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(pt) (EZLN) várias cartas que não se explicam por si só

From Emilio Gennari <emiliogennari@osite.com.br>
Date Wed, 1 Mar 2000 07:31:12 -0500


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      A - I N F O S  N E W S  S E R V I C E
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EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL. MÉXICO.


 Fevereiro de 2000.

 À IMPRENSA NACIONAL E INTERNACIONAL


 Damas e Cavalheiros:


 Seguem várias cartas que não se explicam por si só e que eu não entendo explicar aqui.

 Toda vez que Zedillo vem para Chiapas, o exército aumenta os patrulhamentos aéreos e terrestres. É lógico, já que este
senhor não é e nem será bem-vindo a estas terras. No dia 20 de fevereiro, desfrutamos de um intenso ir e vir de aviões,
helicópteros, tanques, caminhões e tropas em toda aquela que o cinzento filhote de baleia de Rabasa chama de “zona do
conflito”. Pensávamos que se tratasse de outra visita conjugal de Zedillo ao Bolachas pra Cachorro, mas não era.  O que
aconteceu é que neste dia foi Labastida e não Zedillo quem chegou para repetir os cinzas que o caracterizam.

 Uma dúvida: a mobilização dos federais, é porque já consideram Labastida como seu “chefe supremo”? É porque Labastida é
o candidato oficial? Ou é porque os militares não achavam onde esconder-se para não ouvir os discursos de uma campanha
que anda como os aviões da Força Aérea Mexicana sobre as comunidades indígenas, ou seja, rente ao chão?

 Valeu. Saúde e que viva para sempre a bandeira na qual a águia devora a serpente neoliberal (pois, caso tenham se
esquecido, o dia 24 de fevereiro é o dia da bandeira. De nada).


Das montanhas do Sudeste Mexicano

Subcomandante Insurgente Marcos

México, fevereiro de 2000.



EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL. MÉXICO.

Carta  6.b

 21 de fevereiro de 2000.

 Para: Don Fernando Benitez
 De: Subcomandante Insurgente Marcos

“Quando chega, a morte se designa como algo singular e não há maneira de escapar dela ... Eu tive um sonho muito
estranho ... como de diabos e animais que nunca tinha visto ... Mas não acredite que isso era mal ... Eram cavalos de
ferro que aravam os campos. (...) Em seguida, umas cubas grandes, de pedra, com uma água abundante no seu interior, para
regar uma infinidade de campos que você nem pode imaginar ... umas cubas tão grandes quanto morros, que me pareciam
feitas para que se banhassem os gigantes ... E via que a terra era de todos ... e que todos se olhavam contentes ...
dizia a mim mesmo: pois, onde estou? Será que este é o México? E era o México, era o México, era o México! Foi então
quando você me lembrou ...”
           “Zapata”
    Roteiro cinematográfico de José Revueltas.

 Don Fernando:

 Foi com uma dor amarga que soubemos do seu falecimento. Alguns dias atrás havia lhe escrito uma carta para felicitá-lo
pelo seu aniversário. Janeiro estava apenas entrando quando o Mar me chamou a atenção para a nota do jornal na qual o
felicitavam pelo seu aniversário e, juntos, lembramos daquela carta do seu aniversário do ano passado. Nesta que estou
escrevendo agora, eu poderia reiterar aquilo que as pessoas mais próximas (e as que não estão tão próximas) já deveriam
ter-lhe dito, mas não vou cansar-lhe a vista com coisas que você já sabia e conhecia. Inicialmente pensadas para
felicitá-lo, estas linhas agora são também para desejar-lhe boa viagem.
 Talvez me atreva a lembrar, a lembrar-lhe, que meus pais me ensinaram a ler (não falo de alfabetizar, e sim de ler) com
aquele “Sempre!” de Don José Pagés Llergo, e, concretamente, com aquele suplemento que você dirigiu e que se chamou “A
Cultura no México”. Aí aprendemos a ler Poniatowska, José Emilio Pacheco, o afiado Monsiváis e muitos outros. Aí
aprendemos. Em seguida, anos depois, encontramos suas páginas de “Os Índios no México”, e seus passos em outros
suplementos culturais. Eu não sei se ainda dá tempo, mas queria dizer-lhe “obrigado” por ter-nos ensinado a ler. Alguma
vez você se propôs de ensinar alguém a ler? Bom, mas é isso que acontece, às vezes alguém faz coisas que não havia se
proposto.
 Don Fernando, nós queríamos dar-lhe algo de presente, algo simples, mas muito nosso. Nós não temos muitas coisas, Don
Fernando. De fato, o que temos é muito pouco. A memória é a única coisa que temos em abundância, e com ela lhe enviamos
este presente que tem a virtude de não ocupar muito espaço na sua bagagem. Irá lhe servir para rir disso que alguns
chamam de “morte”.
 Para trazê-lo perto de nós, vai este relato com o qual procuramos lembrar também daqueles que hoje não estão conosco,
mas que estiveram antes e que tornaram possível que hoje nós estejamos aqui. Com ele, Don Fernando, você também agora é
nosso. Aqui vai:
NESSE DIA ...
Para Pedro, 6 anos depois, 26 anos depois.

 Me lembro desse dia. O sol não caminhava direito, andava de lado. Quer dizer, ele ia sim de cá pra lá, mas andava como
que de lado, assim, sem defrontar-se com aquilo que agora não me lembro como se chama, mas do qual o Sup nos falou uma
vez. O sol estava frio. Bom, tudo nesse dia estava frio. Bom, nem tudo. Nós estávamos quentes. É que o sangue, e seja lá
o que for que temos dentro do corpo, estava com calor. Não me lembro o que é que disse o Sup: “o zênite” ou algo assim,
ou seja quando o sol chega até o ponto mais alto. Mas nesse dia, não. Melhor, ele ia pelas beiradas. Nós avançávamos do
mesmo jeito. Eu já estava morto, deitado de barriga pra cima via muito bem que o sol não estava caminhando direito e que
estava andando de lado. Nesse dia já estávamos todos mortos, mas, seja como for, avançávamos. Por isso, o Sup escreveu
aquilo de “somos os mortos de sempre, morrendo outra vez, mas agora para viver”. Quando foi mesmo que morremos todos?
Para dizer a verdade não me lembro, mas nesse dia em que o sol ia caminhando de ladinho já estávamos todos mortos. Todos
e todas, porque havia também mulheres. Acho que é por isso que alguém não tem medo de morrer, porque, por si só, já está
morto. Na manhã desse dia era um corre-corre de gente. Não sei se é porque começou a guerra ou porque viram tanto morto
avançando, caminhando como sempre, sem rosto, sem nome. Bom, de início as pessoas corriam, mas, em seguida, já não
corriam. Logo em seguida paravam e se aproximavam para ouvir o que dizíamos. Que grande acontecimento! Vi que eu estava
vivo. Feito bobo ia me aproximar para ouvir o que dizia um morto! Como se pensasse que os mortos não têm nada a dizer.
Estão mortos, pois. Como se o trabalho dos mortos fosse de andar por aí assustando e não falando. Lembro que na minha
terra se dizia que os mortos ainda caminham, é porque têm alguma pendenga e por isso não ficam quietos. Na minha terra
se dizia assim. Acho que a minha terra se chama Michoacán, mas não me lembro muito bem. Tampouco me lembro bem disso,
mas acho que me chamo Pedro ou Manuel ou não sei, acho que não importa como se chama um morto, porque já está morto.
Talvez tem importância como alguém se chama quando ele está vivo, mas quando já está morto não tem pra que.
 Bom, o caso é que, depois do corre-corre, toda esta gente ia se aproximando para ver o que lhe dizíamos, nós todos, os
mortos que éramos. Então começamos a falar, assim como nós mortos falamos. Ou seja, conversando com calma, assim, sem
muito alvoroço, como se alguém estivesse conversando com outro sobre alguma coisa e este alguém não estivesse morto e
sim vivo. Não, tampouco não me lembro das palavras que falamos. Bom, um pouco sim. Tinha alguma coisa a ver com isso de
que estamos mortos e em guerra.
 Havíamos tomado a cidade durante a madrugada. Ao meio-dia já estávamos preparando tudo para ir pra outra. Ao meio-dia
eu já estava deitado, mas vi claramente isso de que o sol não andava direito e vi que fazia frio. Vi mas não senti,
porque os mortos não sentem, mas vêem. Vi que fazia frio porque o sol estava como que apagado. Muito pálido, como se
tivesse frio. Todos andavam de um lado pra outro. Eu não, eu fiquei deitado de barriga pra cima, olhando para o sol e
tratando de lembrar como é que o Sup havia dito que se diz quando o sol está a pino, quando já acabou de subir e começa
a deixar-se cair pra aquele lado. É como se o sol começa a ficar aflito, caminha e se esconde por trás daquela encosta.
Já nem me dei conta quando o sol foi se esconder. Do jeito que eu estava eu não podia virar a cabeça, podia só olhar pra
cima e, sem me virar, para o pouco que conseguia ver de um e de outro lado. Por isso, vi que o sol não caminhava
direito, mas que andava de lado, como se estivesse aflito, como se estivesse com medo de defrontar-se com aquilo que
agora não me lembro como o Sup disse que se chama, mas que, talvez, logo, logo, vou me lembrar.
 Acabei de lembrar agorinha mesmo porque a pedra ficou um pouco rachada e nela se produziu uma brecha parecida com a
ferida de uma faca, e então pude ver o céu e o sol caminhando outra vez de lado, como naquele dia. Não pude ver outra
coisa. Deitado como estou, consigo ver apenas o céu. Não têm muitas nuvens e o sol está pálido, ou seja, está fazendo
frio. E então me lembrei daquele dia quando os mortos que somos começamos esta guerra para falar. Sim, para falar. Por
que outra razão os mortos fariam uma guerra?
 Lhe dizia que por esta brecha se consegue ver o céu. Por ele passam helicópteros e aviões. Vão e vêm diariamente, às
vezes até de noite. Eles não sabem disso, mas eu vejo eles, os vejo e os vigio. Também começo a rir. Sim, porque, no fim
das contas, estes aviões e helicópteros vêm pra cá porque têm medo de nós. Sim, já sei que, por si só, os mortos
assustam, mas aquilo do qual estes aviões e helicópteros têm medo é de que nós, os mortos que somos, nos colocamos de
novo a caminhar. E eu não sei o porquê de tanto alvoroço, se não nos poderão fazer nada porque já estamos mortos. Mesmo
assim, que nos matem. Talvez é porque querem dar-se conta e avisar a tempo aquele que os manda. Não sei. Mas sei, sim,
que o medo deixa rastros e o cheiro do medo do poderoso é assim como de máquina, como de gasolina, óleo, metal, pólvora,
barulho e ... e ... e de medo. Sim, o medo cheira a medo e a medo cheiram estes aviões e estes helicópteros. O ar que
vem de cima cheira a medo. O debaixo não. O ar que vem debaixo deixa um rastro gostoso, como de coisas que mudam, é como
se tudo melhora e se faz melhor. A esperança, a isso cheira o ar debaixo. Nós somos os debaixo. Nós e muitos como nós.
Sim, pois aí está a questão: neste país os mortos cheiram a esperança.
 Através da brecha eu vejo e ouço tudo isso. Penso, e meus vizinhos concordam (sei disso porque eles me disseram), que
não está certo que o sol caminhe de lado e que devemos endireitá-lo. Pois isso de caminhar assim, de lado, tudo pálido e
friorento não dá. O trabalho do sol é de dar calor, não de ter frio.
 E me escolhem, pois para eles eu faço até o analista político. Veja você, eu digo que o problema deste país é que ele
só tem contradições. Pois aí está que carrega um sol frio e as pessoas vivas vêem e deixam fazer como se estivessem
mortas, o juiz é o criminoso e a vítima está na prisão, o mentiroso é o governo e a verdade é perseguida como doença, os
estudantes estão presos e os ladrões estão soltos, o ignorante dá aula e o sábio é ignorado, quem não faz nada tem
riquezas e quem trabalha nada tem, a minoria manda e a maioria obedece, quem tem muito vai ter mais ainda e quem tem
pouco não tem nada, premia-se o mau e castiga-se o bom.
 Não só isso, além do mais, por aqui os mortos falam, caminham e se dedicam às suas coisas singulares como essa de
tentar endireitar um sol que tem frio e, parem de olhá-lo, anda de lado sem chegar naquele ponto que não me lembro como
se chama, mas que o Sup nos disse uma vez. Acho que um dia vou me lembrar.

- * -

 Bom, Don Fernando, pois que faça muitos mais e mais felizes aniversários. Receba um abraço de todas e todos nós, e um
especial deste anônimo discípulo da janela que você foi e é na cultura do México. Esteja bem e não se esqueça de nós.
Terá sempre um cantinho pra você na nossa memória.
 Valeu. Saúde e um dia as coisas andarão direito, pode ter certeza, os mortos as endireitarão.

Das montanhas do Sudeste Mexicano

Subcomandante Insurgente Marcos

México, fevereiro de 2000.
EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL. MÉXICO.

Carta 6.c

 Fevereiro de 2000.

 Para: Don Pablo González Casanova.
 De: Subcomandante Insurgente Marcos.

“Eu, que tenho uma juventude cheia de vozes,
de relâmpagos e artérias vivas,
que deitado nos meus músculos, atento a como corre
e chora o meu sangue,
a como se amontoam as minhas angústias
como mares amargos
ou como espessas pedras de desvelo,
ouço que se juntam todos os gritos
qual um bosque de estreitos corações apertados;
ouço o que dizemos ainda hoje,
tudo aquilo que ainda diremos,
na ponta dos pés, sobre os nossos graves latidos,
pela boca das árvores, pela boca da terra.

   José Revueltas. Canto Irrevocable.

 Don Pablo:

 Todos e todas nós o saudamos. Não só por sua valente atitude em dias recentes, mas também por ela. A firme distância
que você manteve diante da atitude violenta e autoritária daqueles que estão a frente do governo e da UNAM tem muito
valor, sobretudo nestes tempos em que a coerência é um sarcasmo e a dignidade um mal-entendido.
 Saiba que nos enche de orgulho o ter ficado perto de você. O seu hoje nada mais é a não ser a confirmação do que tem
sido a sua vida. Mesmo antes do tempo em que você se desdobrou como membro da Comissão Nacional de Intermediação, suas
palavras nos ajudaram a entender esta dor que chamamos “México”. Já na CONAI, ao lado destes grandes homens e mulheres
que a integravam, seu compromisso na busca de uma solução pacífica, justa e digna para a guerra era firme e por tempo
integral. Li por aí que o secretário de governo e hoje candidato oficial à presidência, Francisco Labastida Ochoa, se
queixou dizendo que a CONAI estava “pendendo” num dos lados. Se os “lados” eram a guerra e a paz, é óbvio que aqueles
que integravam a CONAI estavam “pendendo” para o lado da paz. Tanto o bispo Samuel Ruiz Garcia, como Dona Concepción
Calvillo Viuda de Nava, os poetas Oscar Oliva e Juan Bañuelos, e você, se desdobraram para alcançar a paz no sudeste
mexicano da única forma pela qual é possível alcançá-la: com o respeito, com a justiça, com a dignidade, com a verdade.
É claro que o senhor Labastida terá que enfrentar muitos mexicanos que, como você, estão “pendendo” para o lado das
soluções pacíficas e são contra o uso da violência.
 Sua explícita e contundente violação do uso da violência para enfrentar as demandas do movimento estudantil da UNAM, só
é a conseqüência lógica de quem é o que é o tempo todo. Temos certeza de que seu exemplo será seguido por outros e
outras intelectuais que, a seu modo e com suas próprias formas, farão saber a quem usa a violência como argumento de
governo que não o fará impunemente; e aos estudantes que hoje estão na prisão ou são perseguidos, que quem sofre uma
injustiça já não está sozinho. Uns e outros terão de ouvir nossas vozes e nossos passos que, “pela boca das árvores,
pela boca da terra”, dizem e dirão: liberdade e diálogo.
 Hoje em dia, apesar dos meios de comunicação eletrônica, se levanta uma onda de indignação popular para exigir a
liberdade dos estudantes universitários presos e a retomada do diálogo. Liderado pelos valentes pais de família, este
movimento incorpora o melhor das organizações sociais, dos partidos políticos de esquerda, dos artistas e intelectuais,
dos religiosos e religiosas, das pessoas, dos universitários. Seu objetivo comum, aquele que os une, é a exigência de
justiça. E esta, a justiça, não pode ser feita enquanto um único universitário permanecer atrás das grades. O melhor da
esquerda partidária não só entendeu isso perfeitamente, como é um dos principais impulsionadores.
 No sentido oposto deste sentimento que se traduz em mobilização, os meios de comunicação eletrônica se lambuzam com os
recursos a eles destinados pelos partidos políticos para a propaganda das campanhas eleitorais, e acreditam ter a
autoridade moral e a legitimidade para converter-se, simultaneamente, em fiscal, juiz, jurado e carrasco de todo aquele
que não tem um horário pago em sua programação. Don Pablo, você sofreu isso em sua própria pele e milhões de mexicanos o
sofrem em seus próprios olhos e ouvidos. No limiar do século XXI, a televisão aplaude a dupla imagem do México
“democrático” atual: uma universidade cheia de militares e um presídio cheio de estudantes (a intensidade da vida
democrática de um país se mede pela quantidade de spots publicitários, não pelo número de presos políticos). No país da
televisão, a Carta Magna não é a Constituição, e sim a grade da programação (faturem a cacofonia no horário triplo A) e
não há conselheiros do IFE mais efetivos do que as direções dos noticiários.
 Seja como for, fora do horário das telenovelas, o povo (esse que não conta se não tiver um assessor de propaganda e
outro de mercadotecnia) se mexeu para protestar contra a repressão, assim como você, Don Pablo. De acordo com aquilo que
pudemos ver na imprensa escrita, a marcha do dia 09 de fevereiro foi a maior dos últimos tempos. O clamor era um só:
liberdade para os presos políticos. Há 6 anos, em 1994 e num 12 de janeiro, teve uma grande mobilização parecida com
essa.  Assim como hoje ela acontece por causa do movimento universitário e ontem pelo levante zapatista, o povo toma as
ruas para fazer-se ouvir.
 Então, naquele janeiro de sangue e pólvora, nós tivemos que decidir como devíamos “ler” esta grande mobilização.
Podíamos ter “lido” ela como uma manifestação de apoio à nossa guerra, como um aval ao caminho da luta armada que
havíamos escolhido; ou podíamos ter lido ela como uma mobilização que apoiava não o nosso método (a guerra) e sim nossas
reivindicações, e que se manifestava contra a repressão governamental.
 Nós estávamos isolados, voltando para as montanhas, carregando nossos mortos e feridos, preparando o próximo combate.
Assim, longe, muito longe, e nessas condições, tivemos que escolher. E escolhemos “ler” que esse povo que saiu às ruas
estava contra a injustiça, contra o autoritarismo, contra o racismo, contra a guerra, e estava a favor do diálogo, da
paz, da justiça, da solução pacífica para as nossas demandas. Foi isso que lemos e isso marcou os nossos próximos
passos.
 Hoje, o movimento estudantil universitário (e o CGH) enfrentam uma situação parecida. Aqueles que o integram podem
 “ler” a mobilização do dia 09 de fevereiro como uma manifestação de apoio à greve, ou como uma exigência de justiça
(libertando os presos) e de diálogo. Não é a mesma coisa.
 A depender da “leitura” que for escolher, o movimento estudantil universitário terá que decidir seus próximos passos.
Escolherão e o farão bem. Não estão isolados e têm a inteligência e os recursos para fazer uma leitura correta.
 Nós? Como sempre Don Pablo: a todos e todas os e as que integram o movimento estudantil universitário, a seus pais e
mães, a seus professores, àqueles que os apoiam e estão perto deles, os queremos, os admiramos, vão ganhar.
 É por tudo isso que hoje, Don Pablo, o cumprimentamos. A você e a todos e todas que, como você, têm manifestado seu
repúdio à entrada dos militares disfarçados de policiais (“paramilitares” em sentido estrito) no campus universitário.
 Sabemos que sua voz e seu passo se unirão também aos de todos nós que reivindicamos o que é urgente e necessário: a
libertação de todos os universitários presos.
 Valeu. Saúde e que nunca renunciemos à esperança.

Das montanhas do Sudeste Mexicano

Subcomandante Insurgente Marcos

México, fevereiro de 2000.

P.S. Li por aí que os estudantes presos estão pedindo que lhes mandem livros. Mandem a eles este cujo título é “A
Democracia no México”. Serve tanto hoje como ontem, e é desses livros que produzem dores férteis.

















EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL. MÉXICO.

Carta 6.d


 Fevereiro de 2000.

 Para: René Villanueva
 De: Subcomandante Insurgente Marcos.


 Irmão René:

 Por aqui ficamos sabendo que você está doente. Nestas terras, quando alguém tem um parente (porque você é um parente de
todos nós zapatistas) que está doente, temos o costume de fazer com que alguém lhe ministre todos os remédios possíveis
(e os impossíveis também) para que fique curado. Como estar doente é algo comum e freqüente nestas montanhas, por todos
os lados há um vaivém de receitas que abundam em xaropes, chás, poções, comprimidos, vapores e, horror!, injeções
(Lucha, irmã maior de todos nós, domina um variado e verdadeiro repertório medicinal que faria tremer os monopólios
farmacêuticos - de nada, - Lucha, não se esqueça de pagar quando for patentear tudo isso).

Como você é nosso irmão, não podemos dar-lhe qualquer coisa. Muito menos se esta “coisa” é uma injeção, este sofisticado
instrumento de tortura que, apesar de estarmos prestes a entrar no terceiro milênio, não tem sido proibido por nenhuma
organização mundial de nenhum tipo. Por aqui, por exemplo, Olivio propôs que uma palavra de ordem para a marcha das
mulheres zapatistas do próximo dia 08 de março seja “Chocolates sim, injeções não!”. Eu falei para ele que não rimava, e
ele me respondeu que as injeções não rimam com nada mesmo e, ao contrário, “chocolates” rima com “brinquedos” (e lá vai
Olivio tentar convencer o Mar para que coloque sua palavra de ordem na marcha das zapatistas).

 Não senhor, não te podemos dar injeções. Claro que tampouco podemos te dar os chocolates. Não só porque Olivio os
devorou, mas também porque com certeza chegariam todos derretidos. Por isso, consultamos nosso livro especial de
medicina que se chama “Remedios y Recuartos” e encontramos algo que, ainda que não te cure, com certeza não vai te
deixar pior (o que nestes tempos de “medicina moderna” já é uma vantagem): um abraço! Todos e todas nós te mandamos um
abraço. Pode ser aplicado a seu critério, mas não abuse senão vai acabar causando dependência e abraços como aquele que
te mandamos têm muito poucos.

 Valeu. Não seja bobo, tome o remédio sem fazer caretas e fique curado, porque sua ausência e a de Beatriz no “Correo
Ilustrado” tem feito despencar o “rating” dessa seção (é isso mesmo, já fiz uma pesquisa muuuuuuuito científica).

 Valeu. Saúde e não esqueça que os abraços devem ser como os olhares: amplos e limpos.


Das montanhas do Sudeste Mexicano

Subcomandante Insurgente Marcos

México, fevereiro de 2000.






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