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(pt) Polícia despeja sem terra com extrema violência no noroeste do Paraná

From Maisa Mendoca <maisa@globalexchange.org>
Date Mon, 6 Mar 2000 18:48:37 -0500


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Polícia despeja sem terra com extrema violência no noroeste do Paraná,
ferindo crianças e mulheres

 (Relato preparado por RENAAP e o Centro de Justiça Global)

Em 25 de fevereiro, centenas de policiais militares efetuaram uma operação
de despejo em duas fazendas do município de Guairaçá, região noroeste do
estado do Paraná. Na primeira desocupação, na fazenda Figueira, a polícia,
sem tentar negociar, iniciou a desocupação com extrema violência. Os sem
terra no local tentaram resistir. Os policiais lançaram bombas e tiros de
bala de borracha, prendendo 31 pessoas, ferindo 26 homens, 2 mulheres e 7
crianças (permanecem no hospital um menino de dois anos e uma menina de dois
meses, intoxicada com o gás utilizado pela PM ). No total foram despejadas
cerca de 140 famílias, com 228 crianças, segundo dados da própria PM. Na
fazenda Santa Filomena, no mesmo município, foram presos 10 homens, sem
registro até o momento de feridos. Foram despejadas 80 famílias, mais de 200
crianças. Na fazenda Eloá, município de Terra Rica, foram despejadas cerca
de 30 famílias, sem registro de presos ou feridos.

O efetivo utilizado foi de cerca de 1000 policiais, sob o comando do major
Neves, chefe do Grupo Águia, envolvido em operações que produziram terror
aos trabalhadores rurais, caracterizado por intervenções violentas, como no
caso do assassinato do líder sem terra Teixeirinha em 1992, na região de
Cascavel, Paraná.

Este episódio na região noroeste do Paraná vem acrescentar mais vítimas à
política pública do governo Jaime Lerner, marcado pela violação aos direitos
humanos e emprego de violência policial no tratamento das questões sociais.

Na apuração dos responsáveis pela morte do lavrador Sebastião Camargo Filho,
em fevereiro de 1998, seis homens foram presos na mesma fazenda Figueira,
que ontem foi palco de mais um violento despejo conduzido pelo governo do
estado.

Perto da meia-noite de 25/02, foi paga a fiança dos 41 presos, assim
permitindo que eles retornassem à região onde foram dispersas as demais
famílias.

Segue o texto da matéria do jornalista Roberto Silva publicada em 26/02 no
jornal Diário do Norte do Paraná, descrevendo a operação violenta.

Após o texto a lista dos 41 sem terra presos.

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DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ

PM usa violência para desocupar fazenda

Sem-terra que ocupavam fazenda no município de Guairaça

foram desalojados com violência por policiais militares




Roberto Silva
Da equipe de O DIÁRIO


Usando de extrema violência, cerca de 600 homens da Polícia Militar (PM)
retiraram, à força, ontem pela manhã, 140 famílias de sem-terra que
ocupavam, desde outubro do ano passado, a fazenda Figueira, no município de
Guairaça, a 30 quilômetros de Paranavaí. A ação policial resultou num grande
número de pessoas feridas a coronhadas, estilhaços de bombas e tiros de
borracha, muitas delas, crianças. Os camponeses denunciaram que entre os
feridos graves estaria um bebê de apenas cinco meses de idade. Ele teria se
intoxicado com uma bomba de gás lacrimogêneo lançada dentro da barraca em
que dormia. Outra criança de dois anos foi internada com estilhaços nos
olhos e ferimentos no abdomem.

Até o final da tarde de ontem os líderes do Movimento Sem Terra (MST), de
Querência do Norte, não haviam apurado o número exato de pessoas presas e
feridas. Segundo o advogado Avanilson Araújo, da Rede Nacional Autônoma de
Advogados Populares (Renaap), alguns feridos graves teriam sido levados às
escondidas para hospitais de outras regiões. Os locais não foram revelados
pela polícia. "Foi a estratégia que eles (PMs) encontraram para tentar
esconder a barbárie que cometeram", disse o advogado.

A imprensa foi impedida de acompanhar a desocupação. Repórteres, fotógrafos
e cinegrafistas ficaram retidos durante horas em bloqueios montados nas
estradas de acesso à fazenda. Usando de truculência e ameaças, os militares
também tentaram impedir o acesso dos jornalistas aos sem-terra feridos e
presos. Alguns policiais tentaram convencer os repórteres que a maioria dos
sem-terra teria "se arranhado" quando tentava fugir. A versão foi
compactuada pelo Governo do Estado. Eles só não souberam explicar os
ferimentos causados por projéteis de borracha, coronhadas e estilhaços de
bombas.

O acesso à área invadida só foi permitido a fazendeiros, capangas e
empregados, que auxiliaram a PM na desmontagem e queima dos acampamentos. A
sede regional da União Democrática Ruralista (UDR), de Paranavaí, cedeu 20
caminhões e 18 ônibus para o transporte dos sem-terra e dos poucos pertences
que sobraram. A reportagem de O DIÁRIO comprovou que muitas crianças foram
separadas dos pais e colocadas à força dentro de ônibus. A PM nega e diz que
todos teriam sido levados para as cidades de origem.

Empregando um tom sarcástico, alguns policiais alegavam que a desocupação
teria transcorrido de forma pacífica e que apenas algumas pessoas teriam
sido detidas por estarem portando armas. Pelo que a reportagem apurou, as
armas eram instrumentos de trabalho tais como enxadões, machados, enxadas,
foices e facões. Alguns vasilhames com restos de querosene e gasolina -
combustível usado para acender lampiões - foram apresentados como sendo
coquetéis molotov.

Os relatos da violência empregada pela Polícia Militar e a grande quantidade
de homens, mulheres e crianças feridas impressionou e assustou os
integrantes do Centro de Justiça Global, advogados James Cavallaro e Camila
Moreno, que chegaram ontem pela manhã em Guairaça. Eles disseram que todos
os depoimentos e fotos colhidas nos hospitais e na Delegacia de Paranavaí
farão parte de um relatório que será entregue à Organização das Nações
Unidas (ONU) e Organização dos Estados Americanos (OEA). O nome do
Governador Jaime Lerner, do Secretário de Segurança e dos oficiais que
comandaram a operação, major Righoni (comandante do 8º BPM) e major Neves
(de Curitiba), serão inclusos no relatório.

Até o fechamento desta edição - às 18h30 - o MST já haviam contabili-zado a prisão de 31 pessoas. Ainda de acordo com
uma lista apresentada pela vereadora Bia Corrêa (PT), de Maringá, 11 sem-terra teriam dado entrada na Santa Casa de
Paranavaí, sendo que quatro ficaram internados em virtude da gravidade dos ferimentos. O relatório denuncia ainda o
desaparecimento de cinco feridos. Os números poderiam aumentar ainda mais, uma vez que a PM tinha ordens para desocupar
outras duas propriedades naquela região.

Pavor e desespero

"Eles chegaram atirando em tudo que se movia. Não interessava se era adulto
ou criança. Mesmo com a maioria mascarado (usando capuzes) dava para
perceber que eles tinham prazer naquilo que estavam fazendo. Senti uma forte
pancada no rosto e quando agachei para socorrer meu filho mais novo
(Adriano, de quatro anos) que tinha sido baleado na perna, recebi uma
coronhada na cabeça. A partir daí, não vi mais nada, desmaiei", desabafou,
chorando, a lavradora Salete Pelissari, 31. Sua outra filha, Claudimara, de
sete anos, também foi baleada no braço.

"Eu me preparava para ir ao banheiro quando senti um golpe muito forte na
perna. De repente, vi aquele punhado de crianças correndo e chorando e os
gritos de desespero das mulheres atrás dos filhos. Em seguida, vi um monte
de homens mascarados, fardados de preto, todos armados, e um monte de
cachorros entrando no acampamento por tudo que é lado. Senti um líquido
quente escorrendo pela minha perna. Pensei que estava suando e, ao passar a
mão, notei que havia sido atingido com um tiro de escopeta", contou o
lavrador Paulo Trigueis, 78 anos, preso sob acusação de desacato à
autoridade.

"Eu estava ajudando minha esposa a recolher a louça suja da noite anterior
quando vi todo mundo gritando e correndo para todos os lados. Na hora,
pensei que eram pistoleiros e também corri. Quando estava chegando na
barraca para pegar meu filho fui atingido com dois tiros nas costas. Olhei
para trás e vi o policial me encarando e colocando mais dois cartuchos na
escopeta. Pensei: Tô morto! Sei lá, na hora você não consegue mais
raciocinar. Passa tudo pela sua cabeça. Só lembro que me joguei no chão e
gritei para ele não atirar mais. Ele (policial) foi covarde. Com a arma
apontada para minha cabeça, se aproximou e me deu um chute forte nas
costelas. Só então desistiu de mim e saiu correndo atrás dos outros".
(J.A.S, 48, que pediu para não ser identificado por medo de represálias)

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Presos da fazenda Figueira:
Almir Gonçalves Machado
Gerson Eduardo Locatelli
Inácio Vorpagel
José Alexandre
José Parmejani
Olair Ramos Cordeiro
Sabino Romero Lopez
Valmir Andrade Fagundes
Verci Soares de Camargo
Vilmar Alves Sobolesk
Gilson dos Santos
Arcídio Dias Santos
Claudinei Norberto dos Santos
Vladimir Moioli
José Correia Gomes
Arival Kailer
Darci de Conto
Eduardo Guedes
Manoel Gonçalves Vicente
Paulo Triches (78 anos)
João Pedro dos Santos
Alcides Dias Fausto
José Darci da Costa Silveira
Valmir Pedro de Souza
Lindolfo Barcelos
Liciel Laurindo
Gelson Luiz de Conto
Gilmar Golumbiski
Plínio Telvino Kaappes
Antônio Kessler
Valdair Roque
Presos na fazenda Santa Filomena
Ademir Rodrigues
Nelson Amarante
Paulo Camargo
Jocemar Cittadin
Evaldo Martins
Adão Luis Pinto
Ironi Rodrigues
Mário Ruth Schmidt
Ismael Tomás da Silva
Francisco Conrado

FAVOR ENVIAR CARTAS PARA:
-- Governor Jaime Lerner: scgg@pr.gov.pr, fax: 001-55-41-2530826

-- Minister of Justice, Mr. Jose Carlos Dias: acs@mj.gov.br, fax:
011-55-61-3211565

-- President Fernando Henrique Cardoso: pr@planalto.gov.br, fax:
011-55-61-3222314





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