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(pt) Cartas e Comunicadosdo mês de Novembro de 2000.

From "Luz da Câmara" <luz.camara@mail.telepac.pt>
Date Fri, 29 Dec 2000 23:04:13 -0500 (EST)


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ezln.
MÉXICO.


Novembro de 2000

À imprensa nacional e internacional.


Damas e cavalheiros:

Estamos aqui, de novo. Seguem uma carta para aquele que está indo embora
(felizmente) e o convite para vocês participarem de uma entrevista
coletiva. Faremos até o impossível para que não seja suspensa em cima da
hora.
Valeu. Saúde e não há porque preocupar-se, Martha Sahagún não estar por
aqui.

México, Novembro de 2000. (Últimas horas de Zedillo!)


P. S. DRAMATURGO (Já!) QUE DIZ O QUE DIZ.

Ato Primeiro. - Personagens: a classe política, o locutor, as oito
colunas, o público.
Lugar: México. Data: antes da eleição do dia 02 de julho de 2000.

(Abrem-se as cortinas. No palco uma televisão e uma rádio ligadas no
último volume. Como pano de fundo as oito colunas de um jornal nacional.
O audio da Teve e do rádio é o mesmo: jingles comerciais. As oito
colunas do jornal vão mudando conforme será indicado)

A classe política: - Estamos nos meios de comunicação, logo, existimos.
Agora temos que submeter a nossa grandeza à prova mais difícil da
suprema arte de governar: o rating. Que venham os assessores que cuidam
da imagem! (bate as palmas)
As oito colunas: "CRIADO O IFP: INSTITUTO FEDERAL DE PESQUISAS. Será
eliminado o trabalho de ir às urnas", diz a manchete.
O assessor (entrando do lado direito): - Atchim! Acho que sou alérgico a
estas poeiras. O que são?
O assessor (oferecendo um lenço): - Saúde! São a última onda da moda;
são poeiras democratizantes.
A classe política (suspirando com resignação): - Bom, faz-se de tudo
para sobreviver.
As oito colunas: - "BAIXARÃO OS PREÇOS DOS CANDIDATOS: SECOPI".
O locutor (entra apressado do lado esquerdo): - Rápido! Depressa! Os
patrocinadores estão inquietos! Temos que gravar o programa.
O assessor: - Os patrocinadores? Achei que os inquietos fossem os
espectadores ...
O locutor: - Não, não, não. O ritmo da política não é marcado pelos
relógios e nem pelos calendários, e sim pelos horários da programação.
Depressa! Falta pouco para os intervalos comerciais.
A classe política (se ajeita diante de um espelho que está nas mãos do
assessor): - Bem, como estou?
O assessor (sorrindo satisfeito): - Magnífico! Você ficou irreconhecível
...
A classe política (entre ela mesma): - Intervalos comerciais! Nos bons
tempos não havia outros intervalos a não ser os que eram produzidos pelo
alegre ressoar das matracas e das palavras de ordem "Se vê, se sente, o
PRI é onipotente!"
(O assessor se põe de lado)
O locutor: - Luzes! Câmara! Ação!
O locutor (dirigindo-se ao público): - Bem-vindos ao nosso programa: "A
Verdade Envergonhada!" Hoje temos como convidada especial a ... classe
política! (Ouvem-se fortes aplausos; o público permanece imóvel, mas uma
gravação evita às pessoas a penosa tarefa de bater palmas).
A classe política (dirigindo-se ao locutor): - A gravata está bem
ajeitada?
O locutor: - Bom, diga-nos, o que pode esperar o respeitável público do
próximo processo eleitoral?
(A classe política mexe os lábios mas não emite nenhum som).
O locutor: - Muito interessante! Quase tão interessante quanto estas
mensagens comerciais dos nossos patrocinadores!
A classe política (ao locutor): - Já acabou a gravação?
O locutor: - Sim. Saiu perfeita. Agora é só esperar que o assessor,
depois de fazer suas pesquisas de mercado, nos envie o audio com as suas
respostas.
A classe política: - Então já posso ir embora?
O locutor: - Sim.
(A classe política sai, alguém se aproxima e apaga o rádio e a
televisão. As oito colunas desaparecem. As cortinas se fecham. O
respeitável público boceja. Irrompe a gravação de uma clamorosa
aclamação).

Segundo Ato. Personagens: a classe política, a senhora X, o jovem Y, o
senhor Z.
Lugar: México. Data: 02 de julho de 2000.

(As cortinas se abrem. No palco só uma rua solitária)
A classe política (para si mesma): - Vemos as caras, não sabemos dos
votos.
O público (irrompendo no roteiro, para o escândalo de todos): - Não!

Esta obra teatral tem um problema. Quem a dirige se esforça em convencer
o respeitável público de que já terminou. O público não só não abandona
o local, como faz de tudo para subir no palco. O diretor e os atores
estão de cabelo em pé. Já não é possível saber onde é o palco e onde
ficam as platéias. De repente, sem que, aparentemente, tenha combinado
isso de antemão e com uma expressão ardente no rosto, todos os que são
do público gritam: Terceira chamada! Terceira chamada! Terceira!
Começamos!

Se fecham as cortinas?

O que? Você não gostou? Bom, La Mar s. Bueno, pelo menos, sorriu. O que?
Vou ser reprovado por Dario Fó, Carballido, Gurrola, Savariego e Leñero?
Ahi deles se o fizerem. Até Einstein foi reprovado em asseio (ou era em
matemática?)

O Sup na bilheteria.


ezln
MÉXICO.


 Novembro de 2000.

 Ao senhor Ernesto Zedillo Ponce de León.
 De passagem para lugar nenhum.
 Planeta Terra.


 Senhor Zedillo:

 Seis anos atrás, lhe escrevi a nome de todos nós zapatistas dando-lhe
as boas vindas ao pesadelo. Agora, muitos acham que tínhamos razão. Ao
longo destes seis anos, o seu mandato tem sido um longo pesadelo para
milhões de mexicanos e mexicanas: magnicídios, crise econômica,
empobrecimento generalizado, enriquecimento ilícito e brutal de alguns,
venda da soberania nacional, insegurança pública, estreitamento dos
laços entre o governo e o crime organizado, corrupção,
irresponsabilidade, guerra ... e piadas ruins e mal contadas.
 Ao longo do seu mandato, você se empenhou em destruir os indígenas que
insurgiram desafiando tudo aquilo que você representa. Você se empenhou
em destruir-nos.
 Quando você chegou ao poder, tinha a liberdade de escolher como
enfrentar o levante zapatista. O que escolheu e fez, já é história. Em
seu papel de comandante supremo do exército federal e com todo o poder
conferido pelo fato de ser o chefe do executivo, você poderia ter
escolhido o caminho do diálogo e da negociação. Poderia ter dado sinais
para reduzir a tensão. Poderia ter cumprido o que assinou em San Andrés.
Poderia ter chegado à paz.

 Não o fez.

 Optou pela dupla estratégia de fingir disposição ao diálogo e continuar
no caminho de uma saída violenta. Para isso, tentou repetir a história
da traição de Chinameca (no dia 9 de fevereiro de 1995); desperdiçou
bilhões de Pesos tentando comprar a consciência dos rebeldes;
militarizou as comunidades indígenas (e não só as de Chiapas); expulsou
observadores internacionais; treinou, equipou, armou e financiou os
paramilitares; perseguiu, prendeu e executou sumariamente zapatistas
("remember" Unión Progreso, 10 de junho de 1998) e não zapatistas;
destruiu o tecido social do campo chiapaneco; e seguindo a palavra de
ordem do filho putativo, o grupo paramilitar "Máscara Vermelha"
("mataremos a semente zapatista"), mandou massacrar crianças e mulheres
grávidas em Acteal, no dia 22 de dezembro de 1997.
Poderíamos entender o porquê, podendo seguir o caminho do diálogo, você
optou por fazer-nos a guerra. Pode ter sido porque lhe venderam a idéia
de que poderia prender-nos, de que poderia derrotar-nos militarmente, de
que poderia fazer com que nos rendêssemos, de que poderia comprar-nos,
de que poderia enganar-nos, de que conseguiria fazer com que os
mexicanos esquecessem de nós e da nossa luta, de que poderia fazer com
que as pessoas de outros países renunciassem à solidariedade com a causa
indígena. Em suma, que poderia ganhar a guerra contra nós. Isso
poderíamos entendê-lo. Mas, senhor Zedillo, por que Acteal? Por que você
mandou assassinar crianças? Por que mandou seus guardas acabarem a
facadas com as mulheres grávidas que, feridas ou aterrorizadas, não
conseguiram escapar do massacre?

Enfim, o que você não fez para acabar com os zapatistas?

Mas, por acaso, eles acabaram? Escapuliram de sua emboscada no dia 9 de
fevereiro de 1995; se rebelaram de novo diante do descumprimento dos
Acordos de San Andrés; escaparam do seu cerco militar quantas vezes
quiseram; resistiram à sua ofensiva feroz, levada diante pelo "bolacha
pra cachorro" Albores, contra os municípios autônomos; mais de uma vez
demonstraram com mobilizações que suas reivindicações contam com o
respaldo de milhões de mexicanos. Não, os zapatistas não acabaram.
E não só não acabaram. Como, além do mais, proliferaram pelo mundo todo.
Você lembra das vezes em que teve que abandonar, pelas saídas de
emergência e às escondidas, os eventos que se realizavam em outros
países, enquanto os comitês zapatistas de solidariedade protestavam
contra a sua política em Chiapas? Tem algum embaixador ou cônsul que não
tenha lhe informado com desespero as ações que zapatistas internacionais
realizavam durante as reuniões oficiais e nos prédios do governo
mexicano no exterior? Quantas manifestações de repúdio de organismos
internacionais o seu serviço de relações exteriores não recebeu pelo
descumprimento dos Acordos de San Andrés, pela militarização de Chiapas
e pela falta de diálogo com os zapatistas? E quando você ordenou a
expulsão de centenas de observadores internacionais, por acaso
diminuíram as ações de solidariedade no mundo todo?
E o que me diz do México? No lugar de ficar "restrito a 4 municípios
chiapanecos", o pensamento zapatista se estendeu aos 32 Estados da
federação. E se tornou operário, camponês, indígena, professor,
estudante, empregado, motorista, pescador, rockeiro, pintor, ator,
escritor, freira, padre, esportista, dona de casa, colono, sindicalista
independente, homossexual, lésbica, transexual, soldado, marinheiro,
pequeno e médio proprietário, vendedor ambulante, inválido, aposentado,
pensionista, povo.
Estes 6 anos foram assim, senhor Zedillo. Podendo escolher entre a paz e
a guerra, você optou pela guerra. Os resultados desta escolha estão
diante de todos: você perdeu a guerra.

Você fez tudo o que pôde para destruir-nos.
Nós só resistimos.
Você vai para o exílio.
Nós continuamos aqui.

Senhor Zedillo:

Você chegou ao poder pela via do crime que, até o momento, continua
impune. E o seu mandato está cheio de crimes impunes. Além de levar
adiante as políticas de privatização do seu predecessor (e hoje inimigo
declarado), Salinas de Gortari, você disfarçou de legalidade este outro
crime que se chama FOBOPROA-IPAB e que, grosso modo, consiste em fazer
com que os mexicanos pobres não só "resgatem" os ricos e os tornem mais
ricos, como também que uma carga pesada comprometa várias gerações
futuras.
Para mais de 70 milhões de mexicanos, a suposta solidez econômica do
país foi sinônimo de miséria e desemprego. Enquanto você cuidou com
carinho da invasão dos capitais estrangeiros, as pequenas e médias
empresas foram desaparecendo do mercado nacional. Durante o seu mandato
foram apagadas as fronteiras que separam o governo do crime organizado e
os seguidos escândalos provocaram sérios problemas à imprensa: era
impossível esclarecer que notícias pertenciam à seção política e quais à
de tarja vermelha: "suicidas", ex-governadores fugitivos, generais
presos, empresários bem-sucedidos que foram "só" torturadores, polícia
"especializada" no combate ao crime organizado tomando as universidades.

Hoje, do mesmo modo que o seu predecessor, você está entre aqueles que
lhe prestaram homenagem, serviram a ele e se serviram, se converteram em
seus piores inimigos, dispostos a persegui-lo. Assim, a partir de
amanhã, será você, senhor Zedillo, quem vai ser perseguido dia e noite.
E não será só por seis anos. Porque a partir de agora será muito
cumprida a fila daqueles que vão querer lhe cobrar a conta e as ofensas.

É claro que tínhamos razão quando, seis anos atrás, nós zapatistas lhe
demos as boas-vindas ao pesadelo. Mas, agora que você vai embora, será
que já terminou?

Sim e não.

Porque para nós o pesadelo com você termina hoje. Outro poderá vir
depois ou poderá, finalmente, amanhecer; não sabemos, mas faremos tudo o
que é possível para que seja o amanhã a florescer. Mas para você, senhor
Zedillo, o pesadelo só irá continuar.

Valeu. Saúde e pouco importa onde for se esconder, lá também terá
zapatistas.


Das montanhas do Sudeste Mexicano
Subcomandante Insurgente Marcos

México, novembro de 2000.


P. S. Claro, antes que me esqueça: um ano atrás, em setembro de 1999,
você nos mandou uma carta aberta através do seu secretário de governo (e
hoje pré-candidato à presidência do PRI). Acho que a carta se chamava
"Mais um Passo para o Abismo", "Um Passo mais Sombrio", "Um Passo mais
Cínico", ou algo parecido. Nela, só com 3 anos de atraso, o seu governo,
supostamente, respondia com mentiras às condições que, em setembro de
1996!, havíamos colocado para retomar o diálogo. Mais do que nos
enganar, a carta aberta pretendia enrolar a opinião pública nacional e
internacional. coisa que, com certeza, não conseguiu. Seja como for, a
mencionada carta nos dizia que nos déssemos por satisfeitos com aquilo
que nela se dizia e nos convidava a voltar ao diálogo. Seria
deselegante, de nossa parte, deixá-la sem resposta, sobretudo agora que
você vai embora (finalmente!). Perdoe pelo atraso, mas permita-me
aproveitar estas linhas para responder. Nossa resposta é: NÃO!

De nada.



ezln
MEXICO

 Novembro de 2000.

 À imprensa nacional e internacional:


PRIMEIRO: O ezln definirá publicamente a sua posição diante do novo
governo federal, encabeçado pelo senhor Vicente Fox, e da situação em
que, atualmente, se encontra a guerra no Sudeste Mexicano.

SEGUNDO: Com esta finalidade, o ezln convoca uma entrevista coletiva
para o dia 2 de dezembro de 2000, na comunidade indígena de La Realidad,
município de San Pedro Michoacán, Chiapas, às 16.00 horas.

TERCEIRO: Para ter acesso ao lugar da entrevista coletiva, os
trabalhadores da comunicação não precisarão de nenhuma credencial
especial, será suficiente ter uma identificação do meio de comunicação
no qual trabalham.

QUARTO: Não poderão entrar policiais disfarçados de jornalistas e nem,
por decisão da comunidade, os da emissora de televisão que destrói
escolas indígenas com o seu helicóptero.


DEMOCRACIA! LIBERDADE! JUSTIÇA!



México, novembro de 2000.






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