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(pt) (EZLN) Carta 6.a - 5.56 mm. NATO - O calibre da mentira

From Emilio Gennari <emiliogennari@osite.com.br>
Date Tue, 29 Feb 2000 17:17:27 -0500


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05 de janeiro de 2000

O tempo resvala das mãos

sem tempo dos homens.

Enche sua história, a contradiz, a confunde ou a liberta.

José Revueltas

Para: Juan Gelman, América Latina

De: SupMarcos, México


Don Gelman:

Faz dias que esta carta anda coçando entre asmãos. Foi levada por um ou outro vento, mas não a levaram muito longe.
Parece que hoje, finalmente, ela se deixa escrever e, assim,como sua luta obstinada, com raiva e digna teimosia, começam
a sair as letras, as palavras, os sentimentos. Talvez se lembre: você me entrevistou naqueles tempos do Encontro
Intercontinental e me fez falarde poesias e outros anacronismos. Eu o conhecei através de seus poemas, num desses livros
que costumávamos carregar nos primeiros solidários anos da guerrilha que, em seguida, o mundo conheceria como Exército
Zapatista de Libertação Nacional.

Sei muito bem que o título soará estranho para muitos, mas não para você, provado como foi e está sendo em seu longo ir
e vir levando estas lembranças e memórias que alguns chamam "notícias". Seja como for, parece excêntrico colocar o
tamanho de uma bala como título de uma carta: "5.56 mm. NATO". Assim, permita-me discorrer um pouco sobre o tema, afinal
de contas sou apenas um soldado, um soldado "muito diferente", mas, no fim das contas, um soldado.

"5.56 mm. NATO" é a classificação militar para referir-se à bala que, entre outros, é usada pelo fuzil M-16 (e suas
variantes A-1 e A-2), pelo AR-15 - ambos de fabricação norte-americana - pelo Galil israelense, a Steyr Aug austríaca e
outras armas. A classificação "comercial" é "calibre 223". Sim, é a mesma bala, mas uma é para uso militar, muito
freqüente entre os exércitos da América Latina, e a outra é para as "caçadas".

A história desta bala é a história de uma mentira. Quando as grandes potências militares caíram no despropósito de
humanizar a guerra (antes nas Convenções de Haia, depois na de Genebra), foi acordada a proibição das balas expansivas,
ou "dum-dum". O raciocínio foi impecável: numa guerra, o objetivo é provocar baixas ao inimigo, e por baixas se entendem
mortos, feridos, desaparecidos e prisioneiros.

Logo, para "humanizar" a guerra o que deve ser feito é reduzir o número de mortos e feridos. Por isso, se pronunciaram
pelo uso de "balas duras", que apenas perfuram a carne humana mas não levam à morte quando não atingem nenhum órgão
vital, e se a provocam não causam "dor excessiva". Daí que se proibiram as balas expansivas que, ao perfurarem o corpo
se abrem ou se fragmentam, ou seja, "se expandem", e o estrago que provocam é maior que o das balas simples, pois não
afetam só o lugar por onde penetram, e sim uma área maior.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, em suas iniciais em inglês), encabeçada pelos Estados Unidos, adotou
a bala calibre 7.62 mm., que, desde então, ficou conhecida como "7.62 NATO". O Pacto de Varsóvia, encabeçado pela então
URSS, adotou o mesmo calibre, 7.62 mm., mascom o cartucho mais curto que o da 7.62 NATO (51 mm. o da NATO e 39 mm. o
soviético). A arma básica de infantaria utilizada pelo Pacto de Varsóvia foi o fuzil automático Kalashnikov (AK) cujo
último modelo, o AK-47, prolifera no "mercado negro". Por sua vez, a OTAN (e os países periféricos) adotou diversas
armas para o calibre 7.62 mm. x 51 mm., ou 7.62 NATO. Entre eles esteve o Fuzil Automático Leve (FAL), de fabricação
belga, e, mais recentemente, o G-3, de patente alemã. O Exército mexicano trocou o FAL pelo G-3 e chegou a fabricá-lo
depois de adquirir os direitos.

Mas, no auge da "Terceira Guerra Mundial "(como a chamamos nós zapatistas) ou "guerra fria" (como é conhecida na
história atual), os norte-americanos procuraram a forma de tornarem suas armas mais letais, ao mesmo tempo em que
burlavam os tratados que eles mesmos haviam assinado. Foi assim que, entre os anos de 1957-1959 e a "pedido" do Comando
da Armada Continental (EUA), nasceu a bala calibre 5.56 mm. (regularizada em 1964). Mais fina que a 7.62 mm e muito mais
rápida, a 5.56 mm. não apresentava vantagens só na hora de carregá-la (um soldado de infantaria podialevar até o dobro
de munições de 5.56 mm. do que de7.62 mm., mas com o mesmo peso e em menor espaço), mas significava também grandes
lucros para as empresas bélicas norte-americanas (tão "inocentes" como a General Motors, a General Eletric, a Ford,
etc.), porque sua aprovação significava substituir totalmente o armamento de infantaria dos Estados Unidos (que naqueles
tempos era de carabinas M-1 e M-2, o velho Garand e a Thompson), ou seja, mais vendas.

Una nova bala significava uma nova arma, e toda a indústria bélica se concentrou em demonstrar as "qualidades" do novo
calibre. Para convencer o Pentágono apresentaram a melhor "característica" da bala calibre 5.56 mm.: tinha uma "ponta
fraca". O que é que isso significa? Bom, que uma bala como a 5.56 mm., com ponta fraca, se "dobra" ao entrar em contato
com acarne e começa a girar de forma errática no interior do corpo. Resultado? Mais terrível que a expansiva, pois, se o
orifício de entrada da bala era, de fato, de 5.56 mm., o de saída (caso isso acontecesse) era até 10 vezes maior. Quando
a bala não saía, ela destruía ossos, músculos, órgãos. Conclusão: sem usar balas expansivas, o exército norte-americano
começou a utilizar uma bala mais letal, com maior capacidade de matar e que deixava com menores chances de vida o alvo
humano que a recebia (além de aumentar de forma considerável o sofrimento do ferido).

Estou falando do auge da "guerra fria". Naqueles dias, os Estados Unidos imaginavam o futuro cenário da guerra mundial
em terras européias e tendo como inimigos os exércitos do Pacto de Varsóvia. O futuro "teatro de operações" estava
perfeitamente localizado numa longa linha que separava a EuropaOcidental da Europa Oriental: grandes cidades, amplas e
rápidas vias de comunicação, muitos espaços abertos, etc. De acordo com esta visão, a lógica do Pacto de Varsóviaera sim
ples: lançar ondas e mais ondas de soldados e blindados até vencer a resistência inimiga. Por isso, os exércitos dos
dois pactos (de Varsóvia e da OTAN) substituíram suasarmas básicas de infantaria por fuzis de assalto (grande volume de
fogo a um curto alcance, menos de 500 metros). A Guerra da Coréia havia demonstrado os limites do M-14 (versão
semi-automática do Garand M-1). Foi assim que nasceram os protótipos do que, em seguida, seria chamado de M-16,
fabricado pela Colt em Connecticut, Estados Unidos.

Mas tanto a bala como o fuzil de assalto precisavam ser testados "em condições reais". Foi assim que o governo
norte-americano decidiu que seu quintal incluía o sudeste asiático e interveio militarmente no Vietnã. Com os novos M-16
e sua reluzente calibre 5.56 mm., as tropas dos Estados Unidos invadiram o Vietnã, e os combates provaram que o M-16 e a
calibre 5.56 mm. não eram tão bons como diziam. A bala é extremamente veloz e leve, assim que qualquer toque contra uma
folha ou um graveto mudava radicalmente sua trajetória (e, como era de se esperar, na selva asiática abundavam as folhas
e os gravetos); além do mais, ofuzil era muito afetado pela umidade, um mecanismo pouco eficiente do ferrolho provocava
seu entupimento, com a conseqüente falha no disparo

Para os soldados norte-americanos não foi nada agradável ver chegar uma onda de vietcongs (como chamavam os
guerrilheiros vietnamitas), apontar contra eles seus M-16, disparar e ouvir só um "clic". Para o Pentágono não causava
maiores preocupações que alguns de seus rapazes perdessem a vida e os combates nas selvas vietnamitas. Afinal, nem a
arma e nem a bala tinhamcomo cenário esta guerra, e sim a guerra futura em território europeu e contra o Pacto de
Varsóvia. O fuzil foi sendo modificado ao longo da guerra no Vietnã: reforçou-se a antecâmara para resistir à corrosão
da pólvora, instalou-se uma alavanca adicional ao ferrolho para garantir seu fechamento e ajustou-se a mola de
recuperação para reduzir a cadênciade tiro. Assim nasceram o M-16 A-1 e o M-16 A-2. Com a calibre 5.56 mm. e o fuzil
M-16 como arma básica de sua infantaria, o exército dos Estados Unidos já estava pronto para uma nova guerra mundial.

Paralelamente ao M-16, foi desenvolvido o AR-15 (versão semi-automática daquele), que seria logo exportado paraos países
da América Latina, mais concretamente para suas polícias e seus esquadrões de contra-insurreição.

No México, o AR-15 é a arma predileta dos policiais da Segurança Pública estadual. Especializadosem assassinar
camponeses e indígenas, a polícia de Segurança Pública de Chiapas experimentava alegremente os efeitos da calibre 5.56
mm. nos corpos morenos de suas vítimas. Quando descemos das montanhas, no dia 1º de janeiro de 1994, nos deparamos com
muitos AR-15 que os "valorosos" policiais abandonavam em sua grandiosafuga; mas essa é outra história.

Quando o senhor Zedillo toma o poder no México, depois do assassinato de seu predecessor (Luis Donaldo Colosio), e
fracassa a sua tentativa militar de fevereiro de 1995, ele e o Exército federal decidem "ativar" grupos paramilitares
para combater o EZLN "sem o desgaste na opinião pública causado pela atuação direta das tropas federais" ("Memorando
interno da presidência à SEDENA", documento classificado, março-abril de 1995). Os "detalhes" foram resolvidos pelo
"especialista" em contra-insurgência, o general Mario Renán Castillo, sob asupervisão de seu superior, o general Enrique
Cervantes Aguirre, pelo então "governador" de Chiapas (e hoje agregado da embaixada do México em Washington), Ruiz
Ferro, e o Partido Revolucionário Institucional (PRI). O acordo era este: o Exército entraria com a instrução e a
direção estratégica e tática, o PRI colocaria a "tropa" e o governo estadual daria o armamento e os equipamentos. Assim
que, logo, os novos grupos paramilitares em Chiapas se viram dotados de fuzis de assalto AR-15 e AK-47 (conseguidos no
"mercado negro" patrocinado pelos militares).

Acteal é a palavra que define cabalmente a estratégia governamental em Chiapas. as balas que destroçaramos 45 homens,
mulheres e crianças nessa comunidade, no dia 22 de dezembro de 1997, eram, em sua maioria calibre 5.56 mm., algumas 7.62
mm.e um ou outro 22 para fuzil de cano longo. As três criançasque, alguns meses atrás, foram para os Estados Unidos para
serem atendidas por cirurgiões especializados, apresentam os efeitos do "calibre da mentira": o 5.56mm.

Hoje, 05 de janeiro de 2000, 30 indígenas zapatistas do município de Chenalhó, Chiapas, sofreram uma emboscada por parte
de policiais da Segurança Públicas e de priistas. Foram atacados enquanto saíam para colher o seu café. Após horas de
tortura, o governo libertou 27 deles e deixou presos os outros três, acusados, diz ele, de provocar a matançade Acteal.
O papel ridículo do governo não se limita ao fato, conhecido por todos, de que foi Zedillo que provocou a matançado dia
22 de dezembro de 1997, e tampouco ao despropósito de querer responsabilizar os zapatistas, que são apenas vítimas dos
paramilitares. Não, vai mais além, porque a detenção se dá no contexto de uma suposta iniciativa de paz do governo
federal que oferece, entre outras coisas, a libertação dos zapatistas presos. E não só não os liberta, como aumenta o
seu número com os pretextos mais ridículos. Uma mentira faz com que hoje se somem mais três indígenas às centenas de
zapatistas presos pelo simples e imperdoável fato de serem isso mesmo: zapatistas.

Eu sei que a esta altura da carta você se pergunta porque ela tem você por destinatário. Bom, acontece quealguns meses
atrás li na revista "Proceso" que você derrubou um general argentino, coisa pouco freqüente, e que fez isso com palavras
(algo inaudito). A razão do seu empenho foi então ofuscada pelo escândalo do "affaire" Clinton-Lewinski (não sei se é
assim, o escrito "pornô" não é a minha especialidade). Mas agora, mais recentemente, ficou mundialmente conhecida a sua
campanha para encontrar seu neto(a). Agora, o mundointeiro sabe que seu filho e sua nora foram assassinados pela
ditadura militar argentina (talvez com uma bala calibre 5.56 mm.), e que o filho(a)de ambos foi vendido no "mercado
negro" das crianças que, além da tortura, parece ser a especialidade dos exércitos latino-americanos. E este negócio da
compra-venda dos filhos dos desaparecidos políticos vem tendo o mesmo efeito da 5.56 mm.: não só penetra ferindo, como
começa a girar lá dentrocausando mais e mais estragos. é como se o desaparecido deixasse em herança a seus filhos a sua
mesma condição. Ou seja, um crime sofrido pela vítima ... e por aqueles que seguem na sua descendência.

Vi a sua carta ao governo do Uruguai e li sua resposta à resposta desse governo (no "La Jornada"). Li ambas e entendi
porque havia caído aquele general argentino. Tenho certeza deque ele nunca imaginou que um dia teria que enfrentar um
poeta e, o que é pior, um poeta insensato. Porque você é isso mesmo,um poeta (ainda que, às vezes, se disfarce de
jornalista), e é insensato porque agora, nos dias de hoje, é assim que chamam aos que não se rendem e nem se conformam.

Enfim, o que queria dizer-lhe é que nós zapatistas o apoiamos, que desejamos que o ou a encontre, que seu neto ou neta
(que já deve ser uma homem ou uma mulher feita) merece saber que teve os pais que teve e a sua história. E, sobretudo,
merece saber que tem um avô que sempre o ou a procurou, que nunca se rendeu, que derrubou um general com algumas
palavras, que comoveu o mundo com sua causa e que o mate já não é tão amargo quando se toma com alguém que queremos, e
outras coisas que, com certeza, você vai querer que ela ou ele saiba.

E isso de calibre 5.56 mm., Acteal, paramilitares e sua luta vêm ao caso porque, agora que foi colocada a polêmica para
ver se o segundo milênio já terminou em 1999 ou se não terminará até que acabe o ano 2000, algo tem que ser dito.

E nós zapatistas dizemos que não, que nem o milênio e nem o século terminaram. Não acabarão até que haja justiça, vida e
liberdade. Não acabarão até que a justiça se cumpra, que se castiguem os verdadeiros culpados e que outro Acteal seja
assim impossível. Não acabarão até que você encontre seu netoou neta. Não, nem o século e nem o milênio podem dar-se por
encerrados com estas pendências. é uma vergonha paraa humanidade dizer que já entrou num novo milênio enquanto Acteal
continua pendente na memória e um poeta-avô procura seu neto desaparecido. Nada terminará enquanto os "calibres das
mentiras" deste século e deste milênio continuam dando voltas dentro de nós, destroçando-nos, matando-nos.

Por isso, don Gelman, esta carta era só para dizer-lhe que, na verdade, esperamos poder-lhe dizer um dia: Feliz Século
Novo! Feliz Novo Milênio!

Valeu. Saúde e que o tempo liberte, enfim, a nossa história.

Das montanhas do Sudeste Mexicano

Subcomandante Insurgente Marcos

México, janeiro de 2000.

P.S. ARMAMENTISTA. Obviamente, a arma que carrego é um fuzil AR-15, calibre 5.56 mm. O peguei emprestado de um policial
no dia 1º de janeiro de 1994. Claro, ele corria tanto que não cheguei a ouvir a sua resposta. Tenho ele aqui, ontem
servia para matar os indígenas, hoje serve para que não os matem, ou para que não seja impunemente.

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Tradução de Emilio Gennari.




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