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(pt) AS VERDES ÁGUAS DE CUBATÃO

From ANA <ana@brasil.com
Date Thu, 14 Dec 2000 15:11:45 -0500 (EST)


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      A - I N F O S  N E W S  S E R V I C E
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AS VERDES ÁGUAS DE CUBATÃO

Era 25 de fevereiro de 1984. Alguns habitantes do bairro de Vila Socó
haviam percebido a presença de
fortes exalações. Fato contudo pouco relevante em Cubatão, “a cidade
mais poluída do planeta”.[1] Estamos
no gigantesco estuário do porto de Santos, a 70 quilômetros de São
Paulo, no coração do maior polo
petroquímico da América Latina. Um lugar onde, a partir dos anos 70, os
telhados das casas deviam ser
substituídos a cada dois anos por causa da corrosão. Tempos nos quais
Paulo Nogueira Bastos, ministro da
ditadura militar, podia declarar: “O Brasil pode ainda arriscar de
importar poluição”.<?xml:namespace prefix
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Naquele dia, todavia, às exalações seguiu o derramamento de 700.000
litros de óleo combustível. O incêndio
em que isto resultou causou uma catástrofe humana e ecológica de
proporções espantosas. As cifras
aumentavam de hora em hora alcançando um recorde até para o matadouro
Brasil: 500 entre mortos e
desaparecidos, 8.000 feridos e intoxicados. Mas aqueles eram tempos
cujas reflexões sobre os inevitáveis
custos do desenvolvimento prevaleciam sobre qualquer outra consideração.
O Terceiro mundo, assim como a
Europa no século precedente, devia pagar o seu próprio ônus para tomar a
via do progresso. Interessante
deste ponto de vista, a divulgação da notícia por parte dos jornais
italianos. “Corriere della sera”, 26 de
fevereiro: uma displicente coluna na página de exterior com um balanço
provisório de 100 vítimas. No dia
seguinte aparece, sempre na página de exterior, uma foto um tanto quanto
confusa, com uma legenda na
qual o dado resulta triplicado. Nas edições sucessivas cala o silêncio.



No Brasil na metade dos anos 80 os militares detêm ainda o monopólio da
informação e a Petrobrás,
responsável por uma longa cadeia de acidentes, é uma estatal. O bairro
próximo de Vila Parisi será evacuado
dois anos após: estado de emergência por poluição do ar. Atualmente, nos
pés das encostas que circundam
a planície de Cubatão se notam agrupados de casebres mais parecidos a
favelas do que a assentamentos. É
para lá que foram confinados os 15.000 desalojados e tantos outros que
nos anos sucessivos vieram dos
campos para a cidade buscando uma esperança no inferno. Não obstante o
sufocamento, ainda nos
golpeiam as suas palavras: “Melhor morrer de leucopemia do que de fome”.



O retorno à vida democrática foi complexo. Aos militares seguiu um
período de transição por eles guiado,
para alguns ainda longe de terminar. Os movimentos ecologistas nascem
nos anos 90, procurando sustentar
a questão ambiental dentro de um panorama dominado pela necessidade de
sobrevivência dos deserdados
das periferias metropolitanas e do Nordeste. O Coletivo Alternativa
Verde é fundado em Santos em 1991. De
inspiração libertária, vive uma fase de forte crescimento durante um par
de anos, afundando-se depois frente
às enormes dificuldades do contexto local. O porto é a maior estrutura
naval existente abaixo da linha
equatorial, e por seu cais transita a produção dos estados de São Paulo,
do Mato Grosso e de Minas Gerais.



Além das refinarias da Petrobrás, o polo petroquímico hospeda numerosas
multinacionais e suas filiais: a
célebre Union Carbide, a Dow Chemical, a Manah, a Ultrafértil, a Rodhia.
A partir da primeira – é significativo
o eixo Santos-Bophal – as empresas são acusadas de utilizar processos de
produção poluentes,
incompatíveis com os mínimos padrões de saúde e vida. Processos e
escórias, na época da globalização
mais adaptáveis ao sul do planeta do que ao mundo desenvolvido. Produzem
em particular, pesticidas e
fertilizantes, estes últimos na origem do enorme acúmulo de calcário
tóxico, resíduo de trabalho. A Rodhia,
química fina e componentes para tintas, foi acusada de lançar no
ambiente organo-clorados, causadores de
graves doenças genéticas. Merece citação a impressionante planta
siderúrgica da Cosipa, responsável entre
outras coisas pela dispersão no mar do benzoapireno, componente
cancerígeno.



Uma pesquisa da Universidade Santa Cecília reconstruiu os processos de
mutação genética de um peixe
local chamado raia. Casos de malformação são freqüentes inclusive entre
a população, com uma taxa 6
vezes superior à média nacional. A Petrobrás, a quem se deve os dois
recentes desastres, o da Baía de
Guanabara no estado do Rio de Janeiro e o do Rio Iguaçu, no Paraná, não
parece ter mudado o seu
comportamento. Suas chaminés, que emitem nitratos de enxofre e ozônio,
foram as responsáveis pelas
chuvas ácidas, que nos anos 70 e 80 tiveram conseqüências relevantes.
Nas costas de Cubatão se ergue a
alta escarpa que divide a costa do planalto de São Paulo. Uma formação
natural cujo equilíbrio
hidrogeológico foi comprometido pelo desmatamento, levando a sucessivos
deslizamentos das encostas,
cheias torrenciais e assoreamentos.



À frente de uma retomada geral dos movimentos ecologistas e de uma forte
reação local, o CAVE ressurge
em 1997. Se a primeira fase foi caracterizada pela atividade de
sensibilização da população, a atual parece
orientada para as denúncias dos crimes ambientais. O núcleo base se
forma no interior da Casa de Cultura Jaime Cubero, nome
de um famoso militante anarquista paulista, desenvolvendo um intenso
trabalho em rede com as realidades
libertárias da região. O perigo que logo se evidencia resguarda a uma
possível perda de apoio entre a
população, como conseqüência das denúncias relativas às ocupações. O
retalhamento das empresas inclui o
fechamento e a transferência de alguns empreendimentos, caso não sejam
licenciados. Ameaças cuja
responsabilidade pode ser imputada ao CAVE, constrangendo seus aderentes
a uma posição delicada e conflituosa. A
imprensa se divide, acusando o coletivo de radicalismo e insensibilidade
inclusive para condição das classes
mais humildes.



O CAVE contrataca, seja utilizando os poucos espaços de informação
disponíveis, seja criando um capilar
trabalho de formação no território. Se entende que a atividade de defesa
ambiental não possa prescindir de
um complementar empenho junto aos bairros. Temáticas que retomam as
teses da ecologia social em voga
nos anos 70 e que empurram o grupo a realizar uma interessante
experiência de alfabetização para adultos
na comunidade de Conceiçãozinha. Comunidade de pescadores milagrosamente
resistente à conurbação
selvagem em volta, espremida entre o porto em constante expansão e a
propriedade da Dow Chemical.
Comunidade com capacidade de reação tanto às tentativas de
desapropriação e expulsão, como de
sobreviver à constante diminuição da pesca e à progressiva degradação
higiênico-sanitária. Significativo em
relação a isso o comportamento da prefeitura local orientado para o
abandono e a segregação.



A área metropolitana compõe-se de 5 diferentes municípios, para um total
de 1.300.000 habitantes. O porto
está protegido do lado interno da ilha, e se estende ao longo dos braços
fluviais do grande estuário de
Santos. Este ocupa uma ilha ao centro da baía, a um tempo não longínquo
oásis rico em peixe e fauna
subtropical. Em seguida, desde o início da onda de imigração e pelo seu
estilo, foi chamada de “a Barcelona
brasileira”. Hoje é um amontoado de cimento e casarões de várias formas
e volumes, crescidos sem
planejamento durante a ditadura. Santos tornou-se nos anos 70 o
balneário da pequena e média burguesia
paulista. Uma coroa de arranha-céus mal construídos e inquietantemente
inclinados circunda a grande praia
e permanece, como uma dentadura gasta, à espreita da queda. A
especulação não arrefeceu com o retorno
da democracia, tomando maciçamente, depois da saturação da ilha, o
continente e a vizinha Guarujá. As
mais recentes incorporações agrediram colinas e promontórios, que, com
uma lógica totalmente brasileira,
deveriam ser reserva federal, portanto não edificáveis.



Âmbito privilegiado da atividade do CAVE também se tornou a luta contra
a construção desenfreada. O grupo
tem promovido uma campanha contra a desregulamentação ambiental e os
abusos imobiliários, e enviou seus
próprios integrantes às reuniões do Plano Estadual de Gerenciamento
Costeiro. Desde a retomada de suas
atividades em 1997, apresentou 40 denúncias, entre as quais uma contra a
citada Cosipa e outra, por
suspeita de enterro de resíduos contendo dioxinas, contra a Dow
Chemical. Um suporte importante veio do
Greenpeace, mas a fileira de inimigos tornou-se progressivamente densa.
Processos por difamação foram
apresentados por excelências da vida política local. Para aqueles que se
aproximam do movimento torna-se
sempre mais difícil obter, ou conservar, um lugar de trabalho. Os
recursos do coletivo, que tampouco possui
uma sede própria, são inadequados para sustentar suas atividades.



A despeito do frenético empenho do grupo, cujos quarenta ativistas se
reduziram a uns vinte, a fase atual tem
a conotação de refluxo. Os bairros aparecem menos envolvidos; as pessoas
mais temerosas da repressão e
das possíveis conseqüências das denúncias. Através de algumas
significativas exceções, o comportamento
resulta ambivalente: de um lado se considera o CAVE um interlocutor
autorizado, de outro uma ameaça.
Ajudam-no fazendo funcionar a rede para a colheita de informações, mas o
isolam definindo como
contraproducentes suas finalidades e seus métodos. Se consenso e
participação se registram em particular
nas escolas, no empenho cotidiano os jovens não mantêm constância. Assim
resulta uma carga de trabalho e
de responsabilidade crescente para o núcleo militante e um sentimento de
geral cansaço.



Em Cubatão, a cidade mais poluída do planeta, alguns começaram a reagir.
O trabalho executado poderá
servir para mandar em rede mais um especial para as televisões
ocidentais ou agilizar um novo mega projeto
calado desde o alto. O trabalho desenvolvido, se conseguíssemos
sustentar o CAVE e valorizar a sua ação,
poderia ser o fundamento de uma real tomada de consciência e de uma
mudança.



Santos-Milão, 20 de outubro de 2000.





Para Revista A
(Itália)                                                  Massimo
Annibale Rossi


tradução de Carlo Romani.



[1] U. Beck, Risk society, Sage Pub., Londres, 1992 (ed. orig. Frankfurt
1986), p. 46.




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