivô do futuro governo afegão. A razão desta atitude deita 
profundas raízes na história dos conflitos e das relações comerciais com 
os países da região. Durante a década de 80, apesar do esforço de guerra 
contra o Iraque (que contava com o apoio dos EUA), o Irã dava a sua 
contribuição para financiar os guerrilheiros que lutavam contra a 
ocupação soviética do Afeganistão. Sua aposta era de poder contar com a 
vitória dos grupos xiitas que integravam a guerrilha e acabaram sendo 
derrotados pelo talebã (que pertence ao ramo sunita da religião islâmica) 
e obrigados a se refugiarem ao norte de Cabul. O embargo comercial 
imposto pelos Estados Unidos e por várias nações desenvolvidas, levou o 
Irã a aceitar o capital russo para garantir a produção, o escoamento e a 
comercialização de parte do seu petróleo e gás natural que constituem uma 
fonte de renda fundamental para o país. Apesar de não simpatizar 
totalmente com os comandantes da Aliança do Norte, o Irã teme os planos 
imperialistas que os EUA querem implantar na região, sobretudo, porque 
estes podem incluir ataques a outros países muçulmanos. Se a chamada luta 
contra o terror continuar depois da derrota do talebã, uma das vítimas 
poderia ser o Iraque e até mesmo a guerrilha do Hezbollah que o país 
apóia abertamente. Isso criaria uma situação incômoda para o Irã na 
medida em que o seu território seria cada vez mais pressionado pela 
presença das forças armadas estadunidenses. É por isso que, receoso 
quanto aos possíveis desdobramentos desta guerra, o país vem procurando 
manter boas relações com a Rússia através da qual tenta influenciar a 
composição do futuro governo do Afeganistão e a correlação de forças que 
se estabelecerá na Ásia Central após o fim do conflito. Peça importante 
do tabuleiro da região, o Irã estuda os movimentos dos parceiros, dos 
adversários e de quantos podem contribuir para o resultado final da 
seqüência de acontecimentos desencadeada em resposta aos atentados 
terroristas do dia 11 de setembro. Outro vizinho do Afeganistão a não 
fazer barulho e o Turcomenistão. Desde o começo das hostilidades o país 
declarou a sua neutralidade em relação ao conflito e, no momento, não vê 
nenhuma boa razão para mudar de posição. Consciente das grandes reservas 
de petróleo que estão em seu território e da cobiça dos países do 
primeiro mundo, o Turcomenistão tenta desenvolver a sua economia 
baseando-se em recursos próprios e se mantém a igual distância da Rússia 
(com a qual assinou uma série de acordos comerciais) e dos Estados Unidos 
(que lhe concederam o tratamento de "nação mais favorecida"). Em 1995, 
com a Turquia, o Irã, o Cazaquistão e a Rússia, o país participava da 
construção do gasoduto que permite exportar seu gás natural para a Europa 
Ocidental através do Irã e da Turquia. Dois anos mais tarde inaugurava o 
primeiro oleoduto entre as suas jazidas e as linhas de escoamento do Irã 
que levam o petróleo do Turcomenistão ao Golfo Pérsico e ao Mediterrâneo. 
Antes do ataque norte-americano, o país estava entre as nações que 
mantinham boas relações comerciais com o Afeganistão e, apesar de 90% da 
sua população ser muçulmana, o fundamentalismo religioso não dá sinais de 
querer entrar em seu território. Neste contexto, a opção pela 
neutralidade não se deve a uma postura crítica em relação à guerra e sim 
a uma questão de conveniência. O Turcomenistão é, ao mesmo tempo, amigo 
do Afeganistão, da Rússia, dos EUA e do Irã e sabe que cada um deles tem 
contas pendentes com o outro. Optar pelo apoio a qualquer um dos lados 
significaria criar sentimentos de desconfiança e receio nas relações 
comerciais com os demais. Além disso, a posição geográfica e as relações 
com os países da região dão ao Turcomenistão a certeza de que não lhe 
faltarão convites e investimentos quando da construção do oleoduto e do 
gasoduto que vai ligar a bacia do Mar Cáspio ao Paquistão». Ao terminar a 
descrição deste último país que tem fronteiras comuns com o Afeganistão, 
a coruja emite um longo suspiro e fecha os olhos. O adiantado da hora me 
leva a crer que ela já terminou o relato e eu posso ir arrumando os 
papéis em cima da mesa. A ave permanece imóvel. Mas, bem na hora em que 
empurro a cadeira pra levantar, me surpreende com um «Onde você pensa que 
vai?» que joga por terra as minhas esperanças de dar por encerrado o 
trabalho de relatar as suas palavras. Olho no olho, a coruja aponta a asa 
esquerda para os papéis que aguardam o carinho da caneta e sem titubear 
me diz: «Preciso falar de mais um país cujos poderosos ficaram 
alvoroçados por causa desta guerra. Voando na noite da Ásia Central rumo 
ao Brasil pude sentir que há sinais de... 

4. Turbulência nos céus da Arábia Saudita. 

A situação da Arábia Saudita é bem parecida com a daquela 
pessoa que, para se garantir, acendeu uma vela a deus e outra ao diabo e, 
agora, teme as reações de ambos. Desde o fim da segunda guerra mundial, a 
relação do país com os Estados Unidos está alicerçada numa troca: o 
império protege a monarquia absolutista que governa a Arábia e, em troca, 
recebe a garantia de um acesso privilegiado ao petróleo saudita. O 
envolvimento entre os dois países foi crescendo até atingir um novo 
estágio em 1979. Neste ano ocorreram três fatos relevantes: a ocupação 
soviética do Afeganistão, a revolução iraniana (que levou ao poder o 
aiatollah Khomeine) e uma revolta de militantes islâmicos durante a 
peregrinação à Meca. Diante desta alteração do equilíbrio de forças no 
Oriente Médio e na Ásia Central, o presidente Jimmy Carter lançou uma 
nova formulação da política estadunidense: qualquer tentativa de um poder 
hostil controlar o Golfo Pérsico seria considerada "um ataque aos 
interesses vitais dos Estados Unidos da América" e seria repelida "com 
todos os meios necessários, incluindo a ação militar". Razões para isso 
não faltavam e se baseavam, sobretudo no fato dos EUA importarem da 
Arábia Saudita 82% do petróleo comprado no exterior. Ao longo da década 
de 80, a relação entre os dois países ia se estreitando cada vez mais. Na 
guerra entre o Irã e o Iraque, Arábia e Estados Unidos apoiavam as forças 
de Saddam Hussein. Para se proteger das ameaças de Khomeine e agradar os 
ambiciosos comandantes de seu exército, a nação saudita comprava da 
indústria bélica norte-americana armamentos sofisticados e aviões de 
combate que só podiam ser usados por soldados estadunidenses e construía 
as bases militares de Jubail e Jiddah com a supervisão do corpo de 
engenheiros do exército dos EUA. Os constrangimentos criados ao apoio 
estadunidense pelos casos de corrupção que envolviam a família real eram 
perdoados e minimizados em função do volume de armamentos que eram 
comprados de suas indústrias e dos investimentos do país na economia 
norte-americana. Calcula-se que dois terços da fabulosa quantidade de 
dinheiro obtida com a venda do petróleo saudita era investida em ações, 
papéis do governo e depósitos a prazo dos bancos dos Estados Unidos. O 
restante era usado para financiar a implantação de empresas produtivas na 
Arábia, as mordomias e os desmandos da corte, os grupos guerrilheiros 
islâmicos no Oriente Médio e na Ásia Central, entre eles o de Osama Bin 
Laden que, até pouco tempo atrás, era cidadão saudita. A acumulação de 
riquezas às custas do povo simples e o despotismo da casa real 
contribuíam para alimentar o descontentamento popular. Diante dos 
primeiros sinais de instabilidade social, o regime declarava ilegais 
todas as formas de debate político no interior do reino (na Arábia não há 
parlamento, mas só um conselho consultivo da casa reinante, não há 
liberdade de expressão e nem partidos políticos) e não hesitava em usar a 
repressão através de suas forças de segurança treinadas pelos EUA para 
descobrir e esmagar qualquer grupo dissidente. Uma pequena amostra desta 
realidade é dada por um relatório da Anistia Internacional que, no início 
de 1990, denunciava a existência de um verdadeiro padrão de violação de 
direitos humanos contra opositores políticos e líderes sindicais. Se isso 
não bastasse, em 1992, o rei Fahd Bin Abdul Aziz, emitia um decreto que 
criava uma espécie de "polícia religiosa", cujo papel era de "assegurar a 
observância dos costumes islâmicos". Nele, o lar era definido como lugar 
sagrado e, portanto, o Estado (ou seja, a tal polícia religiosa) podia 
entrar nas casas das pessoas sem autorização legal para deter os 
suspeitos de violarem a lei islâmica. Em nome da religião, nascia mais um 
instrumento de controle e repressão dos possíveis focos de contestação ao 
regime. Sim, eu sei que deve ser difícil para você entender como os 
Estados Unidos, que se vangloriam de defenderem a democracia e a 
liberdade, podem apoiar o governo absolutista e corrupto da Arábia. Isso 
sempre acontece quando as pessoas não percebem que estão olhando para a 
história através das lentes dos poderosos. Em geral, elas esquecem de 
analisar detidamente os acontecimentos, as relações entre os países e o 
jogo de interesses que transforma o lucro em deus supremo e o azul dos 
balancetes na cor paradisíaca em nome da qual milhões de seres humanos 
são condenados a um verdadeiro inferno aqui na terra. Mas, vamos adiante. 
No início dos anos 90, quando o Iraque invadiu o Kuwait, os EUA 
convenceram a família real a permitir a presença de tropas estadunidenses 
em território saudita e a utilização de suas bases militares como ponto 
de partida para os ataques das forças aliadas. Terminada a guerra, a 
Arábia gastava cerca de 14 bilhões de dólares em armamentos americanos 
com o pretexto de proteger o país contra eventuais retaliações iraquianas 
e admitia a presença de cerca de 6 mil soldados americanos em seu 
território. A manutenção deste contingente do exército estadunidense era 
interpretada por vários líderes radicais como uma profanação do 
território saudita, sede das cidades sagradas do islamismo (Meca e 
Medina). É interessante perceber que a presença americana na Arábia, que 
não era uma novidade, passava a ser condenada em nome do sentimento 
religioso. Este era o único elemento que possibilitava aos grupos 
radicais tentarem organizar e dirigir o crescente descontentamento 
popular contra o setor dominante para o qual a Arábia era o berço da 
ortodoxia islâmica. O sentimento de revolta, porém, não se destinava à 
destruição dos mecanismos de exploração presentes na realidade do país. 
Ele visava apenas fortalecer e dar sustentação a um outro grupo no 
interior da elite que almejava chegar ao poder nos braços do povo para, a 
partir daí, inverter as relações de dependência estabelecidas com os 
demais países através da compra do petróleo saudita. Ou seja, o preço do 
barril e a quantidade produzida deixariam de ser umbilicalmente ligados 
às necessidades e à orientação dos Estados Unidos. Eles iriam flutuar de 
acordo com as necessidades dos países produtores reduzirem o ritmo de 
extração e esgotamento de suas reservas levando seus compradores a se 
tornarem reféns do fornecimento desta matéria-prima, tão importante para 
o bom funcionamento de suas economias. Hoje, entre os elementos que fazem 
tremer o regime, está a constatação de que a hipótese da atual monarquia 
viabilizar uma saída política para o crescente descontentamento popular é 
algo que parece materialmente impossível. De fato, uma das razões pelas 
quais o rei Fahd, que sofreu um derrame em 1995, é mantido no trono é a 
antipatia e a desconfiança da qual é objeto o príncipe Abdullah Bin Abdel 
Aziz, seu meio irmão e sucessor já nomeado, em função dos casos de 
corrupção nos quais estaria envolvido. Sabendo da progressiva 
instabilidade rumo à qual caminha o seu reino, a monarquia saudita tem se 
esforçado para tornar pública a imagem de um certo distanciamento em 
relação ao ocidente. É neste contexto que deve ser lida a postura do país 
de apoiar a coalizão contra o terrorismo, sem permitir que os bombardeios 
decolem de seu território rumo ao Afeganistão. Em sua busca do difícil 
equilíbrio entre a fidelidade aos EUA e o respeito à sensibilidade 
popular, cuja revolta é alimentada pelos grupos fundamentalistas, a 
Arábia se nega a colaborar com o FBI e a CIA na completa identificação de 
15 dos 19 supostos terroristas que realizaram os atentados do dia 11 de 
setembro e eram cidadãos sauditas. O problema é que estes fatos não 
parecem suficientes para fazer o povo esquecer de um passado e um 
presente que continuam falando mais alto. Caso não haja um desfecho 
rápido para a guerra no Afeganistão e para as contradições que irão se 
avolumar naquele país, é bem provável que os céus da monarquia saudita 
sejam sacudidos por fortes turbulências». A coruja pára de falar. Seus 
pequenos olhos fitam a expressão do meu rosto incapaz de esconder o 
receio de que novos e mais duros enfrentamentos se aproximam do horizonte 
da humanidade movidos pelos mecanismos de dominação que os sustentam. A 
ave abre um sorriso inesperado e com voz confiante me diz: «Ela já tem um 
pequeno broto!». «Ela,... quem?», pergunto impaciente. «Estou falando da 
flor da esperança», me diz a coruja com um brilho diferente nos seus 
olhos. E continua: «As cartas, os abaixo-assinados, os desenhos, as 
vinhetas, os poemas, as músicas, os panfletos, as passeatas, as palavras 
de ordem, enfim os mais diferentes gestos de centenas de milhares de 
pessoas fizeram sair das entranhas da terra seus primeiros sinais de 
vida. Ao levantar suas vozes contra o terror e contra a guerra, homens, 
mulheres, crianças e anciãos de todos os povos protegem e alimentam seu 
pequeno broto. Ainda falta muito para que o maravilhoso arco-íris de 
cores que pinta suas pétalas possa desabrochar saudando um novo amanhecer 
de justiça e de paz. Mas cada novo passo que desafia a escuridão do medo, 
da resignação, do conformismo e da apatia faz caminhar esta longa marcha 
na qual a humanidade disputa o seu futuro com as forças da morte». A 
coruja se aproxima da janela e se despede com um gesto de saudação. O 
bater de suas asas na escuridão me faz perceber que o novo dia precisa 
ser construído em meio ao sofrimento e às dificuldades impostas pela 
noite da injustiça que ainda cobre o mundo. É nela que os pequenos de 
todos os povos precisam se encontrar e caminhar para afugentar as sombras 
e dar vida a novas luzes. Os primeiros passos já estão sendo dados. 
Outros serão necessários. Tomara que o relato da coruja ajude a 
multiplicá-los, a unir os pés, as mãos, as cabeças e os corações das 
grandes maiorias que precisam começar a preencher as páginas da história. 

Emilio Gennari 
Brasil, 22 de novembro de 2001. 
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Uzbequistão aproveita aliança e atrai capital, 
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 · Vários Autores, Guia Del Mundo 2001/2002
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