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(pt) México 2000: janelas abertas, portas a serem abertas.

From "Luz da Câmara" <luz.camara@mail.telepac.pt>
Date Fri, 29 Dec 2000 22:54:43 -0500 (EST)


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      A - I N F O S  N E W S  S E R V I C E
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À insurgente Lucha
 que ao morrer, no dia 9 de setembro,
 nos deixou a única coisa que tinha: o seu exemplo.

 Montanhas do sudeste mexicano. Como acontece a cada tanto tempo, a lua
se deixou cair sobre a colina. Um barulho de vidros quebrados é seguido
por um murmúrio. Parece um arroio. Parece chuva. São passos. Milhares
deles. Um exército de sombras afana-se para recolher os pedaços do
espelho quebrado. Com cuidado, vão encaixando as peças do quebra-cabeças
que procurará ser o reflexo desta fragmentada realidade que, quem duvida
disso?, não deixa de mover-se. Ainda que os pedaços recém recolhidos
tenham permitido montar um espelho incompleto e desajeitado, consegue-se
ver em seu reflexo, ainda que não estejam claras, as figuras que já não
são manchas informes. Depressa levantam o espelho emendado e o dirigem
para o ocidente, justo no rumo deste outro espelho que brilha lá em cima
a cada manhã e empenha o seu passo dia após dia.
 Sem deixar de ver-nos, mas olhando sobretudo para o outro e os outros,
nós que somos guerreiros escritores tomamos a palavra.

 Lá em cima todos atiram nos relógios.

 México, 2 de julho do ano 2000. Já é noite. Os meios de comunicação, o
Instituto Federal Eleitoral (IFE), Zedillo, os candidatos e os partidos
políticos (nessa ordem) dizem o que não havia sido ouvido nos últimos 71
anos: o PRI perdeu a Presidência da República.
 As campanhas eleitorais dos partidos políticos, as mais caras da
história e as de nível político mais baixo, ficaram para trás. O aspecto
comum a estas campanhas foi um profundo desprezo para com o cidadão.
Mais parecidas com a propaganda comercial, as campanhas à presidência
conceberam o cidadão como um comprador sem memória que paga a conta, não
faz muitas perguntas e não exige garantias. Em sua marcha obstinada numa
direção que diverge daquela da cidadania, a classe política mexicana
sofreu pela distância entre o que tinha a oferecer e as expectativas das
pessoas. Após análises minuciosas (e um desperdício de milhões em
salários de assessores) os políticos descobriram algo incompreensível: o
povo queria uma mudança. Foi assim que as ofertas se concentraram na
"mudança". De "mudança" falaram os três principais candidatos à
Presidência da República.
 Mas isso ficou para trás, para esse dia. No dia 02 de julho esperam-se
respostas daqueles que nunca tiveram direito a escolher as perguntas.
Muito se falou, se diz e se dirá sobre o que aconteceu nesse 2 de julho
do ano 2000, mas para nós que escrevemos está claro que, em sua maioria,
a resposta foi um: "NÃO!".
 Com este "NÃO!" feito arma e bandeira, uma multidão anônima de
mexicanos e mexicanas deu o tiro de misericórdia num sistema político
que, por mais de sete décadas, semeou catástrofes e cadáveres na
história nacional. Os mortos que ficaram pelo caminho não foram poucos:
a justiça, a democracia, a liberdade, a soberania nacional, a paz, a
vida digna, a verdade, a legitimidade, a vergonha e, sobretudo, a
esperança. Estes mortos voltam a viver a cada tanto tempo: 1965, 1968,
1985, 1988, 1994, 1997.
 E para falar de mortos vivos não há ninguém como nós que escrevemos,
mortos e tão vivos. E dizem que nesse 2 de julho morreram alguns mortos
(entre eles, o sistema de partido de Estado) e outros mortos viveram
(entre eles, os cidadãos). O dia 2 de julho não fez outra coisa a não
ser confirmar a vocês um segredo: a crise do sistema de partido de
Estado. O fato de que, do número total de votantes, o resultado a favor
do candidato do PRI não tenha sido suficiente para conquistar a
Presidência da República, não é o que mais chama à atenção. O que chama
à atenção é que toda a máquina do Estado não tenha sido capaz de
conseguir o que havia alcançado (ainda que com crescente dificuldade nos
últimos mandatos) nestes 71 anos: a fraude eleitoral em suas diversas
modalidades. Apesar das ameaças, chantagens, enganações mentiras e
crimes, mais de 40 milhões de mexicanos disseram "NÃO!" ao sistema
político que, como um ventríloquo enganador, havia suplantado a voz da
maioria com um "SIM!" que foi perdendo o brilho com o passar dos anos.
 Ainda assim, por sua natureza, pela diversidade das razões que o
motivam, este "NÃO!" dificulta a sua escuta e permite que outros ruídos
o apaguem.
 Os mortos que morreram no dia 2 de julho deixaram muitos vazios, e o
anonimato dos mortos vivos permite que o papel de protagonista que lhe
pertence também pareça estar vazio. Começa assim a disputa para encher
este vazio e para atribuir-se o título de vencedor. E para isso se
atropelam entre si o IFE, Zedillo, Fox, os partidos políticos e alguns
intelectuais de letras e vergonha mortas.
 Se si entendesse o significado real do que aconteceu no dia 2 de julho,
os meios de comunicação não teriam como dar conta de entrevistar os
protagonistas: milhões de homens e mulheres. Pelos campos e pelas ruas
caminha uma multidão de heróis anônimos, que deveriam ser parados,
felicitados pelo ato de fecunda rebeldia, deveriam pedir-lhes um
autógrafo e uma foto e dizer-lhes com franqueza: não se renda! Como isso
não foi possível, os meios de comunicação ficaram em dúvida na hora de
escolher quem foi o protagonista: o IFE? Apesar da pose do seu
presidente, deu apenas para algumas horas, ninguém levou isso adiante.
Zedillo? Graças ao dinheiro que soltou à direita e à esquerda, durou
alguns dias, mas o problema é que não tinha mais nada a fazer a não ser
aceitar os resultados, ou a opção teria sido a de cometer um crime por
desconhecer a derrota? Não se pode manter de pé a popularidade de uma
personalidade com base no fato de que poderia ter cometido um crime
eleitoral e não o fez. Fox? Ninguém, e nem ele, acreditou nisso. Então,
quem foi o protagonista desse 2 de julho? O país? A Nação? Erguer um
monumento à Nação é algo muito problemático e não deixaria de ser
estranho o fato de promover a construção de uma estátua em honra do
"cidadão desconhecido".
 2 de julho. Tem o nome do derrotado. Mas o nome do vencedor continua
vacante. Como o tempo corre, lá em cima uns e outros atiram nos relógios
gritando: "Um momento! Eu sou a história!" Este grito esconde a pergunta
que se fazem entre si: "O que aconteceu?"

O Partido Revolucionário Institucional atira no relógio quando se
descobre despojado de um reino no qual, se supõe que os súditos
agradeceriam para todo o sempre a benção de serem governados pelo PRI.
No lugar de agradecimentos e matracas, o dia 2 de julho deixou-lhe para
sempre uma cabina apertada abaixo da linha de flutuação. Como a inércia
é também uma lei da política, o grupo dirigente do PRI abaixa a cabeça e
as costas para acatar ... a decisão de Zedillo de render-se diante de
uma evidência que, pela primeira vez, chegava às oito colunas: a maioria
dos mexicanos rechaça o PRI. A submissão durou minutos, horas talvez.
Logo surgiram as lamentações que depois se tornaram protestos e, mais
tarde, acusações: "Zedillo é o responsável pela derrota do PRI". À
pergunta "quem derrotou o PRI?", os priistas respondem: "Zedillo". E o
homenzinho cinzento, que a partir de hoje procurará inutilmente um
guarda-chuva que o proteja do inevitável, não passa de um coveiro
cinzento. Ao atirar no relógio e gritar "Foi Zedillo!", os priistas
esquecem de algo fundamental: a sua história. Porque a derrota do PRI é
um produto da sua história. O que os priistas não têm entendido é que
eles começaram a perder a Presidência da República em ... 1982!, quando
Miguel de La Madrid Hurtado assumiu a titularidade do Poder Executivo
federal.
Com a chegada de De La Madrid, uma nova classe política abre o seu
caminho no interior do PRI: a dos tecnocratas. Além de seus estudos
superiores no exterior, os tecnocratas tinham em comum a falta de
sensibilidade diante dos problemas sociais, a falta de militância
partidária e uma concepção do Estado diametralmente oposta à dos
"velhos" priistas. Os tecnocratas se apoderaram do poder e, de
conseqüência, do PRI. Nos governos anteriores, o PRI, esta vergonhosa
secretaria de Estado, havia mantido uma relação mais ou menos estável
com as organizações e os grupos do partido graças aos programas sociais.
Mas, a chegada dos tecnocratas colocou de lado a política social e, com
ela, a base de sustentação do PRI. E não só isso, "O PRI, por outro
lado, já não era o espaço onde se forjavam as carreiras políticas, e
esta notícia, que foi dada a conhecer pouco depois da chegada dos
tecnocratas no poder, teve um forte impacto entre os priistas. A maioria
dos funcionários dos altos e médios escalões do governo de De La Madrid
não só não tinham feito carreira no partido, como sequer eram membros do
PRI, e isso deu origem a um escândalo enorme". (Luis Javier Garrido, "La
ruptura 91982-1988)", em Proceso. Edição especial: "O inferno do PRI".
Agosto de 2000. Pg. 48).
Então, o PRI tornou-se uma agência de emprego de técnicos da
administração pública.
Não só isso. A onipresença do PRI no poder fez com que a alternância
(porque a chegada de Fox é isso, e só isso) se apresentasse como uma
transição. Os que podem ser culpados pelo fato de que, para a maioria
dos cidadãos, a democratização do país era vinculada à derrota do PRI
são os últimos titulares do Poder Executivo e de seus respectivos
gabinetes, suas políticas econômicas e sociais, seu prudente manuseio do
orçamento e suas ligações com o narcotráfico. Podem ser culpados também
os governadores e os prefeitos priistas que construíram corjas de
caciques regionais sobre os cadáveres de seus opositores e sobre a
pobreza de seus governados; os deputados e os senadores que assistiram
impávidos ao desmantelamento do Estado Social e apoiaram as iniciativas
neoliberais em troca de um punhado de notas; os "alquimistas" eleitorais
que, mais de uma vez, fraudaram milhões de cidadãos; os juizes corruptos
e venais; os policiais que roubam; o exército criminoso; os porta-vozes
disfarçados de jornalistas. Enfim, os que podem ser culpados pelo fato
de milhões de mexicanos verem o PRI como um obstáculo para o bem-estar e
o bom governo foram ... os priistas (Zedillo incluído).

O PRD e o neocardenismo atiraram no relógio logo que descobriram que a
queda do PRI não implicava na vitória do PRD. Acostumados a pensar-se
como o monopólio da oposição ao PRI, os perredistas não concebiam o fim
do sistema de partido de Estado sem eles na cabeça. E eis que o PRI
perdeu a Presidência e o PRD não a ganhou. Então, pararam o relógio para
tratar de entender o que aconteceu. Ou melhor, quem é o culpado pelo
fato da história não submeter-se aos estatutos do partido? Nos primeiros
dias, para alguns intelectuais neocardenistas, os possíveis culpados
eram os eleitores que não sufragaram Cárdenas Solórzano. Sentindo-se
"traídos" pelo povo, rogavam com rancor todo tipo de praga e de males
para o país: "agora sim verão o que é repressão, agora sim verão o que é
neoliberalismo, agora sim verão o que é fascismo, agora sim ...". Mas,
na hora certa!, alguém convidou ao bom senso, aí sim começou-se a
procurar a resposta à pergunta que todos os perredistas se fazem: "por
que perdemos da forma como perdemos?"
Durante a campanha eleitoral, a esquerda parlamentar mostrou que a posse
do poder político implica também na posse dos fantasmas que rondam ao
redor dela. Para o PRD, toda mobilização social que não estivesse sob o
seu controle, toda inconformidade mais ou menos organizada que estivesse
fora de sua influência e toda crítica que fosse feita num tom que não
fosse o silêncio, era parte de uma conspiração que pretendia arruinar as
aspirações do seu candidato à presidência, Cuauhtémoc Cárdenas
Solórzano. Foi assim que encarou a greve estudantil da UNAM (1999-2000),
as denúncias de fraude no processo de eleição interna (1999), as queixas
cidadãs pelas deficiências nos trabalhos governamentais do Distrito
Federal (1997-2000) e as críticas que a imprensa honesta fez ao seu
desempenho como governo (1997-2000) (ainda que deva ser lembrado aos
meios de comunicação que se auto-instituíram em "santa inquisição"
obedecendo a interesses ilegítimos: a reverência diante do príncipe
exilado ou a defesa do locutor narco).
Preocupa o fato de que, para os dirigentes do PRD, a mudança democrática
se daria somente quando seus candidatos chegassem ao poder. Preocupa
porque, ao chegar nele, um de seus primeiros decretos seria o de dar por
encerrada a luta pela democracia e todo aquele que ousasse levantar esta
bandeira seria tachado (e perseguido, porque é para isso que serve a
máquina do Estado) de sabotador, agente da direita ou com o termo que,
naquela altura, estaria na moda.
A campanha presidencial do PRD começou com a obsessão pelo centro (em
política, o centro nada mais é a não ser a direita que está pra
afirmar-se) e logo correu para a esquerda. Mas no trajeto desta corrida
deixou vários feridos: a credibilidade, a confiança, a coerência e a
esperança.
As conversas com o PAN para apresentar um candidato único e o rompimento
posterior, o afã de mostrar-se "compatível" com o poder de Zedillo (essa
incompreensível visita de despedida de Cárdenas a Zedillo depois de
deixar o governo do Distrito Federal), o, no mínimo, desajeitado
processo eleitoral interno para eleger o presidente do PRD, para
mencionar algumas, foram amostras da perigosa proximidade do PRD às
práticas políticas contra as quais luta.
Sobre a sua chamada "crise interna", quem tem a palavra é o PRD. Só nos
cabe dizer que o fato de Cuauhtémoc Cárdenas ter mantido a sua
candidatura, sem ceder à pretensão de renunciar a ela a favor de Fox, é
o que agora permite falar de uma crise do partido. Se tivesse
renunciado, já não teria sequer o partido.
Contudo, a sobrevivência de uma corrente de esquerda no interior do PRD
alenta ainda as esperanças de que a opção eleitoral de esquerda não
naufrague na tempestade do mercado político. Há dirigentes, lideranças
intermediárias e, sobretudo, militantes de base que sabem que as
fortalezas só podem ser construídas a partir de baixo, e que os anseios
que alentam com o seu batalhar superam, e muito, os limites de um
partido político.
Por enquanto, o PRD pode aproveitar o tempo para reorganizar-se ou
refundar-se. Não se vê nada no horizonte político que possa disputar com
ele o lugar da esquerda eleitoral. Oxalá que esta falta de contrapesos à
esquerda eleitoral do PRD não faça com que o imã da direita o tire do
lugar que deve ocupar.

O Partido de Ação Nacional atira no relógio quando descobre que,
finalmente, derrotou o PRI na eleição presidencial, mas, ainda assim,
não tem o poder. Depois de ter sido despojado de triunfos legítimos,
durante décadas, o PAN volta a enfrentar a mesma situação, só que agora
não é o partido de Estado ou o governo que o privam do triunfo. Em
primeiro lugar, uma estrutura paralela (os "Amigos de Fox") tirou-lhe a
iniciativa de decidir quem seria o candidato à Presidência. Logo após
ter se filiado ao PAN, 12 anos atrás, Vicente Fox armou ma equipe
extrapartidária (que não demorou em tornar-se suprapartidária) para
impulsionar a sua pré-candidatura, e, logo em seguida, para promover a
sua candidatura à Presidência. Preso no ritmo marcado pelos "Amigos de
Fox", o grupo dirigente panista não demorou em dar-se por vencido e,
numa eleição interna semelhante à dos partidos republicano e democrata
dos Estados Unidos, limitou-se a ratificar o que os "Amigos de Fox" já
haviam decidido.
Do mesmo modo que no PRI, os políticos tradicionais ou históricos do PAN
(os "doutrinários") são suplantados por uma camada de novos políticos
que não só passaram de empresários a políticos (os chamados "bárbaros"),
como também trouxeram seus métodos empresariais que aplicam à ação
partidária. O PAN de hoje tem pouco a ver com aquele de González Morfín
e de Gómes Morín. A assídua resistência do panismo de ontem, que resiste
às imposições e aos arranjos palacianos, é substituída pelo pragmatismo
dos acordos secretos. A política como negócio entre dois indivíduos (eu
te dou, você me dá) e não como exercício cidadão e coletivo. Com este
PAN, a mesa ficou pronta para que Fox usasse como trampolim uma história
e uma estrutura solidas, com prestigio e eficiência. Poucas organizações
políticas podem vangloriar-se de ter a homogeneidade e o espírito de
corpo do Partido de Ação Nacional de ontem e poucas têm se deteriorado
tanto nesses aspectos e em tão pouco tempo como o PAN de hoje.
Há tempo, a política conservadora de Ação Nacional foi tomada como
abrigo da direita moderada. No ascenso de Fox, antes no interior do PAN,
em seguida durante a campanha, e agora com o triunfo, a ultradireita viu
o guarda-chuva, o refletor e a tribuna que procurava. Assim, em torno da
Ação Nacional, se desenrola uma luta surda entre ultras e moderados de
direita. Ao longo da disputa o partido vai desaparecendo, vai perdendo o
seu perfil e, parece, só contribui com um Fox triunfante em duas coisas:
a cor azul e o corpo que será responsabilizado pelos erros do novo
Executivo federal.
Ainda que alguns ingênuos digam que o PAN ganhou a Presidência da
República, os militantes da Ação Nacional sabem que não é assim e que,
agora mais do que nos dias em que o PRI era onipotente, será mais
difícil conseguir isso.

Os partidos políticos atiram no relógio quando percebem que o dia 2 de
julho demonstrou que não há grandes diferenças entre eles e um clube
social. Nas últimas eleições federais ratificaram aquilo que os anos
passados já insinuavam: já não são necessárias nem as propostas
programáticas e nem a militância partidária. A memória partidária é
substituída agora pelos comerciais e o melhor político é o melhor
trapezista.
Os três maiores partidos do México têm visto os princípios doutrinários
serem tão duradouros quanto as equipes de computação: duram apenas
alguns dias. É assim que os melhores referenciais da geometria política
servem muito pouco na hora de explicar os seguidos saltos dos políticos
de uma bandeira a outra.
Se até ontem os partidos políticos eram concebidos para formarem
militantes através dos quais seriam divulgadas as propostas políticas,
se cresceria e se chegaria ao poder, hoje isso mudou substancialmente.
Os partidos continuam sendo instrumentos para chegar ao Poder, mas agora
estão mais parecidos com um trampolim do que com uma escola. As mais
diversas personagens perambulam de um partido a outro sem que as
mudanças provoquem rupturas e sem se importar que os princípios, os
programas e os estatutos das organizações pelas quais passam não só são
diferentes, como têm pontos contraditórios.
Quantos panistas de carreira estão no gabinete de Fox? Não é ele mesmo
um "novato" com apenas 12 anos de militância partidária? Por que partido
já não passou Porfirio Muñoz Ledo? À exceção de López Obrador, que outro
governador perredista não era priista na véspera da escolha dos
candidatos? Em Tabasco, o ataque mais violento contra um candidato do
PRI não veio de um priista (Arturo Núñez)? Há apenas seis anos atrás, os
senhores Jorge Castañeda e Adolfo Aguilar Zinzer não estavam
assessorando um partido contrário ao do senhor Fox? Da tripulação do
navio afundado de Zedillo, quantos fizeram carreira política no PRI?
Não é pouco a pouco, e sim de forma acelerada, que os partidos vão se
transformando em grandes cascas vazias que servem só para dar uma
identidade comum a um grupo de cidadãos, da mesma forma pela qual um
grupo de torcedores de um time qualquer tem uma identidade comum. Os
grandes ideólogos e analistas políticos não são formados no interior dos
partidos políticos, e sim em suas periferias. PRI, PAN e PRD recorrem
invariavelmente a pessoas que não são do seu partido para pedir
conselhos, assessoria, orientação ou para que lhe digam tudo aquilo que
devem fazer. Ao atirar no relógio, os partidos políticos esquecem que
atiram no espelho: o presente do PRI aponta-lhes o seu futuro.

O presidente do IFE atira no relógio quando reivindica para si e para o
seu orçamento multimilionário o mérito da derrota do sistema de partido
de Estado. Ensurdecido pelos seus disparos, o IFE "esquece" várias
coisas: o grande desequilíbrio no acesso dos partidos políticos aos
meios de comunicação, o uso de recursos públicos para induzir o voto a
favor do PRI, os crimes eleitorais que, mesmo liderando a lista sem
nenhum competidor por perto, não foram exclusividade do PRI, o papel dos
observadores eleitorais nacionais e internacionais, o dique que alguns
meios de comunicação opuseram à provável resistência do PRI e do governo
em reconhecer os resultados (atenção: "alguns", outros, como o Excelsior
de Diaz Redondo, estavam dispostos a tudo por uma módica quantia) e,
sobretudo, esquece dos cidadãos. A presunção do presidente do IFE
pretende escamotear algo substancial no último processo eleitoral
federal: milhões de mexicanas e mexicanos resistiram à máquina eleitoral
do Estado e marcaram as cédulas de acordo com suas preferências. Sem
menosprezar o avanço em matéria eleitoral (cidadanização do IFE, maior
abertura nos meios de comunicação, fiscalização eleitoral), o que é mais
importante do dia 2 de julho é a rebelião de milhões de pessoas.

A equipe de Fox atira no relógio quando se vê com o Poder e descobre
esta lei da dialética que diz: "uma coisa é uma coisa e outra coisa é
outra coisa". Fazer uma campanha eleitoral e preparar uma equipe e um
programa de governo não são a mesma coisa. E os da equipe de Fox estão
enojados. No lugar de agradecimentos e caravanas de veneração, toparam
com uma imprensa vigilante e crítica, com alguns cidadãos que se
empenham em continuar sendo cidadãos. Vêem com indignação e decepção que
os grandes problemas nacionais não serão resolvidos com a simples
notícia de sua chegada ao governo. Descobrem angustiados que já não é
possível enfrentar as coisas com monossílabos ("já! Já! Já!", "Hoje!
Hoje! Hoje!"), e que aquilo que funcionou como mote de campanha não
funciona como plano de governo. Vêem com impotência que a velha política
mantém ainda estendida as suas malhas diante das quais a mentalidade
empresarial pode fazer pouco ou nada. Descobriram que o cenário no qual
apresentavam a sua obra "Sou Alternância mas me chamam Transição" está
preso com alfinetes. Por quanto tempo poderá agüentar o esforço de
apresentar uma troca de governante como se fosse a transição para a
democracia?
Ao atirar no relógio, a equipe de Fox grita: "Um momento! Agora que
estou no poder quero que as coisas continuem do mesmo jeito, que as
pessoas voltem à passividade e ao conformismo, que os meios de
comunicação voltem às suas telenovelas, seus programas musicais e
charges engraçadas, que os rebeldes por toda a vida se tornem submissos
e obedientes, que a Loba se torne cordeiro e que os paramilitares
desprezem os generais seus donos, que os indígenas renunciem às suas
reivindicações e se conformem com "fusca, televisão e mercearia", que as
mulheres deixem de lado estas coisas maléficas como essa de pretender
decidir sobre seus corpos, que os jovens esperem com paciência e
resignação o seu lugar no pesadelo, que os homossexuais e as lésbicas se
auto-exiliem em closet coletivos (bem afastados, isso sim), que os
operários descubram seus erros e se tornem prósperos capitães da
indústria, que os camponeses abandonem esse absurdo histórico pelo qual:
"a terra é de quem nela trabalha" e façam do trabalhar no rancho de San
Cristóbal (ou seu equivalente) a sua maior aspiração, que professores,
estudantes, colonos, taxistas, empregados e os etceteras que povoam a
realidade nacional façam só aquelas manifestações que são para aclamar
os novos salvadores da Pátria e pedir que fiquem, pelo menos, 71 anos".
A equipe de Fox grita e atira, mas ninguém a escuta. Melhor, todos a
ouvem muito bem e por isso repetem o "NÃO!" que deu origem a toda esta
bagunça.
Lá em cima, quase todos atiram no relógio para deter a hora. Lá em baixo
alguns sorriem e mexem no relógio. Não para atrasá-lo. Não para detê-lo.
Não para que ande mais depressa. Só para dar-lhe corda e fazer com que a
hora chegue como deve chegar, ou seja, com todos e no tempo certo.

Contradizendo a física, em política o vazio é também um espaço de ação.

No dia 2 de julho, o PRI não perdeu só a presidência da República, como
sofreu uma derrota histórica. Esta derrota é o resultado de muitas
lutas. È uma mesquinharia não reconhecer isso e não comportar-se de
forma coerente.
A derrocada do sistema de partido de Estado deixou um vazio. Este vazio
tem que ser preenchido. Ou seja, não se trata só de exigir o título de
vencedor histórico, como também (e sobretudo) de ocupar o espaço que foi
deixado vazio pelo PRI. E ainda que este vazio signifique desgoverno,
desconcerto e desorganização, significa também que muitas forças se
livraram das ataduras e das lógicas perversas. Cinco meses depois do dia
2 de julho o espaço continua vazio. A substituição de uma classe
política por outra não poderá acontecer de acordo com as "velhas
regras". Neste meses têm prevalecido a confusão, a desordem e o caos. A
mal chamada "transição de veludo" tem a lisura de uma lixa de ferro.
Não há uma transição democrática. Há uma alternância. E a prova de que o
espaço deixado pelo sistema de partido de Estado continua vazio, está no
fato de que para a nova classe política (ou político-empresarial) o
programa do qual está incumbida a equipe de Fox não é o de realizar a
alternância (Zedillo preparou-lhe a mesa - mal, claro, como tudo aquilo
que fez) e sim de convencer as pessoas de que devem voltar à sua
passividade anterior e "deixar que o governo governe".
A dificuldade que a equipe de Fox tem para ocupar o espaço deixado pelo
PRI se explica pelo fato de que, ainda que não se possa falar de uma
"transição democrática", há porém uma mudança radical na cultura
política dos cidadãos. E não só deles, também de alguns meios de
comunicação. É isso que será a nova "pedra no sapato" do executivo
federal, que, segundo revelam os gestos de Martha Sahagún, deve ser
enfrentada com métodos muito "democráticos": uma estrutura de
comunicação presidencial que, mais do que informar, se encarregue de
"proteger" a informação; e uma legislação que "controle" (ou seja,
"censure", mas evita-se usar esta palavra) a imprensa.
A ofensiva da direita (a criminalização do aborto das mulheres
estupradas em Guanajauto, a beligerância de Pro Vida), a resposta
organizada de grupos feministas, a resistência cidadã em aceitar sem
reclamar as tentativas de fazer pesar o Imposto sobre Valor Agregado
(IVA) sobre os alimentos e os remédios, o escândalo do Registro Nacional
de Veículos (Renave), a ofensiva de Salinas e a contra-ofensiva de
Zedillo, as mobilizações dos trabalhadores a serviço do Estado e o papel
ridículo da PGR em suas ações contra os paramilitares em Chiapas,
revelaram à equipe de Fox que no panorama nacional quase ninguém
acreditou na história da transição democrática.
Pelo que se consegue ver no gabinete de Fox, seus sinais e tendências
apontam para o fato de que terá pouca política e muita administração. De
fato, são poucos os políticos-políticos que integram seu gabinete. No
lugar deles, abundam os gerentes. Se o novo Executivo federal renunciou
a fazer política, então esta ação (indispensável na arte de governar)
deverá ser levada adiante pelos outros poderes da União, concretamente,
pelo Congresso da União (a Câmara dos Deputados e o Senado).
Para cumprir esta tarefa (que Fox pensa não fazer) deixada pelo vazio
gerado pela derrota do PRI, o Congresso da União tem vários caminhos:
A tarefa principal é a de não permitir que o presidencialismo se
recomponha, ainda que seja com um Executivo cujo titular é de outro
partido político. A verdadeira vida republicana precisa, entre outras
coisas, de um verdadeiro equilíbrio entre os poderes. O lugar que o
Poder Legislativo deve ocupar no interior da República não lhe será
outorgado por obra e graça do Executivo federal, mas é algo pelo qual os
deputados e os senadores devem lutar. Não devem ser desprezados os
avanços que, nesse campo, tivemos nas duas últimas legislaturas.
O Congresso da União deverá reverter a inércia de ser caixa de
ressonância do executivo. O equilíbrio na composição das duas Câmaras
obrigará os legisladores a dialogar entre si como representantes do povo
e não como representantes dos partidos. O Poder Legislativo não deve
tornar-se um ringue de boxe político (às vezes não é só político) entre
os representantes. Não porque isso significa que eles renunciam às suas
diferenças e antagonismos, mas porque o espaço de confrontação dessas
diferenças e antagonismos está no campo eleitoral, diante dos cidadãos.
Enquanto legisladores, o dever deles não é em relação ao partido que
representam, e nem só para com os eleitores que votaram neles, e sim em
relação a um país que acaba de livrar-se de uma carga pesada e deve
criar um futuro.
Deverá superar o controle-suplantação dos dirigentes dos partidos
políticos. Como parte do sistema político que foi derrotado no dia 2 de
julho, está a suplantação que não poucas vezes é realizada pelos
dirigentes partidários. No passado imediato, não foram poucas as leis
que foram negociadas entre o Executivo e as direções dos partidos
políticos, deixando os legisladores no papel de receber a "linha",
alguns do Executivo e outros dos seus partidos políticos. A lógica do
dirigente partidário não é a mesma que a do legislador. Não estamos
dizendo que uma é "boa" e a outra é "má", só que são diferentes. O
dirigente partidário faz o que sua organização precisa, o legislador
deve fazer o que o país precisa. Não é a mesma coisa.
Deverá ter visão de Estado. Não só porque será inútil esperá-la do
Executivo, mas também porque o impacto da ação do legislativo ultrapassa
o mandato. Enquanto as ações do Executivo dificilmente irão além do seu
período de governo, as dos legisladores (enquanto "fazedores das leis")
vão muito mais longe dos três ou seis anos do seu mandato.
Deverá ser sensível aos grandes problemas nacionais. A maioria dos
legisladores sabe que os principais pontos da agenda nacional não podem
ser enfrentados com critérios empresarias, e que são necessários o
diálogo, a construção de pontes e a busca de acordos. A produtividade, o
barateamento dos custos e a abertura dos mercados são parâmetros que
dificilmente podem orientar a suprema tarefa de criar leis nacionais.
Para resolver os grandes problemas são necessárias a inteligência, a
criatividade e a audácia. De outra forma, o trabalho do Legislativo se
torna uma instância de "consertos e remendos". E para não cair nisso,
deverá abandonar também a tentação (tão cara aos regimes anteriores) de
administrar conflitos e dosar soluções.
Deverá contralegislar e legislar de modo que a soberania nacional possa
ser resgatada e tenha condições de enfrentar o emergir de velhas-novas
realidades (indígenas, mulheres, operários, camponeses, homossexuais e
lésbicas, jovens, crianças, donas de casa, colonos, pequenos e médios
proprietários e comerciantes).
Sim, o Congresso Nacional tem um papel importante na tarefa de chegar,
agora sim, à transição democrática, a possibilidade de uma transição
real está na mobilização da sociedade, em seu negar-se a ser cidadã só
na hora das eleições. Ser cidadão não é só pagar impostos e cumprir as
leis. É também cobrar satisfação, exigir resultados e vigiar
desempenhos.
Com cidadãos de tempo integral, com uma democracia que não é só
eleitoral, o México não será o melhor dos Méxicos possíveis, mas poderá
decidir coletivamente o seu destino, e esta será a transição
democrática.



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