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(pt) Fórum Social Mundial

From <mrs.ana@uol.com.br>
Date Fri, 22 Dec 2000 07:24:53 -0500 (EST)


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      A - I N F O S  N E W S  S E R V I C E
            http://www.ainfos.ca/
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-----Mensagem original-----
De: Federação Anarquista Gaúcha <fag.poa@terra.com.br>

Companheir@s

Um amigo fez a tradução de um texto sobre o Fórum Social Mundial que foi

publicado no "Le Monde Libertaire" nº 1219, 1ª semana de novembro,
escrito
por um integrante da Federação Anarquista da França. Este Fórum, para
quem
não sabe, vai ocorrer em POA de 25 a 30 de janeiro, em contraposição ao
Fórum de Davos. Porto Alegre foi "escolhida" como sede por representar
"um
exemplo de gestão pública democrática e cidadã". Muitas pessoas e
organizações internacionais estarão por aqui. Este texto é bem
representativo da opinião da FAG em boa medida. Vale à pena ler, é uma
bela
crítica.
Abraços
.Brasil : fórum mundial social em Porto Allegre (sic)

Seis dias para abalar o mundo ?

Lê-se, no Monde Diplomatique de agosto de 2000, uma nota anunciando a
organização do Fórum Social mundial (FSM), pela primeira vez, em Porto
Alegre (Brasil) de 25 a 30 de janeiro próximo. Esse fórum lembra-lhe sem

dúvida outro ? Bingo ! Na mesma data ocorre, em Davos (Suissa), o Fórum
econômico mundial (FEM), grande encontro anual dos reis da finança,
mestres
das multinacionais e outros gurus dos grandes órgãos de regulação da
economia mundial. Em Davos, os ogros da finança e da economia compõem
seu
próximos cardápios... resta aos homens políticos achar a receita para
cozinhar a sociedade e fazer com que ela renda o máximo de caldo
póssivel.

 Essa sociedade, que a linguagem política chama agora de "civil", se
revolta. A guisa de resposta (ou até de revide ?), está organizando um
contra-encontro de cúpula que, mesmo sem acabar com o capitalismo
mundial,
oferecerá às orelhas interessadas um discurso bem diferente daquele de
Davos. No sumário : trocas e debates em torno da economia, política,
ciência, tecnologia, cultura, temas colocando problemáticas mais ou
menos
novas para a sociedade. Em resumo, anuncia-se um programa cobrindo um
campo
quase infinito para um fórum de menos de uma semana. Ambicioso.

 Dito isto, não se esperam menos que dois a três mil participantes,
entre
os quais se encontraram dirigentes sindicais, representantes de
associações,
de fundações, de ONGs (Organizações Não Governamentais), de redes de
movimentos cidadãos (como por exemplo ATTAC que, certamente não por
acaso, é um dos divulgadores do encontro), militantes ecologistas,
feministas, dos direitos
humanos, patrões de pequenas e médias empresas dos países do Sul,
personalidades religiosas, eleitos locais e nacionais, intelectuais...
Para
receber toda essa gente fina, os organizadores do FSM vão investir o
Centro
de Conferência da Universidade Católica de Porto Alegre [PUC], cujo
grande
auditório pode receber cerca de duas mil e quinhentas pessoas, e que
possui
todo o equipamento necessário para esse tipo de evento. Outros
auditórios e
sessenta salas servirão às oficinas de experiência e coordenação.

Reabilitação da democracia representativa

Esse Fórum Social Mundial fará eco, sem dúvida alguma, aos estrondos de
revolta ouvidos em Seattle, em Washington, em Davos, contra a
Organização
Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.
Alguns lamentaram o fato de o Ocidente, tanto na promoção como no
requisitório do capitalismo mundial, monopolizar a palavra e
expressar-se
em nome no lugar dos mais miseráveis (que vivem nos países do Sul e são
infelizmente mais submetidos à selvagem exploração gerada pela
mundialização). Desta vez, estes vão ser atendidos ! O Brasil, que ocupa
um
lugar pouco cobiçado entre as economias sinistradas, oferecerá uma
tribuna
aos excluídos e poder-se-á dizer que enfim, estes, os verdadeiros
esquecidos
pela economia de mercado, terão a oportunidade de puxar a voz. Sim,
porém...
É estranho que esse Fórum Social Mundial ocorra no mesmo momento que seu

homólogo econômico em Davos.
Se o objetivo fosse desviar a atenção da « sociedade civil » e fazer com

que ela perca a Suíça de vista, esta seria a melhor maneira. De fato,
enquanto
o « contra-poder planetário » tão glorificado pelo Monde Diplomatique
vai se
organizar em Porto Alegre, os negócios vão continuar, e parece que
ninguém
pensa em ir estragar a cozinha de Davos. Não ouvimos ninguém evocar, por

exemplo, a idéia de organizar uma « coluna dos miseráveis », a partir de

Porto Alegre (e por que não, aliás ?), que chegaria em Davos durante o
Fórum econômico. Só para tirar satisfação...  Como se, ao criar o
equivalente
social do FEM, o desejado não fosse parar o jogo capitalista, mas antes
trocar as cartas, reequilibrar um sistema que embalou às custas dos
cidadãos:
deixando claro, dar ao capitalismo o rosto humano que lhe faltou sempre,

dar-lhe uma nova legitimidade, até um ar de amabilidade, colocando nele
o
selo « controlo cidadão, testado e aprovado pela sociedade civil ».

 Os organizadores do FSM, aliás, não contestam a ordem econômica em seu
princípio. Como a ATTAC (Associação pela Taxação das Transações
Financeiras
para o Auxílio aos Cidadãos), militam a favor de uma participação ativa
dos
cidadãos nas decisões políticas e econômicas, fórmula vagamente
inspirada
das idéias libertárias, que daria um novo brilho à democracia. A escolha
de
Porto Alegre explica-se então claramente, pois o governo municipal e
estadual (Rio Grande do Sul) experimentam formas de democracia
participativa
(principalmente na gestão do orçamento), que muitos sonham em aplicar em

outros lugares. Poderia também ser explicada por esta estranha
coincidênci
: durante as últimas eleições presidenciais no Brasil, o Partdo dos
Trabalhadores (esquerda radical) dirigido por Luís Inácio da Silva,
principal adversário do atual presidente da República (Fernando Henrique

Cardoso) ganhou três Estados, incluído o do Rio Grande do Sul. Com 31,7
%
dos votos, o PT ficou bem perto da formação de Cardoso (o Partido
Social-Democrático Brasileiro), com 21 pontos de diferença... A
organização
de um Fórum Social Mundial, apoiada pelos governos estaduais e
municipais,
parece então uma bela operação promocional a favor do principal
adversário
do presidente Cardoso nas próximas eleições presidenciais... Mas os
anarquistas são más línguas, é fato bem conhecido.

O recinto da nova esquerda

Nutrindo uma certa crítica da mundialização da economia (disto nos
regozijamos), o FSM vai se tornar sem dúvida o recinto da Nova Esquerda,

onde serão debatidas anualmente questões ligadas ao controlo cidadão da
economia. Mas, como reconhecemos acima, as más línguas anarquistas não
poderão deixar de dizer que essa iniciativa visa a restaurar e
legitimar,
através da « sociedade civil », um poder que os políticos deixaram nas
mãos
das empresas transnacionais. Na época em que os escrutínios revelam uma
desafeição - e sem dúvida um constrangimento - crescente dos cidadãos
para
com as eleições, o fato de dar brilho à democracia representativa
aparece
como uma aposta importante. Porém, mesmo assim, num sistema econômico
como
o nosso, pode-se ainda acreditar no controlo cidadão do mandato
eleitoral ?

Pode-se realmente acreditar nessa função participativa da democracia
representativa ? Os fatos mostram que sem a revogabilidade dos mandatos,

qualquer delegação de poder leva a sua confiscação. É a triste realidade
da
democracia. E é difícil ver os políticos aceitarem colocar seu mandato
em
jogo para melhor responder às legítimas aspirações do povo. Além disso,
quando alguns elogiam as "conferências de cidadãos" (cuja primeira foi
organizada na França pelo Ofício parlamentário de avaliação das opções
tecnológicas sobre os organismos geneticamente modificados) que dão a um

painel de indivíduos a oportunidade de debater sobre uma questão pública

importante, esquecem o fato de que a opinião expressa pelo grupo tem
valor
apenas consultativo. Não são loucos, os "democratas", arrumando sempre
um
jeito de vencer.

 O próximo Fórum Social Mundial quer revisar e corrigir a teoria do
Estado-Providência ? O mito não está perto de morrer... Em todo caso, o
capitalismo pode moer tranqüilamente : com ou sem (ou antes, pouco)
Estado,
ele sempre funcionou. Será preciso lembrar que o capitalismo é um
sistema
baseado no princípio da concorrência, da competição, e que toda
competição,
seja ela justa ou arranjada, implica mais perdedores do que vencedores ?

Será preciso lembrar que esses perdedores, jogados para fora da corrida,

apodrecem numa miséria mais ou menos sórdida ? Não será em Porto Alegre
que
se achará um rosto humano ao capitalismo. Do dia 25 a 30 de janeiro de
2001,
por trás da ingênua máscara do Brasil, será a face horrível de Davos que

dará risinhos.

Steph. - grupo de Strasbourg




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