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(pt) A crôncia do II Encontro Anericano pela humanidade e contra o neoliberalismo.

From projetoperiferia@ig.com.br
Date Sun, 27 Feb 2000 09:44:38 -0500


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      A - I N F O S  N E W S  S E R V I C E
            http://www.ainfos.ca/
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por Laia, Pere, Roberto e Sandra
(retirado do Boletim nº 16 do Projeto Periferia <http://www.geocities.com/projetoperiferia/16a.htm>)

Belém, 6 A 12 DE DEZ 99

"Da forma como as pessoas vivem e lutam por aqui não há dúvida que nascerá algo grande de tudo isso"
"Esta crônica e suas conclusões posteriores são fruto do trabalho coletivo de Laia, Pere, Roberto e Sandra,
participantes como observadores do Encontro, procedentes de distintos pontos da geografia catalã e oriundos de grupos ou
organizações de distintas tendências, se bem que todas antiautoritárias”.

Depois de entrar em contato com o comitê organizador do encontro em Salvador, nos dirigimos até Belém com a delegação da
Bahia. Devido a problemas técnicos durante a viagem, chegamos de madrugada, de tal forma que não pudemos assistir à
abertura do encontro. Nos destinaram um dos alojamentos que a Organização tinha preparado. Surpreendeu-nos ver que a
infraestrutura estava muito organizada e dispunha de muitos meios. Sem dúvida havia gente contratada exclusivamente para
dirigir tudo: grandes medidas de segurança, com guardas armados e rádios comunicadores entre si, assim como um rigoroso
controle das entradas e saídas do alojamento.
Terça, 7/12/1999
Na manhã seguinte nos conduziram até o recinto donde se realizaria todo o encontro, a Universidade Federal do Pará. Ali
entramos em contato com a comunidade anarquista, que se concentrava na porta para protestar pelo alto preço da
participação no encontro: 15 reais por pessoa, o que supõe 20% do salário mínimo (cerca de U.S. 60) brasileiro. Fato que
impedia a participação dos trabalhadores da cidade e dos moradores das favelas neste evento "pela humanidade".
Finalmente se consegue que a primeira jornada seja a portas abertas. Uma vez dentro, procuramos nos informar. Era
admirável o nível de estrutura existente. A municipalidade inteira parecia voltada para o encontro: ônibus urbanos
especialmente destinados à mobilidade dos participantes, todo o complexo universitário disposto para alojamento,
manutenção e como espaço para os debates, policiais locais vigiando as entradas, etc... O encontro é patrocinado,
monopolizado e organizado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), de talante social-democrata se bem que aglutina diversas
correntes comunistas. Este partido governa o estado do Pará assim como a cidade de Belém, de 1,5 milhões de habitantes.
O contraste entre as instalações e as favelas próximas é bem patente.
Confirmando nossas primeiras impressões, nos informaram que o ato de inauguração do encontro foi um "meeting" político
do PT, com interesses eleitorais e propagandísticos. O monopólio deste na organização e o conteúdo do encontro se fez
evidente. Por exemplo, em uma mesa de seis componentes quatro é do PT, ocupando os tempos de conversação. A comunidade
anarquista nos informa que três dias antes do início do encontro, já se haviam reunido ali para posicionar-se ao redor
dos temas a debater durante o mesmo e sacaram um manifesto intitulado "se os de baixo se movem, os de cima caem", no
qual criticam o dito monopólio e propõem às pessoas que se manifestem ante as diferentes mesas.
A delegação de São Paulo recebeu uma informação onde se assegurava a comida a um real, e uma vez ali, o preço resultou
em dobro. Houve uma negociação e se acabou conseguindo fazer cumprir o prometido. Há que se levar em conta que o esforço
econômico coletivo e individual pra assistir ao encontro foi muito grande, tanto que muita gente não pode chegar até
aqui.
Assistimos o primeiro debate: "poder local e luta contra o neoliberalismo". Desde o princípio tínhamos bem claro que
nossa participação neste encontro americano era de observação, aprendizado e solidariedade, nunca de ingerência. O
pretenso debate resultou em um meeting em tom populista do prefeito de Belém, o qual se declarava partidário da luta
libertária contra o neoliberalismo, mas sob um prisma puramente eleitoral.
Seu discurso, ridicularizado pelos anarquistas, monopolizou grande parte do tempo. De maneira demagógica, o prefeito
pretendeu confundir poder local com poder municipal, argumentando que defendia a organização do poder popular,
contradizendo-se em sua prática como mandatário. Em seguida foi a vez do Governador do Pará, também do PT, que em muitas
palavras não disse nada. Por fim os delegados do EZLN. Abraham e Lucia explicaram brevemente as causas do levante
zapatista, a criação dos Municípios Autônomos e os ataques do governo mexicano e estes, assim como a militarização que
sofre o estado de Chiapas. Terminam sua intervenção contando o ataque que o governo lançou contra sua comunidade. San
Andrés Sacamech'en de los Pobres e a posterior recuperação deste pelos zapatistas.
As intervenções do público foram limitadas a três minutos. Como se não bastasse, ocorreram suspeitos problemas de som
quando as primeiras intervenções lançavam críticas aos discursos dos líderes do PT, a divisão entre os participantes
pró-PT e seus detratores é cada vez mais aguda. Pela noite o coletivo anarquista realiza sua assembléia para extrai as
conclusões do dia e preparar a jornada seguinte. A esta reunião se agregaram outras pessoas representativas de outros
coletivos não anarquistas que também estavam desconformes com o rumo do encontro.
Percebe-se a organização e experiência na prática assembleária: respeitam-se os turnos de palavra, todo mundo participa
e escuta. Os pontos da ordem do dia são tratados com seriedade e rigor. A assembléia elege a três pessoas que se
encarregam de elaborar atas, anotar as intervenções e moderar o debate. O clima de respeito pelos companheiros se traduz
na moderação do tom de voz e no autocontrole da extensão de tempo de intervenções, para evitar protagonismos. O nível de
análises e discussão política é muito elevado.
Na assembléia surgem dois temas principais: por um lado a estruturação da participação anarquista no encontro, e por
outro lado a estratégia a seguir por todas as pessoas desconformes para dar um tom antiautoritário ao encontro e
recuperar o espaço que o PT apropriou. A reação dos anarquistas é exemplar ainda mais por serem maioria, mostrando uma
atitude aberta e receptiva assim como sua disposição em participar em tudo que se decide. Surgem duas posturas no
transcorrer do encontro: participar nele mudando a metodologia imposta pela Organização por outra acordada pelos
participantes que permitisse mais pluralismo e a participação direta d@s assistentes, ou realizar um encontro paralelo
entre as pessoas dissidentes. Finalmente se resolve assistir aos debates oficiais do dia seguinte para a partir de
dentro mudar a metodologia e poder expressar sua desconformidade ante as mesas, em vez de convidar os descontentes a
somar-se à assembléia marcada para as oito da tarde do dia seguinte.
Quarta, 8/12/1999
O dia começou com o debate sobre "terra, trabalho e meio ambiente". Antes de entrar nele, fruto da assembléia da noite
anterior, se começa por sacar o debate e questionar aspectos da metodologia do encontro, como o tempo das intervenções.
O PT lançou em votação a proposta de manter as intervenções de 20 minutos para os componentes e de 3 minutos para os
assistentes. Só se permitiu votar os participantes credenciados e a contagem de votos com as mãos levantadas foi
fraudulenta, mesmo assim o PT manteve esse sistema. Isto provocou uma espontânea rebelião de muitos dos participantes
que se somaram aos descontentes. O choque entre a tendência oficial pró-PT e a dissidente, foi inevitável e frontal,
chegando-se a esquentar o ambiente a ponto de que quase houve troca de tapas. Estes últimos resolveram abandonar o
recinto como forma de protesto com o que se adiantou espontaneamente a assembléia prevista para as oito da tarde.
Havia uma preocupação de que o encontro paralelo não reproduzisse os esquemas do oficial, ou seja, evitar que cada grupo
fique falando de si para si, mas que crie um verdadeiro espaço de intercambio de lutas e experiências. Mas os
acontecimentos andam por seu próprio pé. Saem muitas críticas mas também muitas propostas, mantendo-se o alto nível
político das discussões. Nota-se o esforço coletivo para positivar e encontrar uma estratégia de continuidade para o
Encontro. Essa assembléia significa o início do verdadeiro Encontro, donde as pessoas e coletivos começaram a
intercambiar, de maneira horizontal, idéias e experiências, assim como a tomar acordos sobre o funcionamento na
democracia direta. Estes foram participar durante toda a tarde nas mesas oficiais para expor as reivindicações da fração
dissidente e atrair os descontentes à dinâmica do encontro. Também criar pequenos grupos de trabalho que possibilitassem
a participação de todo mundo.
Subitamente e rompendo à dinâmica assembleária, apareceram duas pessoas que se apresentaram como delegados do EZLN. Sua
irrupção causou grande agitação já que um deles se plantou fisicamente no meio da assembléia para chamar a atenção de
todos, gritando típicas consignas zapatistas, assim como fazendo alusão a outras forças guerrilheiras que nada tinham a
ver com o EZLN, como a FARC, de quem se dizia também porta-voz. Essa personagem chamada Eduardo Velasco, aproveitando-se
do prestígio e do desconhecimento sobre o zapatismo conseguiu despertar o entusiasmo e a agitação dos assistentes,
detendo uma boa dinâmica que até então estava sendo desenvolvida na assembléia. Uma vez conseguido isso, deu início a um
discurso alarmista sobre a segurança da delegação zapatista, na qual se incluía e passou a apresentar-se como um mártir
da causa, para pedir posteriormente, que todas as pessoas se comprometessem a dedicar todos seus esforços em dar-lhes
proteção e segurança. Com este argumento convocou as pessoas ali reunidas para uma reunião às 4 da tarde em uma
assembléia extraordinária, cujo eixo central seria a sua segurança.
O clima de euforia despertado por ele, propiciou que as pessoas aderissem à idéia sem questioná-lo, desarticulando o
trabalho que a assembléia havia acordado para aquela tarde. Importante lembrar que Velasco se apresentou à assembléia
depois das duas da tarde, quando esta já havia desenvolvido muitas horas de debate. Isto explica porque depois de sua
intervenção a assembléia se dissolvera sem debater o sucedido.
Às quatro da tarde todo mundo se reuniu no lugar combinado. Meia hora depois, Velasco apareceu com um acompanhante, um
jovem do qual não podemos dar o nome com precisão, para comunicar que havia uma confusão geral sobre o lugar onde devia
celebrar-se a assembléia, e que por razões de segurança havia sido transferida para outro lugar. Isto gerou as primeiras
críticas abertas e posturas de desconfiança sobre a suposta delegação zapatista (o jovem se colocava como delegado do
EZLN e não da FZLN). Este, frente às perguntas comprometedoras sobre sua identidade e legitimidade, acabou em um
discurso sobre segurança, e ao tomar a palavra outro companheiro, aproveitou o momento para sair dali sem despedir-se. A
falta de dados sobre esta delegação e o prestígio do zapatismo, resultou que toda o período da tarde fosse desperdiçado
com polêmicas e confrontos que só impediram a realização do trabalho programado.
Na assembléia noturna o próprio Velasco se apresentou sem variar seu discurso sobre segurança e ameaçando que se todos
os assistentes não estivessem credenciados, a delegação zapatista abandonaria o encontro. Quando muitas pessoas lhe
replicaram que as credenciais estavam sendo vendidas e que não podiam pagá-las, Velasco, em tom de líder populista, se
comprometeu pessoalmente a conseguir credenciais gratuitas para todos, enfatizando que para ele deviam ser credenciados
através de uma lista que garantisse que essas pessoas estivessem participando do Encontro (importante frisar que a todo
o momento estamos nos referindo aos participantes dissidentes do encontro oficial). Finalmente, as pessoas não
credenciadas concordaram em apresentar seus nomes em prol da segurança dos zapatistas. Com isso, Edu Velasco se retirou
(cabe destacar que no dia seguinte trouxe, como havia prometido, as credenciais, contudo, para surpresa de todos, estas
estavam branco, pelo que ninguém entendeu o porque da lista nem de seu discurso por segurança), e a assembléia pode
continuar a funcionar normalmente, criando-se um clima propício para preparar a jornada seguinte. Com isso chegaram dois
representantes do encontro oficial, que estiveram reunidos até as três da madrugada. Finalmente aceitaram parte das
propostas dos descontentes: a comida a um real, o tempo de intervenção nas mesas não seria superior a dez minutos para
todos e a possibilidade de criar espaços horizontais onde os participantes se reuniriam e se expressariam.
Quinta 9/12/99
Passamos o dia lendo jornais, o Diário do Pará dedica uma página inteira desprestigiando o papel dos anarquistas no
encontro. Os acusam de querer boicotá-lo mediante a criação de artifícios. Observa-se uma consonância entre essa versão
e a versão oficial. Também consultamos um dos exemplares do boletim diário publicado pela Organização, onde se reflete a
apropriação do encontro por parte do PT e o aproveitamento eleitoralista que pretendiam sacar deste. Em seu interior se
pode ver a foto do prefeito de Belém e do governador do Pará, ambos do PT, ao lado dos companheiros base de apoio do
EZLN, Abraham e Lucía, aos quais são atribuídos em letras garrafais o título de "Comandantes".
"A figura de Eduardo Velasco foi tristemente famosa no Encontro"
A mesa redonda da manhã inicia com o tema "500 anos de Resistência no Brasil e na América". O protagonismo recai sobre
as populações indígenas e no movimento de Resistência Negra. Participam várias tribos indígenas do Brasil, as bases de
apoio zapatistas, um religioso italiano partidário da teologia da libertação, um representante das organizações
indígenas do Canadá e um membro do movimento negro. Os representantes indígenas comentam seus problemas com o
Neoliberalismo e seus confrontos com o Estado. Todos são unânimes ao denunciar as guerras de baixa intensidade e o
extermínio que se leva a cabo contra eles. Um membro do movimento Hip-Hop, representante da Resistência Negra, fez duras
críticas à Organização do encontro, acusando-a de estar carregada de valores burgueses. Também bombardeou o PT, o qual
chamou de hipócrita pelo conteúdo e aplicação de sua política social, como por exemplo, nas favelas, e recordou que a
voz negra não foi nem silenciada nem esquecida durante os últimos 500 anos de História.
Das quatro mesas programadas para a tarde, assistimos a "Guerreiras Americanas, as mulheres afirmam seus direitos".
Pronunciou-se a fundação Rigoberta Menchú, a associação de mulheres Potyguar, e Eunice Guedes do Fórum das Mulheres, uma
delegada do centro de cultura proletária e outra representante do coletivo anarco-feminista Obirim-Onijá. Iniciou a
representante das mulheres Potyguar, que mostrou seu apoio à comunidade anarcopunk, à qual qualificou de indígenas
urbanos. Esta explicou o papel da mulher nas comunidades indígenas e os problemas que enfrentam. Mas a intervenção mais
destacada, e que praticamente ofuscou às demais, foi a da porta voz anarco-feminista, que dedicou suas palavras a todas
as mulheres que em qualquer rincão do mundo sofrem em silencio. Logo, com cinco companheiras, encenaram uma performance
em homenagem às mulheres do Afeganistão, seguido de uma crítica às relações de poder que se dão desde as mais básicas e
pessoais entre mulheres e homens, passando pelas que se dão nos distintos âmbitos da vida, até chegar às relações de
dominação que nos ligam às mais altas esferas como as instituições, entre elas o Estado e o sistema capitalista.
Recordou também que inclusive pessoas que militam em movimentos revolucionários, volta e meia reproduzem os esquemas do
sistema de dominação patriarcal. Sua intervenção comoveu e impressionou a tod@as @s assistentes, acima de suas
tendências partidárias.
Após essa intervenção, a representante do Centro de Cultura Proletária pontuou e completou o pouco que sua antecessora
havia deixado de mencionar em sua explanação. Estas duas intervenções foram fruto das distintas assembléias que as
mulheres anarquistas desenvolveram paralelamente ao encontro. Estas, através de dinâmicas e grupos de trabalho,
contribuíram para estreitar laços entre as mulheres libertárias, chegando a exteriorizar e analisar as problemáticas que
diariamente sofrem todas as mulheres e seu papel dentro da luta contra o sistema.
A cada dia, no final da jornada, a organização do encontro preparou distintos "atos culturais". Nós não assistimos a
nenhum deles, uma vez que circulávamos de assembléia em assembléia, mas este dia nos pareceu significativo, tal e qual
nos contaram algumas companheiras que participaram dele: resultou ser uma visita pelos bairros de Belém. As pessoas que
optaram por fazer o percurso tomaram seus lugares em um ônibus, e escoltadas pela polícia, visitaram a Belém turística.
O ônibus em nenhum momento entrou na favela aos arredores da universidade, sede do encontro. A assembléia da noite foi
marcada pela presença dos companheiros base de apoio e da FZLN, entre eles Edu Velasco. Isto serviu para que as pessoas
expressassem seu mal estar e pedissem explicações sobre sua intervenção, assim como a legitimidade de sua representação.
Os companheiros zapatistas sentiam-se coibidos e compromissados, já que não tem como hábito a prática de disputas,
apenas comentaram que Velasco eventualmente estava colaborando com o EZ, ao passo que outra companheira da Frente
complementou que o mesmo colaborava em matéria de segurança. Foi uma visita breve, pois os companheiros zapatistas
tinham outros compromissos, mas instaram a criar uma comissão tratar do assunto com mais calma o dia seguinte.
Sexta, 10/12/99
Como cada manhã, @s anarquistas começaram a jornada com uma assembléia para preparar o transcurso do dia. Dali nos
trasladamos para a primeira mesa redonda "Solidariedade Internacional: construindo uma América livre". Pretendia-se
debater o papel político revolucionário da solidariedade internacional. Interveio Danielle Miterrand, representante e
fundadora da ONG France Liberté, o centro Luther King de Cuba. Cadernos do III mundo e o Partido Comunista da Catalunha,
representado por Pep Valenzuela.
Mitterrand toca quatro pontos para construir uma América livre: a utilização dos meios de comunicação, um comércio
eqüitativo, negar a violência como forma de transformas a sociedade, dando como exemplo os zapatistas, e lutar pelo
desarme nuclear e tradicional. O movimento Hip-Hop tomou a palavra reportando-se a Miterrand o auge do racismo na França
devido à imigração magrebi e negra, as desigualdades sociais, os guetos criados em cidades dormitórios, a injustiça que
representa a expulsão de imigrantes clandestinos na França. Criticou e denunciou a presença no encontro dessa rica
primeiro-mundista propondo soluções aos problemas dos povos da América. Depois desta intervenção, Miterrand retirou-se
envergonhada. Na hora da participação do PCC houve momentos de tensão e enfrentamentos entre estes e outros partidos
comunistas, mas não podemos aprofundar este tema por falta de dados.
Pela tarde, assistimos à mesa redonda "de Morelos a Chiapas, o longo caminho do zapatismo". A companheira Lucia explica
sua experiência na consulta sobre direitos indígenas e pelo fim da guerra de extermínio, que o EZLN lançou para todos os
mexicanos, e outra companheira da FZLN resumiu a história fundamental do zapatismo desde o levante de 94 até nossos
dias. A intervenção de ambas foi breve devido ao atraso no início dos trabalhos.
A mesa redonda seguinte foi "dos Andes à Selva, a força do povo" donde André de Paula e outros participantes explicaram
a composição e história dos deferentes movimentos de libertação da Colômbia, principalmente as FARC e ELN. A intervenção
foi breve, e logo em seguida foi lida uma carta do ELN para saudar o encontro e justificar sua ausência por
impossibilidades técnicas e de segurança. Depois foi rodado um vídeo muito simples intitulado "falaram as instituições,
1992" que se referia à morte do comandante Manuel que por sua vez caricaturava e ensaiava o movimento guerrilheiro.
Outro vídeo consistiu de uma gravação sem comentários do município chiapaneco Amador Hernández, em setembro de 1998,
lugar onde com a desculpa de construção de uma rodovia por parte do exército, se construiu um quartel militar no local,
com o objetivo de fechar o cerco à zona de influência zapatista.
Posteriormente assistimos à mesa redonda "para sempre Cuba, 40 anos de Revolução cubana", onde não esperávamos encontrar
debate algum, mas um ato de apoio e reafirmação do regime cubano. Contudo, não foi isso que aconteceu. Os anarquistas
interviram prontamente, questionando os aspectos autoritários e as contradições do regime castrista, o que propiciou um
debate esquentado, com posturas claramente opostas. Também os trotskistas arremeteram duramente contra a figura de
Fidel.
Programou-se para as oito uma assembléia anarquista dedicada às deliberações finais do encontro, bem como o papel de sua
participação. Também estava pautada a discussão sobre uma eventual estruturação de uma futura federação de grupos
anarquistas no território brasileiro. O fato de celebrar a assembléia em recinto exterior aberto chamou a atenção de
pessoas não simpatizantes do anarquismo, o que gerou um caloroso debate sobre realizar a assembléia a portas abertas. A
intervenção de dois companheiros deu serenidade e sentido comum ao conjunto da assembléia, tão necessários naqueles
momentos de nervos e cansaço. Finalmente se resolveu celebrar a assembléia em outro espaço. A assembléia começou com um
apelo à calma e ao desarme de espíritos, em seguida se entoou "A las barricadas", em português e em castelhano. A partir
daí passou-se a uma análise e reflexão do que havia sido o encontro para os anarquistas. O nível das intervenções é
altíssimo e fica patente o emotivo momento histórico em que nos encontramos: no Brasil não se recorda um encontro de
grupos anarquistas de todo o pais desde os anos trinta. A assembléia se dissolve às três da madrugada, depois de
preparar a última jornada do encontro.
Sábado, 11/12/99
Por fim, neste dia se realiza uma única mesa redonda: "O poder da criação", espaço dedicado à reflexão sobre o uso da
cultura por parte do poder e para lutar contra ele. No debate participaram representantes do movimento indígena, do
movimento hip-hop, do coletivo ácrata Resistência Popular Amazônica, assim como um indivíduo que se representava a si
próprio.
O delegado da RPA deu início a sua intervenção com uma dura crítica à classe média, ao sistema educacional e a todas as
formas de criar e manter a ideologia burguesa. Propôs recuperar a cultura originária, popular, dos povos indígenas.
Menciona a capoeira angola, o hip-hop e o anarcopunk como expressões da cultura popular e da resistência. Também
recordou a importância do anarco-sindicalismo como fonte de cultura operária, reivindicando os ateneus libertários, as
bibliotecas operárias, as escolas racionalistas, etc. para recuperar os valores libertários. Criticou também os
sindicatos e os partidos ditos operários que reproduzem os valores, esquemas e cultura da burguesia.
O movimento hip-hop abre seu turno renegando a música comercial e seus artistas, e deplora o fato desses artistas serem
idolatrados por pessoas que se consideram revolucionárias. O hip-hop, explica, é uma música revolucionária e uma forma
de contracultura ao sistema neoliberal. Critica a comercialização de culturas como o hip-hop e o reggae, o que provoca
sua integração ao sistema. Para ele, a música é uma forma de fazer política cultural, um método para introduzir a
cultura revolucionária no seio do povo, como contracultura do poder.
Esaú, representante indígena brasileiro, se apresenta em sua língua original: mas depois traduz. Explica que todos os
humanos somos irmãos de sangue e que, segundo a Bíblia, todos temos a mesma origem. Fala das doze tribos da Babilônia
que se distribuíram pelos cinco continentes e que hoje formam as distintas raças, recordando que toda tem o mesmo pai
supremo. Abraão. Incita a todos a lutar pelos seus direito, pela sua cultura, pelos valores da terra, pela vida e pela
natureza, por uma vida melhor. Acusa a televisão e a imprensa pela perda da sua cultura, e protesta pela revenda que os
comerciantes fazem de seu artesanato, de gente que enriquece estudando sua cultura e das empresas que patenteiam os
conhecimentos que @s indígenas possuem há milhares de anos.
A pessoa que representa a si mesmo começa sua intervenção fazendo um discurso humanista, lamentando a passividade das
pessoas para com a desgraça alheia. Fala dos obstáculos impostos pelo sistema à criatividade das pessoas e critica o
poder nas relações sociais e pessoais. Fala na necessidade de acabar com essa ética burguesa dominante que se questiona
a si mesma. Defende a supressão da competitividade entre as pessoas para poder recuperar valores mais humanos.
A tarde foi reservada para despedidas e festas. @s anarcopunks fazem uma mostra: Barulho contra o Neoliberalismo, com
seis bandas brasileiras. A festa oficial de encerramento não acaba sem problemas: Na entrada do recinto universitário,
policiais armados impediram o acesso de pessoas que não possuíam as credenciais do encontro, em sua maioria, estudantes
da própria universidade e vizinhos da favela próxima, produzindo-se momentos de tensão.
Conclusões
Desde o primeiro dia ficou patente a manipulação e a tentativa de monopólio do encontro por parte do Partido dos
Trabalhadores (PT) com claros fins eleitorais. O governo de Belém patrocinador do encontro, efetuou um grande
investimento financeiro, principalmente em nível de infraestrutura, esperando sacar rentabilidade política. Para isso,
todo o complexo universitário, as infraestruturas municipais, funcionários, órgãos de segurança, foram colocados a
serviço do encontro. Apenas em propaganda foram gastos 20.000 reais (cerca de 10 mil dólares americanos), que contavam
recuperar vendendo credenciais de participação. Por isso, apenas se permitia o acesso a pessoas que pagavam pela
inscrição. As entradas estavam controladas pela polícia local. Parte do investimento foi destinado a uma emissora de
rádio "América Livre" e a edição de um boletim diário, para difundir continuamente a versão oficial do encontro.
Para recuperar o dinheiro gasto, a organização, dominada totalmente pelo PT, impõe uma metodologia destinada a obter
benefício político do Encontro. As formas de participação impedem um real intercambio de experiências entre os
assistentes. A estrutura é de congresso de partido político: uma mesa de oradores ocupando grande parte do tempo das
intervenções diante de um público com escassas oportunidades de expressão.
Esse encontro não manteve em nenhum momento a linha dos encontros anteriores, como os realizados em Chiapas e na
Espanha. Marcados pela auto-organização, autogestão e estrutura horizontal. Um momento de debate e intercambio de
experiências entre os participantes.
Diante dessa situação de manipulação, a revolta das pessoas não de fez por esperar. E ela veio. De forma espontânea e
reuniu todas as pessoas de talante antiautoritário, mas sem dúvida a grande maioria Anarquista foi o que deu vida ao
encontro. Isto não foi por acaso, uma vez que a comunidade anarquista três dias antes do encontro havia se reunido em
Belém para debater os temas propostos e trabalhar as estratégias a seguir. Os anarquistas provaram ter muita experiência
assembleária e um alto nível político. A idéia de compromisso, esforço e responsabilidade estão a altura de seus ideais.
Em todas as assembléias se percebe uma intenção construtiva e com uma vocação de criar algo para o futuro, bem além do
mero debate. Aqui, o anarquismo continua de posse de todo seu conteúdo integral, não se trata apenas de um discurso
político, mas de uma atitude, uma ética diante da vida. Seu comportamento prático é coerente e rende homenagem a seus
valores. Ademais, tudo isso lhes confere uma grande dignidade o que faz com que mereçam um grande respeito. Tais coisas
fizeram com que as pessoas descontentes com o desenvolvimento do Encontro, se aglutinassem em torno deles. Isto se
tornou possível por que as formas de organização anarquistas e zapatistas são idênticas em essência, embora os
autoritários tanto de direita como de esquerda dêem uma conotação negativa à palavra anarquia, desprestigiando um
projeto válido de transformação social.

A figura de Eduardo Velasco foi tristemente famosa no Encontro. Sua atuação teve duas conseqüências básicas. Por um
lado, o papel de desarticulador do movimento assembleário que reivindicava um Encontro horizontal. Este intentou colocar
em dúvida a eficácia das formas organizativas anarquistas e antiautoritárias por extensão. Por outro lado, Velasco
desprestigiou e criou confusão em torno do ideal zapatista, mentindo descarada e miseravelmente ao apresentar-se como
delegado do EZLN e falar em seu nome. Sua atitude nefasta colocou em risco a integridade e a credibilidade do zapatismo
em um marco tão importante como o II Encontro Americano. Diante da desorientação inicial que gerou a frustração sobre as
expectativas do conteúdo do Encontro, assim como o monopólio do PT e a desestabilização que criou confusão com o
"representante" da FZLN, veio prontamente a resposta anarquista, à qual se somaram as demais tendências
antiautoritárias, que levou o Encontro adiante. A perseverança em seu trabalho assembleário possibilitou enfrentar a
situação. Foi nos espaços que criaram que se realizou o verdadeiro encontro humano, o espaço do intercâmbio de idéias e
das propostas de luta. Da forma como as pessoas vivem e lutam por aqui não há dúvida que nascerá algo grande de tudo
isso.
Nota de esclarecimento: O computador não nos permitiu por o @ em todos os casos necessários para não cair em
discriminações sexistas. Esperamos que compreendam estas e outras dificuldades que encontramos ao trabalhar com um
teclado inadequado.
Traduzido por Railton Sousa Guedes
projetoperiferia@ig.com.br
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