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(pt) ezln - novo comunicado

From "Luz da Câmara" <luz.camara@mail.telepac.pt>
Date Fri, 29 Dec 2000 23:03:31 -0500 (EST)


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      A - I N F O S  N E W S  S E R V I C E
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ezln
MÉXICO.


 02 de dezembro de 2000.

 Ao senhor Vicente Fox
 Los Pinos, México, D. F.


 Senhor Fox:

 Seis anos atrás escrevemos uma carta a Ernesto Zedillo Ponce de León,
seu predecessor. Agora que você é o novo titular do Executivo federal, é
meu dever informá-lo que a partir de hoje você herdou uma guerra no
sudeste mexicano; a que o Exército Zapatista de Libertação Nacional
declarou ao governo federal no dia 1º de janeiro de 1994 para
reivindicar democracia, liberdade e justiça para todos os mexicanos.
 Desde o início do nosso levante, enfrentamos as tropas federais
conforme a honra militar e as leis da guerra. Desde então, o Exército
tem nos atacado sem nenhuma honra militar e violando os tratados
internacionais. Mais de 70 mil soldados federais (incluindo uns 20 mil
das chamadas "tropas especiais de contra-insurreição") têm cercado e
perseguido os zapatistas por 2 mil 525 dias (incluindo hoje). Durante
dois mil desses dias têm feito isso violando a Lei para o Diálogo, a
Negociação e a Paz Digna em Chiapas, aprovada pelo Congresso da União no
dia 10 de março de 1995.
 Ao longo destes quase sete anos de guerra, nós zapatistas resistimos e
enfrentamos dois Executivos federais (autodenominados "presidentes"),
dois Ministros da Defesa Nacional, seis Secretários de Governo, cinco
enviados de "paz", cinco "governadores" de Chiapas e uma multidão de
funcionários dos escalões intermediários. Todos eles já se foram. Alguns
estão sendo investigados por suas ligações com o crime organizado,
outros estão no exílio ou a caminho dele, outros ainda estão
desempregados.
 Mais de uma vez, durante estes quase sete anos, nós zapatistas temos
insistido na via do diálogo. Fizemos isso porque temos um compromisso
com a sociedade civil que exigiu de nós que calássemos as armas e
tentássemos um acordo pacífico.
 Agora que você assume a titularidade do Poder Executivo federal, deve
saber que, além da guerra do sudeste mexicano, herda a possibilidade de
escolher como irá enfrentá-la.
 Durante a sua campanha e a partir do dia 2 de julho, você, senhor Fox,
tem dito mais de uma vez que vai escolher o diálogo para enfrentar as
nossas reivindicações. Zedillo disse a mesma coisa durante os meses que
antecederam a sua posse e, todavia, dois meses depois da mesma, ordenou
uma grande ofensiva militar contra nós.
 Você deve entender porque a desconfiança em relação a tudo o que é
governo, independentemente do partido político ao qual pertence, já tem
marcado de forma indelével o nosso pensamento e o nosso caminhar.
 Se à nossa compreensível desconfiança diante da palavra do poder
acrescentamos o monte de contradições e leviandades que você e aqueles
que o acompanham têm despejado sem visão alguma, é também meu dever
assinalar-lhe que com nós zapatistas (e acredito que não só com os
zapatistas) você parte do zero no que se refere à credibilidade e
confiança.
 Não podemos confiar em quem demonstrou superficialidade e ignorância ao
apontar que as reivindicações indígenas se resolvem com "fusca,
televisão e mercearia".
 Não podemos dar crédito a quem pretende "esquecer" (isto é, "anistiar")
as centenas de crimes cometidos pelos paramilitares e seus patrões
outorgando-lhe a impunidade.
 Não nos inspira confiança quem, com a visão curta da lógica gerencial,
tem como plano de governo o de transformar os indígenas em
mini-micro-empresários ou em empregados do empresário dos seis anos
deste mandato. No fim das contas, este plano nada mais é a não ser a
tentativa de continuar com o etnocídio que, sob diferentes modalidades,
o neoliberalismo leva adiante no México.
 Por isso é bom que você saiba que nada disso irá prosperar em terras
zapatistas. O seu programa "desapareça um indígena e se crie um
empresário" não será permitido em nossas terras. Aqui, e sob muitos
outros céus mexicanos, o ser indígena não tem a ver só com o sangue e a
origem, mas também com uma visão da vida, da morte, da cultura, da
terra, da história, do amanhã.
 Os que tentaram nos aniquilar com as armas têm fracassado. Fracassarão
os que tentam eliminar-nos transformando-nos em "empresários".
 Repare que já tenho sublinhado que, com nós zapatistas, você parte do
zero em credibilidade e confiança. Isso significa que, por enquanto,
você não tem que recuperar nada de negativo (porque é justo assinalar
que você não nos atacou). Então, você pode dar razão àqueles que apostam
que o seu governo irá repetir o pesadelo do PRI para todos os mexicanos,
especialmente para os zapatistas. Ou, partindo do zero, você pode
começar a construir com os fatos o que todo governo precisa para o seu
trabalho: a credibilidade e a confiança. A desmilitarização que você tem
anunciado (ainda que com termos diferentes que variam entre "retirada
total", "realocação" ou "rearranjo", que não são iguais, coisa que você,
seus soldados e nós todos sabemos) é um início, insuficiente, mas
necessário.
 Não só em Chiapas, mas sobretudo em Chiapas, você pode dar razão
àqueles que desejam o seu fracasso ou àqueles que lhe concedem o
benefício da dúvida ou depositam plenamente em você isso que chamam de
"esperança".
 Senhor Fox: à diferença do seu predecessor Zedillo (que chegou ao poder
pela via do homicídio e com o apoio desse monstro corrupto que é o
sistema de partido de Estado), você chega ao executivo federal graças ao
repúdio que o PRI cultivou com esmero entre a população. Você sabe disso
muito bem, senhor Fox: você ganhou a eleição, mas não derrotou o PRI.
Foram os cidadãos. E não só os que votaram contra o partido de Estado,
como também os das gerações anteriores e atuais que, de uma forma ou de
outra, resistiram e combateram a cultura do autoritarismo, da impunidade
e do crime que construíram os governos priistas ao longo de 71 anos.
Ainda que tenha uma diferença radical quanto à forma pela qual você
chega ao poder, o seu projeto político, social e econômico é o mesmo que
nos fez sofrer ao longo dos últimos mandatos. Um projeto de país que
significa a destruição do México enquanto nação e sua transformação numa
loja de departamentos, algo assim como uma mega "mercearia" que vende
serem humanos e recursos naturais aos preços ditados pelo mercado
mundial. Os ocultos projetos de privatização do setor elétrico, do
petróleo e da educação, e o IVA que você pretende impor aos remédios e
aos alimentos, são apenas uma pequena parte do grande projeto de
"reestruturação" que os neoliberais têm para os mexicanos.
 Mas isso não é tudo. Com você contemplamos a volta de posições
moralistas cujo marco são a intolerância e o autoritarismo. Não é por
acaso que com os resultados do dia 2 de julho a direita confessional
desatou uma ofensiva de perseguição e destruição. E isso tem atingido
mulheres (violentadas ou não), jovens, artistas plásticos e dramaturgos,
homossexuais e lésbicas. Com os aposentados e pensionistas, os
inválidos, os indígenas e uns 70 milhões de mexicanos pobres, estes
grupos são chamados de "minorias". Estas "minorias", senhor Fox, não têm
possibilidade de entrar no seu México.
 Nós nos opomos a esta México e o faremos de forma radical. Pode ou não
lhe deixar preocupado o fato de um grupo de mexicanos, indígenas em sua
maioria, além do mais, não concorde com planos mercantis e com a
beligerância da direita. Mas você não deve esquecer que se o PRI perdeu
o poder é porque a maioria dos mexicanos se rebelou e conseguiu tirá-lo.

 Esta rebelião não terminou.
 Do dia 02 de julho até hoje, você e a sua equipe não têm feito outra
coisa a não ser insistir no fato de que os cidadãos devem voltar ao
conformismo e a imobilismo. Mas não será assim, o seu projeto neoliberal
enfrentará a resistência de milhões.
 Alguns membros do seu gabinete e próximos a ele dizem que o EZLN deve
entender que o país mudou, que (para os zapatistas) não há outra saída a
não ser aceitar isso, render-se, tirar o passamontanhas e fazer sua
solicitação de crédito para abrir uma vendinha, comprar uma televisão e
pagar as prestações de um carro popular.
 Se enganam. Nós lutamos pela mudança, mas para nós "mudança" significa
"democracia liberdade e justiça". A derrota do PRI era a condição
necessária para que o país mudasse, mas não suficiente. Faltam muitas
coisas, você e os poucos políticos que compõem o seu gabinete sabem
disso. Faltam muitas coisas sim e, o que é mais importante, milhões de
mexicanos e mexicanas sabem disso.
 Faltam, por exemplo, os indígenas. Falta reconhecer na constituição os
seus direitos e a sua cultura que, acredite, nada têm a ver com as
ofertas de promoção empresarial. Falta desmilitarizar e
desparamilitarizar as comunidades indígenas. Falta libertar os presos de
consciência. Falta apresentar os desaparecidos políticos. Falta
construir e defender a soberania nacional. Falta um programa econômico
que satisfaça as necessidades dos mais pobres. Falta que as pessoas
sejam cidadãs o tempo todo. Falta que os governantes prestem contas. Mas
também falta a paz.
 Senhor Fox: durante mais de seis anos, o seu predecessor, Zedillo,
fingiu ter vontade de dialogar e nos fez a guerra. Escolheu o
enfrentamento e perdeu. Agora você tem a oportunidade de escolher.
 Se escolhe a via do diálogo sincero, sério e respeitoso, apenas
demonstre a sua disposição com os fatos. Tenha certeza de que terá uma
resposta positiva por parte dos zapatistas. Assim, o diálogo poderá ser
retomado e, logo, a paz verdadeira começará a ser construída.
 No comunicado público que lhe anexamos, o ezln dá a conhecer uma série
de sinais mínimos por parte do executivo federal. Se estes se realizarem
estará tudo pronto para voltar ao diálogo.
 O que estará em jogo não é se nós nos opomos ao que você representa e
ao que você significa para o nosso país. Quanto a isso não deve haver
dúvida: nós somos seus contrários. O que estará em jogo é se esta
oposição se dá por canais civis e pacíficos, ou se devemos continuar
insurretos, com as armas na mão e com o nosso rosto coberto até
conseguir o que buscamos e que não é outra coisa, senhor Fox, a não ser
democracia, liberdade e justiça para todos os mexicanos.

 Valeu. Saúde e oxalá esteja certo isso de que no México e em Chiapas
terá um novo amanhecer.


ezln MÉXICO


 02 de dezembro de 2000.

 Ao povo do México:
 Aos povos e governos do mundo:


 Diante do novo titular do Poder Executivo federal, o EZLN define a sua
posição no que diz respeito às possibilidades de uma solução pacífica
para a guerra.

Primeiro. O ezln reitera a sua disposição a buscar, encontrar e seguir
os caminhos pacíficos do diálogo e da negociação, para chegar ao fim da
guerra e iniciar uma paz justa e digna com os povos indígenas do México.

Segundo. O objetivos do diálogo e da negociação é de chegar a acordos e
de cumpri-los. Tanto o diálogo como a realização de acordos são
possíveis somente quando são construídos sobre uma base feita de
confiança e de credibilidade. As partes devem demonstrar que são dignas
de confiança e que pode-se acreditar em seus compromissos.

Terceiro. Ao longo de seus sete anos de vida pública (e 17 anos de
existência), o EZLN tem demonstrado que sua palavra goza de
credibilidade e nos orgulhamos de cumprir a nossa palavra. São prova
disso não só a nossa história, como também nossa atual disposição ao
diálogo.

Quarto. O ezln pede ao governo federal sinais concretos que comprovem
sua disposição ao diálogo e à negociação, seu compromisso de chegar a
acordos e de cumpri-los, e sua firme decisão de construir a paz com os
povos indígenas do México.

Quinto. Os sinais que pedimos são:

A) Cumprimento dos Acordos de San Andrés. Concretamente, que o projeto
elaborado pela Comissão de Concórdia e Pacificação (COCOPA) seja
transformado em lei.

B) A libertação de todos os zapatistas presos nos presídios de Chiapas e
dos outros Estados.

C) Desmilitarização. O senhor Vicente Fox, durante a sua campanha e em
todo o período posterior ao dia 2 de julho de 2000, tem prometido a
retirada das forças armadas federais do território zapatista e a volta
do Exército às posições que ocupava antes do início da guerra.

Ontem o Exército deu início a uma série de movimentações que reduzem os
pontos de fiscalização e controle (postos militares). Até onde chega a
nossa informação, estas X-Mozilla-Status: 0009raram o número e a
densidade das tropas federais no interior da chamada "zona de conflito";
estas movimentações poderiam ser interpretadas como uma simples tática
propagandista que procura apresentar como "retirada" o que é apenas uma
redução dos pontos de fiscalização e controle, mas também podem ser
interpretadas como o início de uma desmilitarização maior. Fazendo um
esforço, o EZLN avalia isso como um sinal de disposição a compromissos
maiores.

O ezln sabe que a reivindicação da opinião pública nacional e
internacional é a completa retirada do Exército, mas considera que é
também seu dever oferecer sinais de sua disposição ao diálogo e à
solução pacífica do conflito.

Até o dia 1º de dezembro deste ano, as diversas forças policiais e
militares do governo ocupavam 655 pontos geográficos de Chiapas, sendo
que desse total, 259 são do Exército federal.

Como condição para retomar o processo de pacificação, o EZLN reivindica
a retirada e o fechamento de sete destas 259 posições.

1. Amador Hernández; neste caso, além do mais, deverá ser anulado o
decreto de expropriação expedido por Zedillo.
2. Guadalupe Tepeyac.
3. Rio Euseba (perto do Aguascalientes de La Realidad).
4. Jolnachoj (perto do Aguascalientes de Oventik).
5. Roberto Barrios (perto do Aguascalientes desse lugar).
6. La Garrucha (perto do Aguascalientes desse lugar).
7. Cuxuljá (perto da comunidade de Moisés Gandhi).

A retirada deve ser completa e não deve ser substituída por nenhum outro
corpo militar ou policial (seja ele estadual ou federal, não deve ser
disfarçada com simples afastamentos geográficos dos pontos indicados, ou
seja, retirar não significa "afastar-se alguns metros". Qualquer nova
posição militar ou policial, estadual ou federal, será tomada como uma
trapaça e anulará todos os sinais.

No momento em que estes sinais tiverem sido cumpridos, o ezln fará
chegar ao enviado de paz do governo federal e à opinião pública, uma
carta na qual iremos propor lugar, data e pauta para um primeiro
encontro direto entre o enviado governamental e a direção zapatista.

Neste primeiro encontro direto, a direção zapatista irá propor o início
formal do diálogo e da negociação para a paz justa e digna em Chiapas
entre o ezln e o governo do senhor Vicente Fox.

Com a simplicidade e a exeqüibilidade destas reivindicações. O EZLN dá
uma demonstração clara de sua verdadeira disposição de seguir até às
últimas conseqüências, ou seja, até o fim da guerra, o caminho do
diálogo e da negociação.

A retomada do diálogo entre o governo federal e o ezln é possível. São
necessários fatos claros por parte do Executivo federal e disposição do
ezln ao diálogo, mas não são suficientes. Faz-se necessária também a
mobilização da sociedade civil nacional e internacional.

Por isso, lançamos um apelo especial a todos os homens e mulheres de boa
vontade, no México e no mundo, para que se mobilizem exigindo a
concretização destes sinais e a retomada do diálogo.


Liberdade!

Justiça!



México, dezembro de 2000.





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