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{Info on A-Infos}
(pt) EZLN Os intelectuais
From
Emilio Gennari <emiliogennari@osite.com.br>
Date
Tue, 16 May 2000 18:28:29 -0400
________________________________________________
A - I N F O S N E W S S E R V I C E
http://www.ainfos.ca/
________________________________________________
EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL. MÉXICO.
Nosso programa imediato:
OXIMORON!
(A DIREITA INTELECTUAL E O FASCISMO LIBERAL)
Subcomandante Insurgente Marcos
À figura chamada Oximoron, aplica-se uma palavra,
um epíteto que parece contradizê-la;
do mesmo modo, os gnósticos falaram de uma luz escura;
os alquimistas de um sol negro.
Jorge Luis Borges.
Advertência, introdução e promessa.
Atenção: se você não leu a epígrafe, é melhor fazer isso agora, porque,
do contrário, não vai entender alguma coisa.
Um fato irrefutável: a globalização está aqui. Não a qualifico (ainda),
aponto só uma realidade. Mas, como Oximoron, deve-se assinalar que se
trata de uma globalização fragmentada.
Entre outras coisas, a globalização tem sido possível graças a duas
revoluções: a tecnológica e a informática. Foi e é dirigida pelo poder
financeiro. Com a tecnologia e a informática ao alcance da mão (e, com
elas, o capital financeiro) tem desaparecido as distâncias e as
fronteiras têm sido quebradas. Hoje é possível ter informação sobre
qualquer lugar do mundo, a qualquer momento e de forma simultânea. Mas,
agora, também o dinheiro tem o dom da ubiqüidade, vai e vem de forma
vertiginosa, como se, ao mesmo tempo, estivesse por toda parte. E mais,
o dinheiro dá uma nova forma ao mundo, a forma de um mercado, de um
mega-mercado.
Sem dúvida, apesar da "mundialização" do planeta, ou, melhor, justamente
por causa dela, a homogeneidade está muito longe de ser a característica
desta mudança de século e de milênio. O mundo é um arquipélago, um
quebra-cabeças cujas peças se transformam em outros quebra-cabeças, e o
único aspecto realmente globalizado é a heterogeneidade.
Se a tecnologia e a informática têm unido o mundo, o poder financeiro
tem se utilizado delas, quebrou-o usando-as como armas, como armas numa
guerra. Temos dito antes (o texto se chama "7 peças soltas do
quebra-cabeça mundial", EZLN, 1997), que com a globalização finaliza-se
uma guerra mundial, a quarta, e que se desenvolve um processo de
destruição/despovoamento e reconstrução/reordenação (estou tentando
fazer um resumo rápido, sejam benévolos) em todo o planeta. Para a
construção da "nova ordem mundial" (planetária, permanente, imediata,
imaterial, de acordo com Ignacio Ramonet), o poder financeiro conquista
territórios e derruba fronteiras, e consegue isso fazendo a guerra, uma
nova guerra. Uma das baixas desta guerra é o mercado nacional, base
fundamental do Estado-Nação.este último está em via de extinção ou, pelo
menos, o está o Estado-Nação ou clássico. Em seu lugar surgem mercados
integrados ou, melhor ainda, lojas de departamentos da grande "mall"(*)
mundial, o mercado globalizado.
As conseqüências políticas e sociais desta globalização são uma
reiterada e complexa figura de oximoron: menos pessoas com mais
riquezas, produzidas com a exploração de mais pessoas com menos riqueza,
não dá pra comparar a pobreza do nosso século com nenhuma outra. Não é,
como já foi alguma vez, o resultado natural da escassez e sim de um
conjunto de prioridades impostas pelos ricos ao resto do mundo (John
Berger, Cada vez que decimos adiós. Edições de La Flor. Argentina, 1997,
pg. 278-279); o planeta se abriu completamente para alguns poderosos,
mas o mundo não oferece lugar para milhões de pessoas que vagam errantes
de um lado pra outro; o crime organizado forma a coluna vertebral dos
sistemas judiciais e dos governos (os ilegais fazem as leis e "mantém a
ordem pública"); e a "integração" mundial multiplica as fronteiras.
Por isso, se tivéssemos que ressaltar algumas das principais
características da época atual, diríamos: supremacia do poder
financeiro, revolução tecnológica e informática, guerra,
destruição/despovoamento e reconstrução/reordenação, ataques aos
Estados-Nação, a conseqüente redefinição do poder e da política, o
mercado como figura hegemônica que permeia todos os aspectos da vida
humana em qualquer lugar, maior concentração da riqueza em poucas mãos,
maior distribuição da pobreza, aumento da exploração e do desemprego,
milhões de pessoas no desterro, delinqüentes que são governo,
desintegração dos territórios. Em resumo: globalização fragmentada.
Bom, de acordo com esta colocação, no caso dos intelectuais (já que têm
a ver com a sociedade, o poder e o Estado) caberia perguntar-se:
sofreram o mesmo processo de destruição/despovoamento e
reconstrução/reordenação?; que papel lhes designa o poder financeiro?;
como usam (ou são usados pelos) avanços da tecnologia e da informática?;
que posição ocupam nesta guerra?; como se relacionam com estes golpeados
Estados-Nação?; qual é o seu vínculo com esse poder e com esta política
agora redefinidos?; que lugar têm no mercado?, e que posição assumem
diante das conseqüências políticas e sociais da globalização? Em suma:
como é que se inserem nesta globalização fragmentada?
O mundo teria mudado por e para esta guerra. Se assim fosse, os
intelectuais "clássicos" não existiriam mais e nem suas antigas funções.
Em seu lugar, teria emergido (ou está por emergir) uma nova geração de
"cabeças pensantes" (para usar um termo cunhado pelo comandante
zapatista Tacho) que teria novas funções em sua ação intelectual.
Ainda que aqui vamos tratar de limitarmo-nos aos intelectuais de
direita, ficarão evidentes alguns traços sobre os intelectuais em geral
e sobre sua relação com o poder. Como o propósito deste texto é
participar e incitar a polêmica entre os intelectuais de direita e de
esquerda, uma reflexão mais profunda (sobre os intelectuais e o poder, e
sobre os intelectuais e a transformação) fica para futuros e improváveis
escritos.
Valeu. Saúde e tenha sempre seu controle remoto ao alcance da mão.
Começamos num instante ...
I. A mundialização: pague pra ver.
Na dobra do calendário, o dois mil se balança ainda entre os séculos XX
e XXI, e entre o segundo e o terceiro milênio. Não sei o que tem de tão
importante nesta contagem do tempo, mas me parece que é também o momento
adequado para que OXIMORON surja por toda parte. Para não ir muito
longe, pode-se dizer que esta época é o começo do fim ou o fim do começo
de "algo". "Algo": forma irresponsável de eludir um problema. Mas já é
sabido que a nossa especialidade não é a solução dos problemas, e sim a
sua criação. "Sua criação"? Não, é muita presunção, melhor sua
proposição. Sim, nossa especialidade é propor problemas.
Lá em cima, tudo parece já ter acontecido antes, como se um velho filme
se repetisse com outras imagens, outros recursos cinematográficos,
incluindo atores diferentes, mas o mesmo argumento. Como se a
"modernidade" (ou a "pós-modernidade", deixo a precisão para quem ficar
incomodado) da globalização se vestisse com seu OXIMORON e se
apresentasse a nós como uma modernidade arcaica, nauseabunda, antiga.
Se isso que estou dizendo parece-lhes uma mera consideração subjetiva,
atribua-o ao nosso estar na montanha, resistindo e em rebeldia, mas
conceda-nos o privilégio da leitura e veja se, de fato, se trata de um
sintoma a mais do "mal da montanha" ou partilhe esta sensação e se
entregue ao fluir do hipercinema que é o mundo globalizado.
O mundo não é quadrado, pelo menos é isso que se ensina na escola. Mas
no fio cortante da união de dois milênios, o mundo tampouco é redondo.
Ignoro qual seja a figura geométrica adequada para representar a forma
atual do mundo, mas, como estamos na época da comunicação audiovisual
digital, poderíamos tentar defini-la como um tela gigantesca. Você
poderia acrescentar "uma tela de televisão", mas eu optaria por "uma
tela de cinema". Não só porque prefiro o cinema, mas também (e
sobretudo) porque me parece que diante de nós tem um filme, um velho
filme, modernamente velho (para continuar com oximoron).
Além do mais, é um desses filmes no qual pode-se programar a
apresentação simultânea de várias imagens (picture in picture a chamam).
No caso do mundo globalizado, de imagens que se sucedem em qualquer
canto do planeta. Não são todas as imagens. E não se deve ao fato de que
falta espaço na tela, e sim que alguém selecionou estas imagens e não
outras. Ou seja, estamos vendo uma telão com diversos quadros que
apresentam imagens simultâneas de diferentes partes do mundo, é claro,
mas não é o mundo todo que está aí.
Ao chegar a este ponto, alguém, inevitavelmente, se pergunta: quem tem o
controle remoto deste telão audiovisual?; e quem faz a programação? Boas
perguntas, mas você não vai encontrar aqui as respostas. E não só porque
não as conhecemos com precisão matemática, e sim, também, porque não são
o tema deste escrito.
Como não podemos mudar de canal ou de cinema, vamos ver alguns dos
diferentes quadros que o mega telão da globalização nos oferece.
Vamos ao continente americano. Você tem aí, naquele canto, a imagem da
Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) ocupada por um grupo
paramilitar do governo: a chamada Polícia Federal Preventiva. Não parece
que estes homens uniformizados de cinza estejam estudando. Mais pra lá,
emoldurada pelas montanhas do sudeste mexicano, uma coluna de blindados
cinzas cruza uma comunidade indígena chiapaneca. No outro lado, a imagem
cinza apresenta um policial norte-americano que, com requinte de
violência, prende um jovem num lugar que pode ser Seattle ou Washington.
Os cinzas também proliferam no panorama europeu. Na Áustria é Joer
Heider e seu fervor pro-nazista. Na Itália, Silvio Berlusconi arruma a
gravata com a ajuda desinteressada de D’Alema. No Estado Espanhol,
Felipe González maquia a cara de José Maria Aznar. Na França é Le Pen
quem nos sorri.
Ásia, África e Oceania apresentam a mesma cor que se repete em seus
respectivos lugares.
Mmh ... Tantos cinzas ...Mmh ... Podemos protestar ... Afinal de contas
nos prometeram um programa com todas as cores ... Pelo menos vamos
aumentar o volume e procurar entender assim do que se trata ...
II. Um esquecimento memorável.
Do mesmo modo que a globalização fragmentada, os intelectuais estão aí,
são uma realidade da sociedade moderna. E seu "estar aí" não se limita à
época atual, mas remonta aos primeiros passos da sociedade humana. Mas a
arqueologia dos intelectuais foge aos nossos conhecimentos e
possibilidades, por isso, partimos do fato que "estão aí". Todo caso, o
que tentamos de descobrir é a forma que adquire agora seu "estar aí".
Já se sabe que os intelectuais, como categoria, são algo muito vago. No
lugar disso, bem diferente é definir a "função intelectual". A função
intelectual consiste em determinar criticamente o que se considera ser
uma aproximação satisfatória ao próprio conceito de verdade; e pode ser
desenvolvida seja lá por quem for, inclusive por um marginalizado que
reflete sobre sua própria condição e a expressa de alguma maneira, ao
mesmo tempo em que pode ser traída por um escritor que reage com paixão
diante dos acontecimentos, sem impor-se o crivo da reflexão (Humberto
Eco, Cinco escritos morales. Ed. Lumen. Tradução de Helena Lozano
Miralles, pg. 14-15). Se é assim, então o agir do intelectual é,
fundamentalmente, analítico e crítico. Diante de um acontecimento social
(para limitarmo-nos a um universo), o intelectual analisa as evidências,
o que se afirma e o que é negado, procurando o que é ambíguo, o que não
é nem uma coisa e nem outra (ainda que se apresente assim), e exibe
(comunica, desvela, denuncia) o que não só não está evidente, como
contradiz as evidências.
Deve-se supor que as sociedades humanas tenham pessoas que se dediquem
profissionalmente a esta análise crítica e a comunicar seu resultado
(nas palavras de Norberto Bobbio: Os intelectuais são todos aqueles para
os quais transmitir mensagens é uma ocupação habitual e consciente (...)
e, para dizê-lo numa forma que pode parecer brutal, quase sempre
representa a maneira de ganhar o pão). Vamos ficar com esta abordagem do
intelectual, do profissional da análise crítica e da comunicação.
Já temos sido advertidos de que nem sempre o intelectual exerce a função
intelectual. A função intelectual se exerce sempre em antecipação (sobre
o que poderia acontecer) ou em atraso (sobre o que tem acontecido);
raramente sobre o que está acontecendo, por razões de ritmo, porque os
acontecimentos são sempre mais rápidos e estimulantes do que a reflexão
sobre os acontecimentos (Umberto Eco, Op. Cit. pg. 29).
Por sua função intelectual, este profissional da análise crítica e da
comunicação seria uma espécie de consciência incômoda e impertinente da
sociedade (nesta época, da sociedade globalizada) em seu conjunto e de
suas partes. Alguém que não se conforma com tudo, com as forças
políticas e sociais, com o estado, com o governo, com os meios de
comunicação, com a cultura, com as artes, com a religião, com o etcetera
que o leitor acrescentar. Se o ator social diz "Feito!", o intelectual
murmura com cepticismo: "falta isso, sobra aquilo".
Teríamos então que, em seu papel, o intelectual é um crítico da
imobilidade, um promotor da mudança, um progressista. Sem dúvida, este
comunicador de idéias críticas está inserido numa sociedade polarizada,
onde se enfrentam muitas formas e com variados argumentos, mas que no
fundamental está dividida entre aqueles que usam o poder para que as
coisas não mudem e aqueles que lutam pela mudança. Por uma percepção
elementar do ridículo, o intelectual deve compreender que não se outorga
a ele um papel de bruxo do espírito em torno do qual vai girar o ser ou
o não ser do que é histórico, mas que, evidentemente, ele tem saberes
que podem alinhá-lo num sentido ou em outro diante do que é histórico.
Podem alinhá-lo com a busca do esclarecimento das injustiças presentes
no mundo atual ou com a cumplicidade na paralisação e na instalação no
Limbo. (Manuel Vázquez Montalban Panfleto desde el planeta de los
simios. Ed. Drakontos. Barcelona, 1995, pg. 48).
E é aqui onde o intelectual opta, elege, escolhe entre sua função
intelectual e a função que lhe é proposta pelos atores sociais. Aparece
assim a divisão (e a luta) entre intelectuais progressistas e
reacionários. Uns e outros continuam trabalhando com a comunicação de
análises críticas mas, enquanto os progressistas continuam na crítica à
imobilidade, à permanência, à hegemonia e ao homogêneo, os reacionários
sustentam a crítica à mudança, ao movimento, à rebelião e à diversidade.
O intelectual reacionário "esquece" sua função intelectual, renuncia à
reflexão crítica e sua memória fica de tal forma recortada que não tem
passado e nem futuro, o presente e o imediato são as únicas coisas que
podem ser tocadas e, por isso, são inquestionáveis.
Ao dizer "intelectuais progressistas e reacionários", nos referimos aos
intelectuais "de esquerda e de direita". Convém acrescentar aqui que o
intelectual de esquerda exerce sua função intelectual, ou seja, sua
análise crítica, também diante da esquerda (social, partidária,
ideológica), mas na época atual a sua crítica é fundamentalmente diante
do poder hegemônico: o dos senhores do dinheiro e daqueles que os
representam no campo da política e das idéias.
Deixemos agora os intelectuais progressistas e de esquerda, e vamos aos
intelectuais reacionários, à direita intelectual.
III. O pragmatismo intelectual.
No início, os gigantes intelectuais da direita foram progressistas. E
falo dos grandes intelectuais da direita, os "Think Tanks"(**) da
reação, não dos anões que foram entrando para seus clubes "pensantes".
Octávio Paz, excelente poeta e ensaísta, o maior intelectual da direita
dos últimos anos no México, declarou: venho do pensamento dito de
esquerda. Foi muito importante na minha formação. Não sei agora ... a
única coisa que eu sei é que o meu diálogo - às vezes, minha discussão -
é com eles (os intelectuais de esquerda). Não tenho muito que falar com
os outros. (Braulio Peralta. El poeta em su tierra. Diálogos com Octavio
Paz. Ed. Grijalbo. México, 1996, pg. 45). E casos como o de Paz se
repetem no mega telão global.
O intelectual progressista, enquanto comunicador de análises críticas,
se transforma em objeto e objetivo para o poder dominante. Objeto a ser
comprado e objetivo a ser destruído. Um montão de recursos é colocado em
jogo para uma e para outra coisa. O intelectual progressista "nasce" no
meio deste ambiente de sedução persecutória. Alguns se ressentem e se
defendem (quase sempre sem companhia, a solidariedade entre os membros
deste grupo não parece ser a característica do intelectual
progressista), mas outros, talvez porque cansados, procuram entre sua
bagagem de idéias e tiram aquelas que, a depender do caso, são restrição
e razão para legitimar o poder. O novo exige muito, o velho está aí,
basta levantar o argumento do "inevitável" para que o sistema lhes
ofereça um cômodo assento (às vezes na forma de bolsa de estudo, posto,
prêmio, espaço) ao lado do Príncipe ontem tão criticado.
O "inevitável" hoje tem nome: globalização fragmentada, pensamento único
(ou seja, a tradução em termos ideológicos, e com pretensão universal,
dos interesses de um conjunto de forças econômicas, em particular as do
capital internacional. Ignacio Ramonet. Un mundo sin rumbo. Crisis de
fin de siglo. Editorial Debate. Madri), fim da história, onipresença e
onipotência do dinheiro, substituição da política pela polícia, o
presente como único futuro possível, racionalização da desigualdade
social, justificação da superexploração de seres humanos e de recursos
naturais, racismo, intolerância, guerra.
Numa época marcada por dois novos paradigmas, comunicação e mercado, o
intelectual de direita (e o ex de esquerda) entende que ser "moderno"
significa cumprir a palavra de ordem: adaptem-se ou percam seus lugares
privilegiados!
Não tem que ser sequer original, o intelectual de direita já tem a
pedreira da qual terá que tirar as pedras que adornam a globalização
fragmentada: o pensamento único. A assepsia não é muito importante, o
pensamento único tem suas principais "fontes" no Banco Mundial, no Fundo
Monetário Internacional, na Organização para o comércio e o
Desenvolvimento Econômico, na Organização Mundial do Comércio, na
Comissão Européia, no Bundesbank, no Banco da França que, através de seu
financiamento, recrutam a serviço de suas idéias, e em todo o planeta,
numerosos centros de pesquisa, universidades e fundações, que, por sua
vez, aperfeiçoam e difundem a boa nova (Ignacio Ramonet, Op. Cit. pg.
111).
Com tamanha abundância de recursos, é fácil que floresçam elites, isso
já vem acontecendo há anos, que se dediquem com afinco a tecer os
elogios do "pensamento único"; que, em nome da "modernização", do
"realismo", da "responsabilidade" e da "razão", exercem uma verdadeira
chantagem contra toda reflexão crítica; que afirmam o "caráter
inelutável" da atual evolução das coisas; que pregam a capitulação
intelectual, e enxotam para as trevas do irracional todos aqueles que se
negam a aceitar que "o mercado é o estado natural da sociedade" (ibid.
pg. 114).
Longe da reflexão, do pensamento crítico, os intelectuais de direita se
transformam em pragmáticos por excelência, exilam a função intelectual e
se transformam em ecos, mais ou menos estilizados, dos anúncios
publicitários que inundam o mega mercado da globalização fragmentada.
Readaptados para uma nova função no interior da globalização
fragmentada, os intelectuais de direita mudam o seu ser e adquirem novas
"virtudes" (entre elas reaparece oximoron): uma covardia audaz e uma
profunda banalidade. Ambas brilham em suas "análises" do presente
globalizado e de suas contradições, de suas novas visitas ao passado
histórico, de suas clarividências. Se podem dar-se ao luxo da covardia
audaz e da profunda banalidade é porque a hegemonia universal quase
absoluta do dinheiro os protege em torres de cristal a prova de bala.
Por isso, a direita atual é particularmente sectária e, além do mais,
tem o respaldo de não poucos meios de comunicação e governos. O acesso a
estas altas torres individuais não é fácil; é necessário renunciar à
imaginação crítica e autocrítica, à inteligência, à argumentação, à
reflexão, e optar por uma nova teologia, a teologia neoliberal.
Sendo que a globalização é vendida como o melhor dos mundos possíveis,
mas carece de exemplos concretos de suas vantagens para a humanidade,
deve-se recorrer à teologia para suprir a falta de argumentos com os
dogmas e a fé neoliberais. O papel dos teólogos neoliberais inclui o
apontar e o perseguir os "hereges", os "mensageiros do mal", ou seja, os
intelectuais de esquerda. E não há melhor forma de combater os críticos
a não ser a de acusá-los de "messianismo".
Diante do intelectual de esquerda, o de direita impõe uma etiqueta
lapidar de "messianismo tresnoitado". Quem pode questionar um presente
cheio de liberdades, no qual qualquer um tem a possibilidade de decidir
o que comprar, sejam artigos de primeira necessidade, ideologias,
propostas políticas e condutas para qualquer ocasião?
Mas o paradoxo não perdoa. Se tem messianismo em algum lugar, é na
direita intelectual. O Grão Circo dos Intelectuais Neoliberais
Quimicamente Puros ou dos Ex-Marxistas Arrependidos ou da Trilateral
podem ser messiânicos quando prefiguram a fatalidade de um universo
baseado na verdade única, no mercado único e no exército, único gendarme
do fogo de flash que acompanha a foto final da história, pulsando diante
das melhores paisagens e das melhores sociedades abertas. (Manuel
Vázquez Montalban, Op. Cit., pg. 47)
A foto final. Ou a cena culminante do filme da globalização fragmentada.
IV. Cegos clarividentes
Parafraseando Régis Debray (Croire, Voir, Faire. Ed. Ed. Odile Jacob.
Paris, 1999), o problema aqui não é o porquê ou o como a globalização é
irremediável, e sim porque ou como todo mundo, ou quase, está de acordo
com o fato de que é irremediável. Uma resposta possível: A tecnologia do
fazer-crer (...). O poder da informação ... In-formar: dar forma,
moldar. Com-formar: dar conformidade. Trans-formar: modificar uma
situação (ibid., pg. 193).
Com a globalização da economia, se globaliza também a cultura. E a
informação. Daí que as grandes empresas da comunicação "tendem" sua rede
eletrônica sobre o mundo inteiro sem que nada ou ninguém as impeça. Nem
Ted Turner, da CNN; nem Rupert Murdoch, da News Corporation Limited; nem
Bill Gates, da Microsoft; nem Jeffrey Vinik, da Fidelity Investments;
nem Larry Rong, da China Trust and Internacional Investmente; nem Robert
Allen, da ATT assim como George Soros ou dezenas de outros novos donos
do mundo, jamais têm submetido seus projetos ao sufrágio universal
(Ignacio Ramonet, Op. Cit., pg. 109).
Na globalização fragmentada, as sociedades são fundamentalmente
sociedades mediáticas. A mídia é o grande espelho, não do que é uma
sociedade e sim do que deve aparentar ser. Cheia de tautologias e
evidências, a sociedade mediática é avara em razões e argumentos. Aqui,
repetir é demonstrar.
E o que se repete são as imagens, cinzentas como estas que o telão
globalizado nos apresenta. Debray nos diz: a geração da era visual é
algo assim como: visual = o real = o verdadeiro. Eis aqui a idolatria
novamente visitada (e, sem dúvida, redefinida). (Régis Debray, Op. It.,
pg. 200). Os intelectuais da direita têm aprendido bem a lição. E mais,
é um dos dogmas de sua teologia.
Onde se deu o salto que iguala o visível com o verdadeiro? Truques do
telão globalizado.
O mundo inteiro, melhor ainda, todo o conhecimento está agora ao alcance
da mão de qualquer um que tenha uma televisão ou um computador portátil.
Sim, mas não é qualquer mundo e não é qualquer conhecimento. Debray
explica que o centro de gravidade das informações deslocou-se do escrito
para o visual, do deferido ao direto, do símbolo à imagem. São óbvias as
vantagens para os intelectuais da direita (a as desvantagens para os
progressistas).
Analisando o comportamento da informação na França durante a guerra do
Golfo Pérsico, se revela o poder da mídia: no início do conflito, 70%
dos franceses se mostravam hostis à guerra, no final a mesma porcentagem
a apoiava. Sob os golpes da mídia, a opinião pública francesa "mudou" e
o governo obteve a aprovação à sua participação bélica.
Estamos na "era visual". Deste modo, as informações se apresentam a nós
na evidência de sua imediação, portanto, aquilo que nos é mostrado é
real, logo, o que vemos é verdadeiro. Não há lugar para a reflexão
intelectual crítica, no máximo há espaço para comentaristas que
"completem" a leitura da imagem. Nesta era, o que é visível não é feito
para ser visto, e sim para dar "conhecimento". O mundo se tornou uma
mera representação multimídia, que suprime o mundo externo, possível de
ser conhecida na mesma medida em que é vista. Sim, estamos no limiar do
terceiro milênio, século XXI, e a filosofia que flutua no nosso mundo
"moderno" é o idealismo absoluto.
Já podem ser tiradas algumas conclusões: na era visual o novo
intelectual da direita tem que desempenhar a sua função legitimadora;
optar pelo direto e imediato; passar do símbolo à imagem e da reflexão
ao comentário televisivo. Não tem sequer que esforçar-se para legitimar
um sistema totalitário, brutal, genocida, racista, intolerante e
excludente. O mundo que é objeto de sua "função intelectual" é aquele
que a mídia oferece: uma representação virtual. Se no hipermercado
globalizado o Estado-Nação se redefine como uma empresa a mais, os
governantes como gerentes de venda e os exércitos e policiais como
corpos de vigilância, cabe à direita intelectual a área de Relações
Públicas.
Em outras palavras, no âmbito da globalização, os intelectuais de
direita são "multiuso": coveiros da análise crítica e da reflexão,
malabaristas com as rodas de moinho da teologia neoliberal, apontadores
de governos que esquecem o "script", comentaristas do que é evidente,
carregadores de cassetetes de soldados e policiais, juizes gnoseológicos
que distribuem etiquetas de "verdadeiro" ou "falso" de acordo com as
conveniências, guarda-costas teóricos do Príncipe e locutores da "nova
história".
V. O futuro passado.
Queimar livros e erguer fortificações são tarefas comuns entre os
príncipes, diz Jorge Luis Borges. E acrescenta que todo Príncipe quer
que a história comece a partir dele. Na era da globalização fragmentada
não se queimam os livros (ainda que se ergam fortificações), e sim se
substituem. Ainda assim, mais que substituir a história anterior à
globalização o Príncipe neoliberal instrui seus intelectuais para que a
reescrevam de maneira tal que o presente seja a culminação dos tempos.
"Os maquiadores da história", assim Luis Hernández Navarro intitulou um
artigo dedicado ao debate com os intelectuais da direita no México
(Ojarasca em La Jornada, 10 de abril de 2000). Além de provocar o
presente texto (escrito com o propósito de dar continuidade às suas
colocações), Hernández Navarro adverte quanto a uma nova ofensiva: a
nova direita intelectual dirige suas baterias contra figuras
representativas da intelectualidade progressista mexicana. Rentista
tardia da bonança planetária do "pensamento único", renegada de sua
identidade, herdeira com escrituras da queda do muro de Berlim, sócia e
êmula do circuito cultural conservador norte-americano, esta direita
está convencida de que a crítica cultural outorga credenciais
suficientes para emitir, sem argumentação, julgamentos sumários contra
seus adversários no terreno político (Ibidem).
As razões não ideológicas deste ataque devem ser procuradas na disputa
pelo espaço de credibilidade. No México, os intelectuais de esquerda têm
uma grande influência na cultura e na academia. Estorvam, este é o seu
delito.
Não, melhor, este é um dos seus delitos. Um outro é o apoio destes
intelectuais progressistas à luta zapatista por uma paz justa e digna,
pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas e pelo fim da
guerra contra os indígenas do país. Este "pecado" não é menor. O levante
zapatista inaugura uma nova etapa, a da irrupção dos movimentos
indígenas como atores da oposição à globalização neoliberal (Ivon Le
Bot, "Los indigenas contra el neoliberalismo", em La Jornada, 6 de março
de 2000). Não somos os melhores e nem os únicos: aí estão os indígenas
do Equador e do Chile, os protestos de Seattle e de Washington (e os que
vierem depois em termos de tempo, não de importância). Mas somos uma das
imagens que distorcem o mega telão da globalização fragmentada e,
enquanto fenômeno social e histórico, demandamos uma reflexão e uma
análise crítica.
E a reflexão e a análise crítica não estão no "arsenal" da direita
intelectual. Como cantar as glórias da nova ordem mundial (e de sua
imposição no México) se um grupo de indígenas "pré-modernos" não só
desafiavam o poder, como conseguiam a simpatia de um importante grupo de
intelectuais? De conseqüência, o Príncipe ditou suas ordens: atacai uns
e outros; eu entro com o exército e os meios de comunicação, vocês
colocam as idéias. É assim que a nova direita intelectual dedicou
gozações e calúnias à sua colega de esquerda. Aos indígenas rebeldes
zapatistas dedicou ... uma nova história.
E, enquanto o zapatismo teve impacto internacional, a direita
intelectual em várias partes do mundo (não só no México) se dedicou a
esta tarefa. Os intelectuais de direita não só maquiam a história, a
refazem, a reescrevem de acordo com as conveniências do Príncipe e de um
jeito condizente com sua função intelectual.
Mas voltamos ao México. Ao longo deste século, no México, os
intelectuais têm desempenhado funções diferentes: cortesãos de luxo do
poder de plantão, decoração estatal, vozes dissidentes (as que são
chamadas para serem institucionalizadas, "consciências críticas"),
intérpretes privilegiados da história e da sociedade, espetáculos em si
mesmos. (Carlos Monsiváis. "Intelectuales mexicanos de fin de siglo",
Viento del Sur 8, 1996, pg. 43).
No México, o último grande intelectual da direita, Octávio Paz, cumpriu
plenamente com o trabalho encomendado pelo Príncipe. Não poupou palavras
para desqualificar os zapatistas e aqueles que mostravam simpatia por
sua causa (atenção: não por sua forma de luta). Uma das melhores
amostras de Paz a serviço do Príncipe está em seus escritos e
declarações no início de 1994. Aí Octávio Paz define, não o EZLN, e sim
os argumentos sobre os quais deveriam se alicerçar seus "soldados"
intelectuais: maoísmo, messianismo, fundamentalismo e alguns outros
"ismos" a mais que agora me fogem da memória. Diante dos intelectuais
progressistas, Paz não poupou acusações: eles eram responsáveis pelo
"clima de violência" que marcou o ano de 1994 (e todos os anos do México
moderno, mas a direita intelectual nunca brilhou por sua memória
histórica), concretamente, do assassinato do candidato oficial à
presidência da República, Colosio. Anos depois, antes de morrer, Paz
iria corrigir isso e apontar que o sistema estava em crise e que, mesmo
sem o levante zapatista, estes acontecimentos iriam ocorrer de qualquer
jeito (veja-se: Braulio Peralta, Op. Cit.).
Nenhum dos atuais herdeiros de Paz têm sua estatura, ainda que não lhes
faltem ambições para ocupar o seu lugar. Não como intelectual, pois
faltam-lhes inteligência e brilho, e sim pelo lugar privilegiado que
ocupou ao lado do Príncipe. Sem dúvida, fazem sua luta. E continuam no
seu compromisso de confeccionar ao zapatismo uma história que lhes seja
cômoda, não só para atacá-lo, mas, sobretudo, para iludir a análise
crítica e a reflexão sérias e responsáveis.
Mas os intelectuais de direita não reescrevem só a história do zapatismo
e dos povos indígenas. Toda a história do México está sendo refeita para
demonstrar que já estamos no melhor dos Méxicos possíveis. É assim que
os anões da direita intelectual revisitam o passado e nos vendem uma
nova imagem de Porfirio Diaz, de Santa Anna, de Calleja, de Cárdenas.
E este afã de remodelar a história não é exclusivo do México. No telão
da globalização já estão nos oferecendo uma nova versão na qual o
Holocausto nazista contra os judeus foi uma espécie de Disneylândia
seletiva, Adolf Hitler é uma espécie de alegre Mickey Mouse ariano e,
mais pra cá no tempo, as guerras no Golfo Pérsico e Kosovo foram
"humanitárias". No futuro passado que a direita intelectual nos prepara,
a globalização é o "deus ex machina" que trabalha sobre o mundo para
preparar seu próprio advento.
Mas que chegada anunciam estas imagens cinzentas que o mega telão nos
apresenta agora?
VI. O liberal fascista.
Eu acho que este filme nós já vimos antes, e se não lembramos dele é
porque a história não é uma mercadoria atraente no mercado globalizado.
Estes cinzas podem ter algum significado: o reaparecimento do fascismo.
Paranóia? Num texto chamado "O fascismo eterno" (Op. Cit.) Umberto Eco
dá algumas pistas para entender que o fascismo continua latente na
sociedade moderna, e que, ainda que pareça pouco provável que se repitam
os campos de extermínio nazistas, de um lado ao outro do planeta, está
nos espiando o que ele chama de "Ur Fascismo". Logo após advertir-nos
que o fascismo era um totalitarismo "fuzzy", ou seja, disperso, difuso
no todo social, propõe algumas de suas características: recusa ao avanço
do saber, irracionalismo, a cultura é suspeita de fomentar atitudes
críticas, a discordância com aquilo que é hegemônico é uma traição, medo
em relação à diferença e racismo, o social surge da frustração
individual, xenofobia, os inimigos são, ao mesmo tempo, excessivamente
fortes e excessivamente fracos, a vida é uma guerra permanente, elitismo
aristocrático, sacrifício individual para o bem da causa, machismo,
populismo qualitativo divulgado pela televisão, "neo-linguagem" (de
léxico pobre e sintaxe elementar).
Todas estas características podem ser encontradas nos valores que a
mídia e os intelectuais de direita defendem e difundem na era visual, na
era da globalização fragmentada. Por acaso, hoje quase como ontem, não
está se utilizando o cansaço democrático, a náusea perante o nada e o
desconcerto perante a ordem como aval de uma nova situação histórica de
exceção que requer um novo autoritarismo persuasivo, unificador da
cidadania em clientes e consumidores de um sistema, um mercado, uma
repressão centralizada? (M. Vázquez Montalban, Op. Cit. pg. 76).
Olhe você mesmo para o mega telão, todos estes cinzas são a resposta à
desordem, é o que se faz necessário para enfrentar aqueles que se negam
a desfrutar do mundo virtual da globalização e opõem resistência. E, sem
dúvida, parece que o número dos inconformes cresce. Um dos anões
mexicanos que aspiram a ocupar a cadeira vazia de Octavio Paz,
constatava, apavorado, que no México, de acordo com uma pesquisa do
Instituto de Pesquisas Sociais da UNAM, em 1994, o 29% dos entrevistados
respondiam que as leis não devem ser obedecidas quando são injustas. Em
novembro de 1999, na revista Educación 2001, era o 49% a responder "sim"
à pergunta "O povo deve desobedecer às leis quando estas lhes parecem
injustas?". Depois de reconhecer que é necessário resolver problemas de
crescimento econômico, educação, emprego e saúde, assinalava: todas
estas coisas só podem ser alcançadas se a sociedade estiver parada num
patamar mais básico que é o da segurança pública e do cumprimento da
lei. No México, este patamar está cheio de buracos e tende a piorar.
(Héctor Aguilar Camín. "Leyes y crimenes", em "Esquina", Proceso 1225,
23 de abril de 2000). O raciocínio é sintomático: na falta de
legitimidade e consenso, policiais.
O clamor da direita intelectual reivindicando "ordem e legalidade" não é
exclusivo do México. Na França, o fascista Le Pen está disposto a
responder ao chamado. Na Áustria, o neonazista Heider já está pronto, do
mesmo modo que o franquista Aznar no Estado Espanhol. Na Itália,
Berlusconi (aliás o "Duce Multimídia") e Gianfranco Fini se preparam
para o momento.
A Europa se aproxima de novo ao balcão do fascismo? Soa duro ... e
distante. Mas aí estão as imagens do mega telão. Estes "skin heads" que
ajuntam seus pedaços de pau naquela esquina, estão na Alemanha, na
Inglaterra, na Holanda? "São grupos minoritários e sob controle", nos
tranqüiliza o audio do mega telão. Mas parece que o fascismo renovado
nem sempre tem a cabeça raspada e nem enfeita o corpo com suásticas
tatuadas, e ainda assim não deixa de ser uma direita sinistra.
Quando digo "direita sinistra" vai lhe parecer que brinco com as
palavras, e que só estou recorrendo de novo a oximoron, mas trato de
chamar a sua atenção sobre alguma coisa. Depois da queda do muro de
Berlim, o panorama político europeu, em sua maioria, correu para o
centro de forma atropelada. Isso é evidente na esquerda européia
tradicional, mas acontece também com os partidos de direita (veja-se:
Emiliano Fruta "La nueva derecha europea", e Hernán R. Moheno "Más allá
de la vieja izquierda y la nueva derecha", em Urbi et Orbi, Itam, Abril
de 2000). Com uma cara moderna a direita fascista começa a conquistar
espaços que já ultrapassam bastante os (espaços) e as notas policiais na
mídia. Isso tem sido possível porque tem se esforçado em construir para
si uma nova imagem, afastada do passado violento e autoritário.
Também porque tem se apropriado da teologia neoliberal com uma
facilidade assustadora (deve ter alguma razão), e porque em suas
campanhas eleitorais tem insistido muito nos temas da segurança pública
e do emprego (alertando contra a "ameaça" dos imigrantes). Alguma
diferença em relação às propostas da social democracia ou da esquerda
tradicional?
Por trás da "terceira via" européia, quem está na espreita é o fascismo,
que está também por trás da esquerda que não se define (na teoria e na
prática) contra o neoliberalismo. Às vezes a direita se veste com
roupagens de esquerda. No México, no recente debate televisivo entre os
6 candidatos à presidência da República, o candidato que obteve a
aprovação da direita intelectual foi Gilberto Rincón Gallardo do Partido
da Democracia Social, aparentemente de esquerda. Por acaso a televisão
não mostrou que alguns dos militantes e candidatos do PDS em Chiapas
lideram vários grupos paramilitares, responsáveis, entre outras coisas,
do massacre de Acteal.
Não surpreende que a direita fascista e a nova direita intelectual
estejam prontas para mostrar suas "habilidades" aos senhores do
dinheiro. O que desconcerta é que, algumas vezes, são a social
democracia ou a esquerda institucional aquelas que lhes preparam o
caminho.
Se no Estado Espanhol, Felipe González este político tão aplaudido pela
direita intelectual) trabalhou pelo triunfo do direitista Partido
Popular de José Maria Aznar, na Itália, a rodovia pela qual a direita se
dirige ao poder se chama Maasimo D’Alema. Antes de renunciar, D’Alema
fez tudo o que era necessário para fazer naufragar a esquerda. D’Alema e
os seus financiaram a educação religiosa com o dinheiro de todos e
prepararam a privatização da (educação) pública, participaram plenamente
da aventura da OTAN contra a Iugoslávia e na ocupação virtual da
Albânia, privatizaram o que puderam, atentaram contra os aposentados,
reprimiram os imigrantes, se submeteram a Washington, "voltaram a fazer
flutuar" os corruptos e o próprio Bettino Craxi, por cuja residência no
exílio, como fugitivo da justiça, desfilaram para pedir ajuda, fizeram
uma lei sobre os carabineiros ditada pelo comando golpista dos mesmos
... (Guillermo Almeyra. "La izquierda de la derecha" em La Jornada, 23
de abril de 2000). Resultado? Boa parte do eleitorado de esquerda se
absteve de votar.
Na complexa geometria política européia, a chamada "terceira via" não só
tem se revelado letal para a esquerda, como também tem sido a rampa de
lançamento do neofascismo.
Talvez esteja exagerando, mas a memória é uma faculdade estranha. Quanto
mais agudo e isolado é o estímulo que a memória recebe, mais se lembra;
quanto mais abrangente, com menor intensidade ela lembra (John Berger,
Op. Cit., pg. 234). E suspeito que esta avalanche de imagens cinzentas
no telão é para que lembremos com menor intensidade, com preguiça, com
vontade de esquecer.
E se os livros não mentem, foi o fascismo italiano que acabou atraindo
muitos líderes liberais europeus porque achavam que estavam
concretizando interessantes reformas sociais, e poderia ser uma
alternativa à "ameaça comunista" Veja-se Umberto Eco, Op. Cit.).
Em agosto de 1997, Fausto Bertinotti (secretário geral do Partido da
Refundação Comunista da Itália) escrevia uma carta ao EZLN: Abriu-se na
Europa uma verdadeira crise de civilização. Infelizmente, seria possível
narrar centenas e milhares de episódios de barbárie quotidiana, de
violência gratuita, de agressão às pessoas, ao corpo, de tráfico de
pessoas, de corpos, de órgãos, sem nenhum sentido. E por cima de tudo
isso uma espessa capa de indiferença, como se a vida tivesse perdido o
sentido. Poderia lhe contar coisas que acontecem na periferia urbana,
realidade e metáfora da tragédia humana na qual tem se convertido este
novo ciclo de desenvolvimento capitalista.
Diante desta vida sem sentido, o liberal fascista oferece o seu rosto
amável e argumenta, baseando-se nas suas bondades, o recurso à violência
organizada, institucional.
O horizonte anuncia tormenta, e a direita intelectual trata de nos
tranqüilizar apresentando-a como uma chuvarada sem importância. Tudo
para garantir o pão, o sal ... e um lugar junto ao Príncipe. Protege-o!
Não importa que a sua camisa seja de cor cinza e que em seu seio
quentinho seja chocado o ovo da serpente.
"O ovo da serpente". Se eu não estiver errado, é o título é um título de
um filme de Bergman que descrevia o ambiente no qual se gestou o
fascismo. O que fazemos? Ficamos sentados até que o filme termine? Sim?
Não? Um momento! Olhe para os outros espectadores! Muitos têm se
levantado de seus assentos e cochicham! Os murmúrios crescem! Alguns
jogam objetos contra o telão e vaiam! E veja estes outros! No lugar de
dirigir-se ao telão vão pra cima! Como quem procura quem está projetando
o filme! Parece que o encontraram porque apontam insistentemente para um
canto lá em cima! Quem são estas pessoas e com que direito interrompem a
projeção? Um deles levanta um cartaz que diz: Então, nós, cidadãos
comuns, tomemos a palavra e a iniciativa. Com a mesma veemência e a
mesma força com a qual reivindicamos nossos direitos, reivindiquemos
também o dever de nossos deveres. (José Saramago, Discursos de
Estocolmo, Ed. Alfaguara). O dever de nossos deveres? Que alguém
explique porque não entendemos nada! Silêncio! Alguém toma a palavra ...
VII. A esperança incrédula.
Os intelectuais progressistas. Os da esquerda incrédula. O sociólogo
francês Alain Touraine propõe uma classificação deles (Comment sortir du
libéralisme? Ed. Fayard. Paris, 1999): a mais clássica é a do
intelectual denunciador, no qual toda a atenção se concentra na crítica
ao sistema dominante; o segundo tipo de intelectuais se identificam com
tal luta ou tal força de oposição e se convertem em seus intelectuais
orgânicos; a terceira acredita na existência, na consciência e na
eficácia dos atores, ao mesmo tempo em que reconhece seus limites; a
quarta é a dos utópicos, que se identificam com as novas tendências
culturais, da sociedade ou da existência pessoal.
Todos eles (e elas, porque ser intelectual não é um privilégio
masculino) dedicam seus esforços em entender criticamente a sociedade,
sua história e seu presente, e tentam decifrar a incógnita do seu
futuro.
Os pensadores progressistas não têm vida fácil. Em sua função
intelectual têm se dado conta que tudo passa e, nobreza obriga, devem
revelá-lo, exibi-lo, denunciá-lo, comunicá-lo. Mas para fazer isso devem
enfrentar a teologia neoliberal da direita intelectual, e por trás desta
estão a mídia, os bancos, as grandes corporações, os Estados (ou o que
sobrou deles), os governos, os exércitos, as polícias.
E, além do mais, devem fazê-lo na era visual. Aqui estão em franca
desvantagem, pois têm que levar em consideração as grandes dificuldades
que implica o enfrentar o poder da imagem com o único recurso da
palavra. Mas seu ceticismo diante das aparências já tem permitido a eles
descobrirem a fraude. E com o mesmo ceticismo armam suas análises
críticas para desmontar, conceitualmente, a máquina das belezas virtuais
e das misérias reais. Há esperança?
Transformar a palavra em bisturi e megafone já é um desafio fora do
comum. E não só porque nestas épocas quem reina é a imagem. Mas também
porque o despotismo da era visual encurrala a palavra nos bordéis e nas
lojas de truques de mágica e brincadeiras. Ainda assim, só podemos
confessar nossa confusão e nossa impotência, nossa ira e nossas
opiniões, com palavras. Com palavras nomeamos ainda nossas perdas e
nossa resistência porque não temos outro recurso, porque os homens estão
indefectivelmente abertos à palavra e porque, pouco a pouco, são elas
que moldam o nosso juízo. O nosso juízo, temido amiúde por aqueles que
detém o poder, se molda lentamente, como o leito de um rio, por meio das
correntezas da palavra. Mas as palavras só produzem correntezas quando
são profundamente confiáveis (John Berger, Op. Cit., pg. 255).
Credibilidade. Algo que está em falta na direita intelectual e que,
felizmente, abunda entre os intelectuais progressistas. Primeiro, suas
palavras têm produzido, e produzem, em muitos a surpresa, e depois, a
inquietação. Para que esta inquietação não seja esmagada pelo
conformismo receitado pela era visual, faltam mais coisas que fogem ao
âmbito da ação intelectual.
Mas, mesmo quando a palavra tem se transformado em correnteza, a função
intelectual não acaba. Os movimentos sociais de resistência ou de
protesto diante do poder (neste caso, diante da globalização e do
neoliberalismo) ainda devem percorrer um longo caminho, já não digamos
para conseguir seus fins, e sim para consolidar-se como alternativa
organizadora para outros. Finalmente, temos que reconhecer a
responsabilidade específica dos intelectuais. Depende deles, mais do que
de qualquer outra categoria, que o protesto se desgaste em denúncia sem
perspectiva ou, ao contrário, que ele leve à formação de novos atores
sociais e, indiretamente, a novas políticas econômicas e sociais. (Alain
Touraine, Op. Cit., pg. 15).
O intelectual progressista está se debatendo constantemente entre
Narciso e Prometeo. Às vezes a imagem no espelho o atrapalha e começa o
seu inexorável caminho de transmutação em mais um empregado do mega
mercado neoliberal. Mas às vezes ele quebra o espelho e descobre não só
a realidade que está por trás do reflexo, mas também outros que não são
como ele, mas que, como ele, quebraram seus respectivos espelhos.
A transformação da realidade não é tarefa para um único ator, por mais
forte, inteligente, criativo e sonhador que seja. Nem só os atores
políticos e sociais, nem só os intelectuais podem levar a bom termo esta
transformação. É um trabalho coletivo. E não só no agir, mas também na
análise dessa realidade e nas decisões sobre os rumos e a ênfase do
movimento de transformação.
Contam que Michelangelo Buonarroti realizou seu "Davi" com sérias
limitações materiais. O pedaço de mármore sobre o qual Michelangelo
trabalhou era um que alguém havia começado a esculpir e já tinha furos,
o talento do escultor consistiu em fazer uma figura que se ajustasse a
estes limites inquebrantáveis e tão apertados, daí a postura e a
inclinação da peça final (Pablo Fernández Christlieb, La afectividad
coletiva. Ed. Taurus, 2000, pg. 164-165).
Da mesma forma, o mundo que queremos transformar já foi trabalhado antes
pela história e tem muitos furos. Devemos encontrar o talento necessário
para, diante destes limites, transformá-lo e criar uma figura simples e
sincera: um mundo novo.
Valeu de noz. Saúde e não esqueçam que a idéia é também um cinzel.
Das montanhas do Sudeste Mexicano
Subcomandante Insurgente Marcos
México, abril de 2000.
P.S. Alguém tem um martelo ao alcance da mão?
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* "Mall": termo que em inglês norte-americano define a rua destinada ao
comércio.
** "Think Tanks": expressão que em inglês significa "Reservatórios do
Pensamento".
Tradução e notas de Emilio Gennari.
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The A-Infos News Service
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