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(pt) EZLN março 2000 b

From Emilio Gennari <emiliogennari@osite.com.br>
Date Tue, 28 Mar 2000 18:04:44 -0500


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      A - I N F O S  N E W S  S E R V I C E
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EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL. MÉXICO.


21 de março de 2000.

Para: Germán Dehesa
México, D. F.


Don Germán:

Já faz tempo que tenho vontade de escrever-lhe. Leio você há muito
tempo (sempre, claro, que o "Reforma" chega à Selva Lacandona) com
atenção e divertida seriedade (que tem, ou não?). Agora, lendo sua
coluna da quinta-feira 16 de março, vejo que, generoso, você tem um
ouvido atento às nossas palavras. Procurarei não estender-me muito. Aí
vai.
Primeiro, você pergunta "O que tem feito o EZLN para preservar a Selva
Lacandona?". Respondo: ditar leis e zelar por seu cumprimento. Como você
não deve estar sabendo (porque o governo apresentou os municípios
autônomos indígenas como separatistas), as autoridades autônomas das
comunidades indígenas zapatistas da Selva Lacandona ditaram uma lei que
proíbe "o roçar, a derrubada e as queimadas de monte alto" (os
companheiros usam o termo "monte alto" para referir-se às regiões dos
bosques, diferenciando-as assim dos milharais - terrenos semeados - e
dos "acahuales" terrenos com vegetação rasteira, invariavelmente de
espinhos, cardos, cipós e outras plantas parasitas). As comunidades não
têm se contentado em estabelecer e divulgar esta lei, além disso, têm se
encarregado de zelar por seu cumprimento e punir sua não observância.
Trabalho comunitário extra e multas são as penas por este delito. E,
atenção, isso se cumpre. Assim, têm conseguido não só deter a destruição
dos bosques da Selva Lacandona, mas têm conseguido também alterar em
parte os padrões de procedimento para a semeadura nas comunidades. Para
enfrentar os incêndios que proliferam nesta época do ano, os povos têm
um sistema de comunicação e sinais para socorrerem-se mutuamente caso o
fogo se espalhe. Resultado? Nas regiões zapatistas existem dezenas de
milhares de "bombeiros" experientes. Senhor Dehesa, estes indígenas
fazem isso e mais do que isso para proteger a terra que, para eles, não
é só um meio de sobrevivência, mas é também o lugar da memória, da
cultura, da história. É isso que fazem estes indígenas que se rebelam
contra um governo que se nega a cumprir sua palavra e que tem respondido
às demandas de justiça enviando dezenas de milhares de soldados que,
acredite senhor Dehesa, não vêm pra Chiapas semear as mudas das árvores
que você viu em San Miguel de los Jagüeyes, e sim para semear o terror
que você só verá nos rostos dos homens, mulheres, crianças e anciãos que
têm a desgraça de ter, sobre suas terras, um quartel do exército, vários
botecos, pelo menos um bordel e nenhum respeito à autoridade civil.
Estou lhe contando isso, senhor Dehesa, não porque quero
"transformá-lo" em zapatista ou recrutá-lo. Faço isso porque acredito
que você é tão inteligente como seus escritos revelam (e até mais, pois
têm brilhos que nem as palavras revelam). É claro que não foi
"inocentemente" que o convidaram para ir a San Miguel de los Jagüeyes (e
não a Acteal, a Amador Hernández, a Amparo Aguatinta, a Tani Perla, a
Roberto Barrios ou a outros lugares de "reflorestamento" castrense), e
que você sabe disso.
Como, tenho certeza disso, você é um homem de visões amplas e desejoso
de conhecer as diferentes imagens de uma mesma realidade, eu o convido a
vir pra Chiapas de incógnito; vá até Comitán e pegue aí um taxo aéreo
para a comunidade de Amador Hernández. Pelo ar, quase ao chegar, você
poderá apreciar um corte brutal de árvores feito pelos soldados aí
posicionados para os seus helicópteros e a extensão da mata que foi
derrubada para limpar os "campos de fogo" para as suas metralhadoras. Se
desce e consegue penetrar na fortificação militar, poderá ver os
tambores com os desfolhantes que estão em seus depósitos e os
lança-chamas que, com os morteiros e as metralhadoras leves, integram
parte do seu arsenal.
Vá a Amador Hernández, não será recebido por nenhum secretário de
Estado ou algum "alto comandante" da guerrilha zapatista, nem o esperará
nenhum encarregado das relações públicas. Será recebido por homens e
mulheres indígenas tzeltales, lhe mostrarão seus campos cultiváveis
destruídos, suas nascentes de água contaminadas, o lixo inorgânico
jogado pelos militares, as armadilhas caça-bobos com estacas afiadas no
fundo, as paredes de ramos e árvores cortados por trás das quais se
escondem os militares para não verem os cartazes que os homens e as
mulheres indígenas mostram a eles todos os dias exigindo que se retirem.
Venha, senhor Dehesa, não tem nada a perder e sim muito a entender.
Poderia (é uma sugestão) trazer consigo a Madame Loeza (que também
queria dar sua voltinha), tenho certeza que ela irá bolar um bom
disfarce para que ambos passem desapercebidos e possam constatar assim a
"outra" realidade dos soldados federais na Selva Lacandona.
Porque estes soldados que o senhor Aguilar Zinser vê (e aplaude)
"cuidando" dos bosques da Selva Lacandona são cúmplices das madeireiras
(os grandes caminhões com a madeira clandestina têm passagens livre
pelos bloqueios militares nos vales); são os mesmos que estupraram
mulheres indígenas na comunidade de Morelia; os mesmos que executaram
sumariamente alguns indígenas em Ocosingo; os mesmos que treinam
paramilitares (cuja maior façanha "florestal" é o massacre de crianças,
mulheres, homens e anciãos em Acteal); que transformam escolas e igrejas
em quartéis (visite o norte de Chiapas); que no hospital "novinho em
folha" do velho Guadalupe Tepeyac roubam recém-nascidos para vendê-los
(inteiros ou em pedaços) no mercado negro dos Estados Unidos; que
semeiam, traficam e consomem drogas (que lhe mostrem os arredores dos
quartéis de Guadalupe Tepeyac, San Quintín, Tani Perla, Ibarra, La
Soledad, só para mencionar alguns); que protegem os narcotraficantes em
suas rotas rumo à União Americana (desde 1995, ano da "recuperação da
soberania nacional", os quartéis sul-americanos "recuperaram" o
trampolim que haviam perdido com o levante do EZLN); que introduziram o
álcool nas comunidades (você pode apreciar os comboios militares
escoltando caminhões com bebidas alcoólicas!); os mesmos que perseguem,
ameaçam, golpeiam, prendem, estupram e matam os indígenas mexicanos (em
qualquer comunidade que tenha a desgraça de ter um quartel por perto)
que, até onde entendo, têm o mesmo valor (pelo menos) de qualquer
arbusto.
Venha, senhor Dehesa, venha, veja, fale e peça que o introduzam no
quartel que o exército tem na comunidade San Quintín (na porta da
biosfera dos Montes Azules), aí você poderá ver os eficiente e modernos
calabouços destinados a torturar indígenas, os túneis para "fazer
desaparecer" pessoas sem deixar rastros aos observadores dos direitos
humanos. Venha, veja e ouça.
Venha e verá que têm dois projetos para o amanhã: o do governo e o dos
indígenas. O nosso procura "criar as condições para que a nossa boa
gente do campo recupere através do seu esforço: sua história, seu
pensamento, sua dignidade, sua respeitabilidade e sua iniciativa".
(Dehesa, G., Reforma, sexta-feira 17 de março de 2000), e isso porque
não estamos em campanha eleitoral.
Não acredite em mim, senhor Dehesa, acredite no que seus olhos vêem e
seus ouvidos ouvem. Se sua viagem não for possível, não leve em
consideração isso que lhe escrevo. No lugar disso, veja as centenas de
relatos das Organizações Não Governamentais, de cientistas e
pesquisadores, da Alta Delegada da ONU para os Direitos Humanos - todos
eles recomendam a saída do exército de Chiapas. E não é porque querem
ver os bosques destruídos. É porque não viram os soldados plantando
mudas, e sim violando os direitos humanos.
Bom, senhor Dehesa, espero ter-me limitado às laudas que, imagino,
ocupam sua coluna. De resto, não acredite nesse negócio de correio
eletrônico, o único meio efetivo de comunicação com o Comando Geral do
EZLN continua sendo o que é proporcionado por um par de botas, meio
gastas, é verdade, mas que ainda servem. Ignoro se publicará a presente
ou o tom de sua resposta. Seja como for, saiba que você conta, pelo
menos, com dois leitores (incluindo La Mar) entre as montanhas do
sudeste mexicano que, apesar de não compartilhar muitas das minhas
opiniões e considerações sorriem divertidos com seu talento, sua
mordacidade e sua alegria.

Valeu. Saúde e a árvore que vale é a do amanhã.


Das montanhas do Sudeste Mexicano

Subcomandante Insurgente Marcos

México, março de 2000.


P. S. RESPONDÃO. Estava me esquecendo que você ainda perguntava "Quantas
árvores plantou Marcos?". Lhe respondo. Sem contar o pé de laranja que
verdeja na entrada do Comando Geral do EZLN, pode-se dizer que plantei
só uma outra árvore. Esta árvore é muito peculiar. Não só porque para
plantá-la tem sido necessária a participação de milhares de homens e
mulheres por várias gerações; não só porque seu adubo contém muitas
dores e, é justo dizê-lo, não poucos sorrisos. Não, senhor Dehesa, a
árvore que plantamos aqui é peculiar porque é uma árvore para todos,
para queles que ainda não nasceram, para aqueles que não conhecemos,
para aqueles que estarão quando nós nos teremos perdido atrás da esquina
de qualquer calendário. Quando a nossa árvore crescer, sob a sua sombra
se sentarão grandes e pequenos, brancos, morenos, vermelhos e azuis,
indígenas e mestiços, homens e mulheres, altos e baixos, sem que estas
diferenças tenham alguma importância e, sobretudo, sem que nenhum deles
se sinta menor, ou pior, ou envergonhado por ser como é. Sob esta árvore
terá respeito para o outro, dignidade (que não significa soberba),
justiça e liberdade. Se me apertar para que defina brevemente esta
árvore, lhe direi que é a árvore da esperança. Se numa manhã qualquer,
no mapa de Chiapas, no lugar da imensa área verde quebrada pelas linhas
azuis dos rios e dos córregos se vêem sinais de poços de petróleo, minas
de urânio, cassinos, áreas residenciais exclusivas e bases militares,
então quererá dizer que estes soldados, que você diz que cuidam da Selva
Lacandona, terão ganhado. Isso não significará que temos perdido, só que
nós estamos nos demorando mais do que pensávamos para ganhar.


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Tradução de Emilio Gennari.



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